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Marcos 7: o puro e o impuro, a sirofenícia e o Efatá

Leia Marcos 7 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 7 trata do que torna uma pessoa pura ou impura diante de Deus. Jesus discute com fariseus e escribas sobre a lavagem das mãos e a tradição dos antigos, e ensina que a impureza vem do coração. Depois, em terra pagã, atende o pedido de uma mulher sirofenícia e cura um surdo-mudo dizendo “Efatá”.

Contexto de Marcos 7

O capítulo vem logo depois da multiplicação dos pães e das curas em Genesaré (Marcos 6). Escribas chegam de Jerusalém, como em Marcos 3, para observar Jesus. A discussão sobre pureza tinha grande importância prática: definia quem podia comer junto, quem podia participar do culto e como se relacionar com os pagãos.

Marcos escreve para leitores não judeus e por isso explica os costumes. Na segunda metade do capítulo, Jesus vai para territórios pagãos, Tiro e a Decápole. A geografia acompanha o ensinamento: se a impureza não está nos alimentos, também não está nos povos.

Explicação de Marcos 7

Versículos 1 a 8: a tradição dos antigos

Fariseus e escribas veem alguns discípulos comendo sem lavar as mãos e perguntam por que não seguem a tradição dos antigos. Marcos explica que os fariseus e todos os judeus lavavam as mãos com cuidado antes das refeições e purificavam copos, jarros e vasilhas. Não era questão de higiene, mas de pureza ritual. Essa tradição oral, transmitida pelos mestres, buscava proteger a Lei com normas para o dia a dia.

Jesus responde citando Isaías 29,13: este povo me honra com os lábios, mas o coração está longe de mim. E acusa: deixam o mandamento de Deus para seguir tradições humanas. Jesus não condena toda tradição, mas aquela que esvazia a vontade de Deus.

Versículos 9 a 13: o exemplo do Corbã

Jesus dá um exemplo. Moisés mandou honrar pai e mãe (Ex 20,12). Mas alguns ensinavam que, se uma pessoa declarasse seus bens como Corbã, palavra que Marcos traduz por oferta sagrada, esses bens ficavam reservados a Deus e não podiam mais ajudar os pais. Assim, um voto religioso servia para fugir de um dever de amor. Jesus diz que fazem muitas coisas semelhantes, anulando a Palavra de Deus pela tradição que transmitem.

Versículos 14 a 23: o que torna o homem impuro

Jesus chama a multidão e ensina que nada que entra de fora torna o homem impuro; o que sai dele é que o torna impuro. Em casa, os discípulos pedem explicação. O que entra pela boca vai para o estômago, não para o coração. Marcos acrescenta um comentário: assim Jesus declarava puros todos os alimentos. Essa frase foi importante para a Igreja primitiva, quando cristãos judeus e pagãos começaram a comer juntos (veja At 10).

Então Jesus lista o que sai do coração: más intenções, imoralidades, roubos, homicídios, adultérios, ganância, maldade, fraude, devassidão, inveja, difamação, orgulho e insensatez. Na Bíblia, o coração é o centro da pessoa, onde se pensa, decide e ama. A pureza que Deus quer é a do coração (Sl 51,12; Mt 5,8).

Versículos 24 a 30: a mulher sirofenícia

Jesus vai para a região de Tiro, cidade pagã no litoral do atual Líbano, e quer ficar escondido. Uma mulher grega, de origem sirofenícia, cuja filha tinha um espírito impuro, se lança aos seus pés e pede a cura. Jesus responde que primeiro os filhos devem ser saciados, e não é bom tirar o pão dos filhos para dar aos cachorrinhos. A imagem soa dura. Os filhos são Israel, a quem a missão de Jesus se dirige primeiro; os pagãos eram às vezes chamados de cães. A palavra usada, porém, é cachorrinhos, os animais da casa.

A mulher não se ofende. Responde que os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem as migalhas das crianças. Ela aceita a ordem que Jesus indicou e, ao mesmo tempo, confia que há lugar para ela. Jesus diz que, por causa dessa palavra, ela pode ir, porque o demônio saiu da filha. Ao chegar em casa, encontra a menina deitada na cama, livre. Muitos comentadores notam que é a única pessoa em Marcos cuja resposta convence Jesus, e ela o faz com fé humilde. Depois da multiplicação dos pães para Israel, as migalhas chegam também aos pagãos. O paralelo está em Mateus 15.

Versículos 31 a 37: a cura do surdo-mudo

Jesus passa por Sidônia e chega ao mar da Galileia, no território da Decápole. Trazem-lhe um surdo que falava com dificuldade e pedem que lhe imponha a mão. Jesus o leva à parte, longe da multidão, põe os dedos nos ouvidos dele, cospe e toca a sua língua. Olha para o céu, suspira e diz: “Efatá”, que quer dizer “abre-te” (Mc 7,34). Os ouvidos se abrem e a língua se solta.

Os gestos são concretos: Jesus usa o corpo para curar o corpo, e a saliva era considerada, na época, um remédio. O suspiro e o olhar para o céu mostram oração e compaixão. O Catecismo recorda que Jesus usa sinais como a saliva e a imposição das mãos nas curas (CIC n. 1504). Jesus pede silêncio, mas quanto mais pede, mais eles anunciam. A multidão diz que ele faz bem todas as coisas e que faz os surdos ouvirem e os mudos falarem, como anunciava Isaías 35,5-6 sobre os tempos do Messias. A expressão faz bem todas as coisas lembra Gênesis 1,31: Jesus traz uma nova criação.

O que Marcos 7 ensina para a fé católica?

  • A pureza do coração. O pecado nasce de dentro. Por isso a Igreja convida ao exame de consciência e à Confissão. Veja o exame de consciência pelos Dez Mandamentos.
  • Tradição e tradições. A Igreja distingue a Tradição apostólica, que transmite a Palavra de Deus junto com a Escritura (Dei Verbum 9 e 10), das tradições humanas, que podem e devem ser revistas à luz do Evangelho.
  • O quarto mandamento. Cuidar dos pais idosos é dever sagrado, e nenhuma prática religiosa dispensa disso.
  • A salvação para todos os povos. A mulher sirofenícia anuncia a Igreja aberta aos pagãos.
  • O rito do Efatá. No Batismo, o celebrante pode tocar os ouvidos e a boca do batizado, pedindo que ele possa logo ouvir a Palavra e professar a fé. Veja o rito do Batismo passo a passo.

Reflexão para hoje

É fácil cuidar da aparência religiosa e esquecer o coração. Podemos estar na Missa, rezar o terço, cumprir os preceitos e, ao mesmo tempo, guardar mágoas, falar mal dos outros, negligenciar os pais. Jesus não despreza as práticas, mas quer que elas brotem de um coração convertido. A pergunta não é só o que eu faço, mas o que sai de mim.

A mulher sirofenícia é um exemplo de oração perseverante. Ela não se ofendeu, não desistiu e encontrou na própria resposta de Jesus um motivo para insistir. Quando a oração parece não ser ouvida, ela nos ensina a continuar pedindo com humildade.

E o surdo-mudo nos lembra que também podemos ter ouvidos fechados para Deus e para os outros. Às vezes não escutamos o cônjuge, os filhos, o colega. Jesus pode nos levar à parte, em silêncio, e dizer também a nós: abre-te.

Para rezar com Marcos 7

  • O que tem saído do meu coração nas minhas palavras e atitudes?
  • Há alguma tradição ou costume que uso como desculpa para não amar?
  • Para quem preciso abrir os meus ouvidos nesta semana?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, tu fazes bem todas as coisas. Purifica o meu coração, de onde nasce o bem e o mal. Toca os meus ouvidos e a minha boca, como no dia do meu Batismo, para que eu escute a tua Palavra e a anuncie com alegria. Dá-me a fé humilde e perseverante da mulher sirofenícia. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1504; Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum. Capítulo anterior: Marcos 6. Capítulo seguinte: Marcos 8.

Perguntas sobre Marcos 7

O que Jesus quis dizer com “o que sai do homem é que o torna impuro”?

Que a verdadeira impureza não vem dos alimentos, mas do coração, de onde nascem os maus pensamentos e as más ações. Jesus desloca a atenção do rito exterior para a conversão interior.

Jesus foi duro com a mulher sirofenícia?

A resposta sobre os cachorrinhos reflete a prioridade da missão a Israel naquele momento. A mulher responde com humildade e fé, e Jesus elogia sua palavra e cura sua filha, mostrando que a salvação se abre também aos pagãos.

O que significa Efatá?

É uma palavra aramaica que significa “abre-te”. Jesus a disse ao curar um surdo-mudo, e a Igreja a recorda num rito do Batismo, pedindo que o batizado possa ouvir e anunciar a Palavra de Deus.

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