O milagre eucarístico de Assis é o episódio em que Santa Clara, em 1240, numa sexta-feira de setembro, enfrentou soldados sarracenos que haviam entrado no mosteiro de São Damião. Doente, ela pediu que a levassem até a porta, diante do Santíssimo Sacramento, e rezou; segundo o relato, os invasores fugiram. Não há uma relíquia material deste milagre: a memória dele está nos textos antigos sobre a santa e na arte cristã.
O que aconteceu em Assis?
A principal fonte é a Legenda de Santa Clara, a biografia antiga da santa, que a tradição atribui a Tomás de Celano. O texto conta vários prodígios ligados a Clara, como pães multiplicados e jarros de azeite que reapareceram quando o mosteiro já não tinha nada. Mas o episódio mais conhecido é o da defesa de São Damião.
O contexto
Nos anos de 1240, o imperador Frederico II estava em guerra com o Papado, e suas tropas devastavam o centro da Itália. Entre os soldados a seu serviço havia arqueiros sarracenos, isto é, muçulmanos. Durante um ataque contra Assis, um grupo deles chegou a São Damião, o mosteiro onde viviam Clara e suas irmãs, fora dos muros da cidade, e entrou no claustro.
Vale ler o episódio com equilíbrio. Esses soldados eram mercenários a serviço de um imperador cristão, numa guerra entre cristãos. O relato fala de um ataque armado, não de um julgamento sobre a fé dos muçulmanos. A Igreja, no Concílio Vaticano II, declarou olhar com estima os muçulmanos e pediu que se superem as hostilidades do passado (declaração Nostra Aetate, n. 3).
A oração de Clara
O relato descreve as irmãs em pânico, chorando e pedindo socorro à abadessa. Clara estava doente. Mesmo assim, pediu que a levassem até a porta e a colocassem diante dos inimigos. À sua frente ia uma pequena caixa de prata, forrada de marfim por dentro, onde se guardava com devoção o Corpo do Senhor.
Prostrada, Clara rezou em lágrimas. Segundo a Legenda, pediu a Cristo que não entregasse aos inimigos as irmãs que ela havia formado por amor a Ele, já que ela sozinha não podia protegê-las. O texto conta que se ouviu então uma voz, como de criança, que dizia: "Eu vos guardarei sempre". Clara pediu também pela cidade de Assis, e a voz respondeu que a cidade passaria por provações, mas seria defendida.
Clara então ergueu o rosto e encorajou as irmãs a confiar em Cristo. Os soldados, tomados de medo, abandonaram depressa os muros que tinham escalado. A santa ainda pediu às irmãs que tinham ouvido a voz que não contassem nada a ninguém enquanto ela vivesse.
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Como é a devoção hoje?
Este milagre não deixou uma relíquia como uma hóstia ou um corporal. A sua memória vive em outros lugares:
- no mosteiro de São Damião, em Assis, onde os fatos aconteceram;
- na basílica de Santa Clara, em Assis, onde está a urna com o corpo da santa e onde há um ícone que recorda o episódio;
- na arte: o catálogo reproduz, entre outras obras, uma pintura de Giuseppe Cesari sobre o assalto a Assis, conservada no Museu Hermitage, em São Petersburgo, e um quadro de Enrico de Vroom, de 1587.
É por causa deste episódio que Santa Clara costuma ser representada segurando um ostensório ou uma píxide com o Santíssimo Sacramento.
A Igreja reconheceu o milagre de Assis?
O catálogo não menciona um decreto específico de reconhecimento deste milagre. O episódio pertence à tradição sobre a vida de Clara, registrada na Legenda. A própria Clara foi canonizada pelo Papa Alexandre IV em 1255, apenas dois anos depois de sua morte. Mesmo assim, como em todo prodígio particular, o fiel não é obrigado a crer neste relato para ser católico (Catecismo, n. 67).
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O que o milagre de Santa Clara ensina sobre a Eucaristia?
Diferente de outros milagres eucarísticos, aqui a hóstia não se transforma em carne nem sangra. O sinal está na fé de uma mulher frágil, que não tinha armas nem força, e confiou tudo à presença de Cristo no Sacramento.
A fé católica ensina que Cristo está presente na Eucaristia de modo verdadeiro, real e substancial (CIC 1374), e que essa presença continua depois da Missa, enquanto subsistem as espécies (CIC 1377). É isso que dá sentido à reserva no sacrário e à adoração. Clara guardava o Santíssimo no mosteiro e recorreu a Ele na hora do perigo. Jesus prometeu: "Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele" (Jo 6,56).
O relato também mostra o lugar da oração humilde. Clara não exige nada: pede, chora e confia. A Eucaristia não é uma arma contra pessoas, mas a presença do Senhor que sustenta os seus.
Perguntas frequentes
Quando aconteceu o milagre de Santa Clara com a Eucaristia?
Em 1240, numa sexta-feira de setembro, segundo a Legenda de Santa Clara.
Quem eram os soldados que atacaram São Damião?
Eram sarracenos a serviço do imperador Frederico II, que estava em guerra contra o Papado na época.
Por que Santa Clara aparece segurando um ostensório?
A iconografia recorda este episódio, em que ela enfrentou os invasores diante do Santíssimo Sacramento.
Existe relíquia do milagre de Assis?
Não há uma relíquia eucarística deste milagre. O corpo de Santa Clara é venerado na basílica que leva seu nome, em Assis.
Para aprofundar
- Santa Clara de Assis, fundadora das Clarissas
- Carlo Acutis e a catalogação dos milagres eucarísticos
- O que é o Santíssimo Sacramento e a adoração
- Milagre eucarístico de Cascia, também na Úmbria
Fontes
Milagres Eucarísticos no mundo: catálogo da exposição de São Carlo Acutis; Legenda de Santa Clara, atribuída a Tomás de Celano, conforme citada no catálogo; Catecismo da Igreja Católica (n. 67, 1374 e 1377); Concílio Vaticano II, declaração Nostra Aetate; Bíblia Sagrada (tradução da CNBB).
As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.