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Marcos 8: “Tu és o Cristo” e o anúncio da cruz

Leia Marcos 8 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 8 é o centro do Evangelho de Marcos. Depois de uma segunda multiplicação dos pães e da cura gradual de um cego, Pedro declara em Cesareia de Filipe: “Tu és o Cristo”. Logo em seguida, Jesus anuncia pela primeira vez a sua Paixão e convida quem quiser segui-lo a renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz.

Contexto de Marcos 8

Toda a primeira parte de Marcos girou em torno de uma pergunta: quem é este? (Mc 4,41). Os discípulos viram curas, exorcismos, pães multiplicados, mas ainda não compreendiam (Marcos 6 e Marcos 7). Neste capítulo, Pedro dá a resposta certa. A partir daí, o Evangelho muda de direção: Jesus começa a caminhar para Jerusalém e a ensinar sobre a cruz.

Cesareia de Filipe ficava no extremo norte, perto das nascentes do Jordão, numa região de forte presença pagã. Foi longe de Jerusalém que se fez a primeira confissão de fé no Messias.

Explicação de Marcos 8

Versículos 1 a 10: a segunda multiplicação dos pães

De novo há uma grande multidão sem comida, que está com Jesus há três dias. Ele sente compaixão, porque alguns vieram de longe. Os discípulos perguntam onde arranjar pão no deserto, como se tivessem esquecido o milagre anterior. Há sete pães e alguns peixinhos. Jesus dá graças, parte e entrega aos discípulos; todos comem e sobram sete cestos. Eram cerca de quatro mil pessoas. Como Jesus ainda está na região da Decápole, muitos estudiosos veem aqui o pão oferecido também aos pagãos, depois do pão dado a Israel em Marcos 6.

Versículos 11 a 13: os fariseus pedem um sinal

Os fariseus pedem um sinal do céu para pô-lo à prova. Jesus suspira profundamente e diz que a esta geração não será dado sinal. Quem não reconhece os sinais que já foram dados não seria convencido por outro. Jesus entra no barco e vai para a outra margem.

Versículos 14 a 21: o fermento dos fariseus e de Herodes

No barco, os discípulos têm apenas um pão. Jesus os adverte contra o fermento dos fariseus e de Herodes. O fermento, que age escondido e transforma toda a massa, simboliza aqui a má influência: a incredulidade dos fariseus e a ambição política de Herodes. Os discípulos pensam que Jesus fala da falta de pão. Ele pergunta, com uma série de questões, se ainda não entendem, se têm o coração endurecido, olhos que não veem e ouvidos que não ouvem. Lembra os doze e os sete cestos que sobraram. O único pão que está no barco é ele mesmo.

Versículos 22 a 26: o cego de Betsaida

Em Betsaida, trazem um cego. Jesus o leva para fora do povoado, põe saliva em seus olhos, impõe as mãos e pergunta se vê alguma coisa. O homem diz que vê pessoas como árvores que andam. Jesus impõe as mãos de novo, e ele passa a ver tudo com clareza. É a única cura em etapas nos evangelhos, e está colocada aqui de propósito. Os discípulos estão como esse cego: veem algo, mas ainda de modo confuso. Esta cura e a do cego Bartimeu (Marcos 10) emolduram a seção do caminho para Jerusalém.

Versículos 27 a 30: a confissão de Pedro

No caminho para os povoados de Cesareia de Filipe, Jesus pergunta o que dizem as pessoas sobre ele. Uns dizem João Batista, outros Elias, outros um dos profetas. Então pergunta: e vós, quem dizeis que eu sou? Pedro responde: “Tu és o Cristo” (Mc 8,29). Cristo, em grego, e Messias, em hebraico, significam Ungido. Jesus os proíbe de falar disso a alguém. Ele aceita o título, mas sabe que o povo esperava um messias político, um rei guerreiro. Antes de ser anunciado, o título precisa ser corrigido pela cruz. O Catecismo ensina que Jesus aceitou a profissão de fé de Pedro e revelou o verdadeiro conteúdo da sua realeza messiânica, a do Servo que dá a vida (CIC n. 440). O relato paralelo, com a promessa a Pedro, está em Mateus 16.

Versículos 31 a 33: o primeiro anúncio da Paixão

Jesus começa a ensinar que o Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e ressuscitar depois de três dias. Marcos sublinha que ele dizia isso abertamente. O verbo deve indica que o sofrimento faz parte do plano de Deus, como anunciava o Servo de Isaías 53. Pedro chama Jesus à parte e começa a repreendê-lo. Jesus se volta, olha para os discípulos e repreende Pedro, chamando-o de Satanás, porque pensa como os homens e não como Deus. A palavra Satanás quer dizer adversário. Pedro, sem perceber, repete a tentação do deserto: um messias sem cruz. Jesus manda que ele volte para trás dele, para o lugar de quem segue.

Versículos 34 a 38: renunciar a si mesmo e tomar a cruz

Jesus chama a multidão junto com os discípulos e diz que quem quiser segui-lo deve renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e segui-lo. A cruz era o suplício romano mais cruel e humilhante; o condenado carregava a trave até o lugar da execução. Os primeiros leitores de Marcos, que conheciam perseguições, entendiam bem a imagem.

Jesus explica com um paradoxo: quem quiser salvar a sua vida a perderá, e quem a perder por causa dele e do Evangelho a salvará. De que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a vida? A palavra vida aqui também pode ser traduzida por alma: é a pessoa inteira diante de Deus. Por fim, quem se envergonhar de Jesus e de suas palavras, o Filho do Homem também se envergonhará dele quando vier na glória do Pai com os anjos.

O que Marcos 8 ensina para a fé católica?

  • Jesus é o Cristo, o Messias. A confissão de Pedro está na base da fé da Igreja, que reza no Credo: creio em Jesus Cristo. Veja o Credo Niceno-Constantinopolitano.
  • O papel de Pedro. Pedro fala em nome dos Doze. A Igreja reconhece nele e nos seus sucessores o serviço de confirmar os irmãos na fé. Leia sobre São Pedro, o primeiro Papa.
  • A cruz faz parte da salvação. Cristo salva pela entrega da vida. O Catecismo recorda que, a partir da confissão de Pedro, Jesus começou a anunciar que devia sofrer, morrer e ressuscitar (CIC n. 554).
  • O discípulo participa da cruz. Unir os próprios sofrimentos aos de Cristo dá a eles sentido redentor. A Via-Sacra é uma forma de rezar esse caminho.

Reflexão para hoje

A pergunta de Jesus continua: e você, quem diz que eu sou? Não basta saber o que os outros dizem, o que a catequese ensinou, o que a avó rezava. Cada um precisa responder com a própria vida. Pedro respondeu certo e, logo depois, errou. Isso consola: a fé cresce aos poucos, como a visão do cego de Betsaida.

Todos gostaríamos de um Cristo que resolve os problemas sem cruz. Mas a cruz chega: na doença de um filho, no casamento que passa por crise, no trabalho que pesa. Jesus não promete livrar o discípulo de toda cruz; promete ir à frente. Tomar a cruz não é buscar sofrimento, é não abandonar o amor quando ele custa.

E há o paradoxo que vale para a vida inteira: quem se agarra a si mesmo se perde, quem se doa se encontra. Pais que se gastam pelos filhos, pessoas que cuidam de um doente, quem perdoa sem ser pedido: essas vidas parecem perdidas aos olhos do mundo, mas estão sendo salvas.

Para rezar com Marcos 8

  • Quem é Jesus para mim, hoje, na minha vida concreta?
  • Em que momento eu, como Pedro, quero um caminho sem cruz?
  • Qual é a cruz que Jesus me pede para carregar com amor nesta fase?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Cura a minha visão para que eu te veja com clareza. Quando eu fugir da cruz, chama-me de volta para trás de ti. Dá-me coragem para perder a vida por amor e encontrá-la em ti. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 440 e 554. Capítulo anterior: Marcos 7. Capítulo seguinte: Marcos 9.

Perguntas sobre Marcos 8

O que significa tomar a cruz em Marcos 8?

Significa seguir Jesus até o fim, aceitando renunciar a si mesmo por amor a Deus e aos outros. Não é buscar o sofrimento, mas não fugir dele quando a fidelidade o exige, unindo-o à cruz de Cristo.

Por que Jesus chamou Pedro de Satanás?

Porque Pedro, logo depois de confessar Jesus como o Cristo, tentou afastá-lo do caminho da cruz. Satanás significa adversário, e Jesus rejeita essa tentação mandando Pedro voltar para trás dele, isto é, para o lugar de discípulo.

Por que o cego de Betsaida foi curado em duas etapas?

A cura gradual é uma imagem dos discípulos, que veem Jesus apenas em parte. Pedro reconhece o Cristo, mas ainda não entende a cruz; a visão plena virá depois.

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