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Marcos

Marcos 9: a Transfiguração e “Eu creio, ajuda a minha fé”

Leia Marcos 9 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 9 começa com a Transfiguração: no alto de um monte, Pedro, Tiago e João veem a glória de Jesus e ouvem a voz do Pai. Ao descer, Jesus liberta um menino possuído, depois que o pai faz uma das orações mais humanas da Bíblia. O capítulo segue com o segundo anúncio da Paixão e ensinamentos sobre servir, acolher os pequenos e evitar o escândalo.

Contexto de Marcos 9

Em Marcos 8, Pedro confessou Jesus como o Cristo e ouviu, pela primeira vez, que o Messias deveria sofrer. Os discípulos ficaram abalados. A Transfiguração vem como uma confirmação: o caminho da cruz é também o caminho da glória. Em seguida, Jesus atravessa a Galileia em direção a Jerusalém, instruindo os discípulos pelo caminho.

Explicação de Marcos 9

Versículo 1: o Reino que vem com poder

Jesus diz que alguns dos presentes não morrerão sem ver o Reino de Deus chegar com poder. A frase está ligada ao que vem logo depois. Muitos intérpretes, desde os primeiros séculos, a entenderam como referência à Transfiguração, que três discípulos verão dali a poucos dias, e, de modo mais amplo, à Ressurreição e à vinda do Espírito.

Versículos 2 a 8: a Transfiguração

Seis dias depois, Jesus leva Pedro, Tiago e João a um monte alto, a sós. A tradição identifica esse monte com o Tabor, na Galileia, mas o texto não diz o nome. Jesus se transfigura diante deles: suas roupas ficam brilhantes, de uma brancura que nenhum lavadeiro conseguiria. Aparecem Elias e Moisés conversando com ele. Moisés representa a Lei; Elias, os Profetas. Ambos tiveram encontros com Deus no monte (Ex 24; 1Rs 19).

Pedro, sem saber o que dizer, propõe fazer três tendas. Talvez pensasse na festa das Tendas, ou quisesse prolongar aquele momento. Então uma nuvem os cobre, sinal da presença de Deus como no deserto (Ex 40,34), e uma voz diz: “Este é o meu Filho amado. Escutai-o!” (Mc 9,7). É a mesma voz do Batismo (Mc 1,11), agora dirigida aos discípulos, com uma ordem: escutar, inclusive quando Jesus fala da cruz. De repente, olhando ao redor, veem apenas Jesus com eles.

O Catecismo explica que, por um instante, Jesus mostra a sua glória divina, confirmando a confissão de Pedro, e mostra também que, para entrar na glória, é preciso passar pela cruz (CIC n. 555). E acrescenta que o Batismo de Jesus e a Transfiguração estão ligados, um no início da vida pública e outro no limiar da Páscoa (CIC n. 556). Os relatos paralelos estão em Mateus 17 e Lucas 9.

Versículos 9 a 13: a vinda de Elias

Ao descer do monte, Jesus manda não contar a ninguém o que viram, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos. Os discípulos discutem o que seria ressuscitar dos mortos. Perguntam por que os escribas dizem que Elias deve vir primeiro, conforme Malaquias 3,23 (em algumas Bíblias, Ml 4,5). Jesus responde que Elias já veio, e fizeram com ele o que quiseram. Refere-se a João Batista, morto por Herodes (Mc 6). O destino do precursor anuncia o do Messias.

Versículos 14 a 29: o menino possuído e a oração do pai

Ao chegar junto aos outros discípulos, Jesus encontra uma discussão. Um pai trouxe o filho, possuído por um espírito que o deixa mudo, o joga no chão, o faz espumar e ranger os dentes. Os sintomas lembram o que hoje chamamos de epilepsia, mas o texto apresenta o caso como ação de um espírito, e Jesus age como exorcista. Os discípulos não conseguiram expulsá-lo. Jesus lamenta a geração sem fé e pede que tragam o menino.

O pai pede: se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós. Jesus retoma as palavras dele: se podes? Tudo é possível para quem crê. O pai então grita: “Eu creio, ajuda a minha falta de fé!” (Mc 9,24). É uma oração verdadeira, que reconhece ao mesmo tempo a fé e a fraqueza. Jesus repreende o espírito, o menino fica como morto, e Jesus o toma pela mão e o levanta. Em casa, os discípulos perguntam por que não conseguiram. Jesus responde que essa espécie só sai pela oração. Alguns manuscritos antigos acrescentam e pelo jejum.

Versículos 30 a 32: o segundo anúncio da Paixão

Atravessando a Galileia, Jesus não quer que ninguém saiba, porque está ensinando os discípulos. Diz que o Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, que o matarão, e que três dias depois ressuscitará. Eles não entendem e têm medo de perguntar.

Versículos 33 a 37: quem é o maior

Em Cafarnaum, Jesus pergunta o que discutiam no caminho. Eles ficam calados, porque discutiam quem era o maior. O contraste é forte: Jesus fala de entrega e eles, de poder. Jesus se senta, como mestre, e diz que quem quiser ser o primeiro seja o último e o servo de todos. Toma uma criança, abraça-a e diz que quem acolhe uma criança em seu nome acolhe a ele e ao Pai. Na sociedade daquele tempo, a criança não tinha importância social. Jesus se identifica justamente com quem não conta.

Versículos 38 a 41: quem não é contra nós

João conta que viram alguém expulsando demônios em nome de Jesus e tentaram impedi-lo, porque não andava com eles. Jesus diz que não o impeçam: quem não é contra nós é por nós. E promete recompensa a quem der um copo de água a um discípulo por ser de Cristo. O bem feito em nome de Jesus não é propriedade de um grupo.

Versículos 42 a 50: o escândalo e o sal

Escandalizar quer dizer fazer tropeçar, levar ao pecado. Jesus diz que seria melhor para quem escandaliza um destes pequenos ser lançado ao mar com uma pedra de moinho ao pescoço. Depois usa imagens fortes: se a mão, o pé ou o olho te levam a pecar, corta-os; é melhor entrar na vida sem eles do que ir para a geena. A geena era um vale perto de Jerusalém, ligado no passado a cultos idólatras (Jr 7,31) e usado como imagem do castigo eterno. A linguagem não é literal, mas mostra a seriedade da escolha. O capítulo termina com o sal: tende sal em vós e vivei em paz uns com os outros. O sal conserva e dá sabor; é o discípulo fiel.

O que Marcos 9 ensina para a fé católica?

  • A divindade de Cristo. A voz do Pai e a glória no monte revelam que Jesus é o Filho amado. A festa da Transfiguração é celebrada em 6 de agosto, e, no ano B, este relato de Marcos é lido no 2º Domingo da Quaresma.
  • Escutar Jesus. A ordem do Pai resume a vida cristã: escutar o Filho na Escritura, na Igreja e na oração.
  • A força da oração. Diante do mal, a Igreja reza. O pedido do pai do menino é uma oração que qualquer um pode fazer.
  • Servir é a grandeza cristã. A autoridade na Igreja é serviço, a exemplo de Cristo.
  • A gravidade do pecado e do escândalo. A Igreja leva a sério a proteção dos pequenos e o destino eterno. Veja o que a Igreja ensina sobre a vida eterna.

Reflexão para hoje

Pedro queria ficar no monte. Todos temos momentos de luz: um retiro, uma confissão bem feita, uma Missa que tocou o coração. Mas Jesus desce do monte e encontra a dor de um pai e a discussão dos discípulos. Os momentos de consolação servem para nos sustentar na planície, onde a vida acontece.

A oração do pai do menino pode ser a nossa. Muitas vezes temos fé e dúvida ao mesmo tempo. Não precisamos esconder isso de Deus. Dizer eu creio, ajuda a minha falta de fé é um ato de fé verdadeiro. Para quem acompanha um filho doente ou em perigo, essa frase pode ser a oração de cada dia.

E a discussão sobre quem é o maior ainda acontece, nas famílias, no trabalho, até nas pastorais. Jesus coloca uma criança no meio e nos lembra que a medida é o serviço. Grande é quem acolhe os que não têm importância.

Para rezar com Marcos 9

  • Que momentos de luz Deus já me deu para enfrentar a cruz?
  • Em que situação preciso dizer: eu creio, ajuda a minha falta de fé?
  • Quem são os pequenos que eu posso acolher em nome de Jesus?

Sugestão de oração:

Pai, que no monte revelaste o teu Filho amado, ensina-me a escutá-lo. Senhor Jesus, eu creio, mas ajuda a minha fé tão fraca. Livra-me da vontade de ser o maior e dá-me um coração de servo, que acolhe os pequenos e não os faz tropeçar. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 555 e 556. Capítulo anterior: Marcos 8. Capítulo seguinte: Marcos 10.

Perguntas sobre Marcos 9

Por que Moisés e Elias aparecem na Transfiguração?

Moisés representa a Lei e Elias, os Profetas. Eles conversam com Jesus para mostrar que todo o Antigo Testamento converge para ele e encontra nele o seu cumprimento.

O que significa “Eu creio, ajuda a minha falta de fé”?

É a oração do pai do menino possuído, que reconhece ter fé, mas uma fé fraca. É um modelo de oração sincera para quem quer crer mais e pede a Deus que fortaleça a sua confiança.

Jesus manda mesmo cortar a mão ou arrancar o olho?

Não em sentido literal. É uma linguagem forte, típica do modo de falar semita, para dizer que é preciso cortar com decisão tudo o que leva ao pecado, porque a vida eterna vale mais que qualquer coisa.

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