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Marcos 6: a missão dos Doze e a multiplicação dos pães

Leia Marcos 6 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 6 começa com a rejeição de Jesus em Nazaré e segue com o envio dos Doze em missão. No meio, Marcos narra a morte de João Batista na corte de Herodes. Depois vêm a multiplicação dos pães para cinco mil homens, Jesus caminhando sobre as águas e as curas em Genesaré. É um capítulo sobre missão, rejeição e o pão que Jesus oferece.

Contexto de Marcos 6

Depois dos grandes milagres de Marcos 5, Jesus volta à sua terra. O capítulo mostra contrastes: a incredulidade dos conterrâneos e a fé dos doentes, o banquete de morte de Herodes e o banquete de vida no deserto. Os Doze, escolhidos em Marcos 3, passam agora a participar ativamente da missão.

O Herodes deste capítulo é Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande. Governava a Galileia e a Pereia como tetrarca, sob o domínio de Roma. Marcos o chama de rei, como o povo costumava fazer.

Explicação de Marcos 6

Versículos 1 a 6: Jesus rejeitado em Nazaré

Num sábado, Jesus ensina na sinagoga de sua terra. Os ouvintes se admiram, mas logo se fecham. Perguntam de onde lhe vem tanta sabedoria, se ele é apenas o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão. A palavra traduzida por carpinteiro indica um artesão que trabalhava com madeira e talvez com pedra. A familiaridade virou obstáculo: acharam que já sabiam tudo sobre ele.

Jesus diz que um profeta só não é valorizado em sua terra, entre os parentes e em sua casa. Marcos afirma que ali ele não pôde fazer milagres, a não ser curar alguns doentes, e se admirou da falta de fé deles. Não é falta de poder: o milagre, para Jesus, supõe abertura de fé. Sobre os irmãos de Jesus, o Catecismo ensina que a Igreja sempre entendeu essas passagens como referentes não a outros filhos de Maria, mas a parentes próximos, segundo uma expressão do Antigo Testamento. Tiago e José, por exemplo, são filhos de outra Maria, discípula de Cristo (Mc 15,40). Maria permaneceu sempre virgem, e Jesus é o seu filho único (CIC n. 499 a 501). A expressão filho de Maria, rara para indicar um homem naquela cultura, combina com essa fé.

Versículos 7 a 13: o envio dos Doze

Jesus chama os Doze e os envia dois a dois, com poder sobre os espíritos impuros. Ir em dupla dava valor de testemunho, conforme a Lei (Dt 19,15), e ajuda mútua. Manda não levar nada além do cajado: nem pão, nem sacola, nem dinheiro, apenas sandálias e uma túnica. A pobreza do missionário mostra que ele confia em Deus e na hospitalidade de quem o recebe. Se não forem acolhidos, devem sacudir a poeira dos pés, gesto de ruptura que, segundo muitos estudiosos, os judeus faziam ao voltar de terra pagã. Eles partem, pregam a conversão, expulsam demônios e ungem com óleo muitos doentes, que ficam curados. O Catecismo cita este versículo 13 ao falar do sacramento da Unção dos Enfermos (CIC n. 1511).

Versículos 14 a 29: a morte de João Batista

A fama de Jesus chega a Herodes, e as pessoas fazem hipóteses: seria João ressuscitado, Elias ou um profeta. Herodes acha que é João, a quem mandou decapitar. Marcos então conta, em retrospecto, como isso aconteceu. Herodes tinha se casado com Herodíades, mulher do seu irmão, e João lhe dizia que isso não era lícito (Lv 18,16). Herodíades odiava João. Herodes, por sua vez, o temia, sabia que era justo e gostava de ouvi-lo, embora ficasse perplexo.

No banquete de aniversário de Herodes, com os grandes da Galileia, a filha de Herodíades dança e agrada a todos. Herodes promete dar o que ela pedir. Instruída pela mãe, ela pede a cabeça de João num prato. O rei fica triste, mas, por causa do juramento e dos convidados, manda executar o profeta. Os discípulos de João recolhem o corpo e o sepultam. O historiador judeu Flávio Josefo, nas Antiguidades Judaicas (livro 18), também menciona a prisão e a morte de João por ordem de Herodes, na fortaleza de Maqueronte. A cena antecipa o destino de Jesus: um governante que sabe que o justo é inocente e o entrega por medo da opinião dos outros, como fará Pilatos.

Versículos 30 a 34: ovelhas sem pastor

Os apóstolos voltam e contam tudo o que fizeram. Jesus os convida a ir a um lugar deserto para descansar um pouco, porque não tinham tempo nem para comer. Mas a multidão percebe e chega antes. Ao desembarcar, Jesus sente compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor (Nm 27,17; Ez 34), e começa a ensinar-lhes muitas coisas. Antes do pão, ele dá a Palavra.

Versículos 35 a 44: a multiplicação dos pães

Já tarde, os discípulos sugerem despedir o povo para que compre comida. Jesus responde: dai-lhes vós mesmos de comer. Eles calculam que seriam necessários duzentos denários, quase o salário de duzentos dias de trabalho. Há apenas cinco pães e dois peixes. Jesus manda o povo sentar em grupos sobre a grama verde, em fileiras de cem e de cinquenta, como o povo organizado no deserto no tempo de Moisés.

Então Jesus toma os pães, eleva os olhos ao céu, abençoa, parte e dá aos discípulos para distribuírem. São os mesmos gestos da Última Ceia (Mc 14,22). Todos comem e ficam saciados, e ainda recolhem doze cestos cheios de pedaços. Eram cinco mil homens. A cena lembra o maná (Ex 16) e o milagre de Eliseu com os pães (2Rs 4,42-44), e aponta para a Eucaristia. O Catecismo ensina que os milagres da multiplicação dos pães prefiguram a superabundância do único pão da Eucaristia (CIC n. 1335). O relato está nos quatro evangelhos; veja João 6.

Versículos 45 a 52: Jesus caminha sobre as águas

Jesus manda os discípulos atravessarem de barco e sobe ao monte para rezar. De madrugada, vê que eles se cansam remando contra o vento e vai até eles caminhando sobre o mar. Pensam que é um fantasma e gritam. Jesus diz: “Coragem, sou eu. Não tenhais medo!” (Mc 6,50). A expressão sou eu ecoa o nome com que Deus se revela a Moisés (Ex 3,14), e no Antigo Testamento é Deus quem caminha sobre as águas (Jó 9,8). Ele sobe ao barco, e o vento para. Marcos observa que os discípulos não tinham entendido o milagre dos pães, porque o coração deles estava endurecido.

Versículos 53 a 56: as curas em Genesaré

Em Genesaré, na margem ocidental do lago, o povo reconhece Jesus e traz os doentes em macas para onde ele estiver. Pedem para tocar pelo menos a orla do seu manto, e todos os que tocam ficam curados. A orla podia ser a franja que os judeus piedosos usavam nas vestes (Nm 15,38). O capítulo termina como um retrato da missão: Jesus passa, e a vida volta.

O que Marcos 6 ensina para a fé católica?

  • A Igreja é missionária. Os Doze participam da autoridade de Cristo e são enviados. Todo batizado é chamado a anunciar, cada um em sua vocação.
  • A Unção dos Enfermos. O gesto de ungir com óleo prepara o sacramento que a Igreja celebra com os doentes. Veja a Unção dos Enfermos.
  • A Eucaristia. O pão partido no deserto anuncia o pão da vida que recebemos na Missa. Veja a Eucaristia, presença real de Cristo.
  • A virgindade perpétua de Maria. A expressão filho de Maria e a menção dos irmãos são lidas pela Igreja à luz da sua fé constante.
  • O testemunho até o martírio. João Batista morre por defender a verdade sobre o matrimônio e a lei de Deus.

Reflexão para hoje

Em Nazaré, Jesus foi rejeitado por pessoas que achavam que o conheciam bem. Isso pode acontecer conosco: crescemos na Igreja, sabemos as orações, e por isso deixamos de nos surpreender com Jesus. A fé precisa ser renovada, como se cada Evangelho fosse ouvido pela primeira vez.

Jesus convidou os apóstolos cansados a descansar um pouco. Ele se importa com o nosso cansaço. Mas, diante da multidão, sentiu compaixão. Pais, mães, profissionais de saúde, agentes de pastoral conhecem esse equilíbrio entre o descanso necessário e a necessidade do outro. Jesus nos ensina a viver os dois com o coração voltado para o Pai, rezando no monte.

Por fim, a frase dai-lhes vós mesmos de comer continua atual. Achamos que o que temos é pouco: cinco pães, dois peixes, um pouco de tempo, um pouco de dinheiro. Nas mãos de Jesus, o pouco partilhado basta e ainda sobra.

Para rezar com Marcos 6

  • Deixei a familiaridade com as coisas de Deus esfriar a minha fé?
  • Quais são os “cinco pães e dois peixes” que posso entregar a Jesus hoje?
  • Em que área da vida estou remando contra o vento e preciso ouvir: coragem, sou eu?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, pastor compassivo, tu vês o povo cansado e lhe dás a Palavra e o pão. Recebe o pouco que tenho e multiplica-o para o bem dos irmãos. Quando eu remar contra o vento, vem ao meu encontro e diz-me que és tu, para que eu não tenha medo. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 499 a 501, 1335 e 1511; Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, livro 18. Capítulo anterior: Marcos 5. Capítulo seguinte: Marcos 7.

Perguntas sobre Marcos 6

Quem são os irmãos de Jesus citados em Marcos 6,3?

Tiago, José, Judas e Simão são chamados irmãos no sentido amplo de parentes próximos, comum na época. A Igreja ensina que Maria permaneceu sempre virgem e que Jesus é seu filho único (Catecismo, n. 499 a 501); Tiago e José são filhos de outra Maria (Mc 15,40).

Por que os apóstolos ungiam os doentes com óleo?

O óleo era usado como remédio e sinal de cuidado. A Igreja vê nesse gesto, em Marcos 6,13, um sinal que prepara o sacramento da Unção dos Enfermos.

Qual o significado da multiplicação dos pães em Marcos 6?

Mostra Jesus como o pastor que alimenta o seu povo, como Deus fez no deserto com o maná. Os gestos de tomar, abençoar, partir e dar anunciam a Eucaristia.

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