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Marcos

Marcos 5: o geraseno, a mulher curada e a filha de Jairo

Leia Marcos 5 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 5 narra três milagres em que Jesus vence o que parecia invencível: uma legião de demônios, uma doença de doze anos e a morte de uma menina. O capítulo mostra o poder de Jesus sobre o mal, a doença e a morte, e destaca a fé de quem se aproxima dele.

Contexto de Marcos 5

O capítulo continua a travessia do mar iniciada em Marcos 4, logo após a tempestade acalmada. Jesus chega à outra margem, a região dos gerasenos, território pagão da Decápole, uma liga de cidades de cultura grega a leste do Jordão. Depois volta para a margem judaica, onde acontecem as duas outras curas, contadas de forma entrelaçada. Esse recurso de Marcos, abrir uma história, inserir outra no meio e depois concluir a primeira, ajuda a ler uma à luz da outra.

Explicação de Marcos 5

Versículos 1 a 10: o homem que vivia nos túmulos

Assim que Jesus desce do barco, vem ao seu encontro um homem possuído por um espírito impuro. Morava entre os túmulos, ninguém conseguia prendê-lo, nem com correntes. Dia e noite gritava e se feria com pedras. Túmulos eram lugares impuros, ligados à morte. A descrição mostra o efeito do mal: isolamento, violência contra si mesmo e perda da dignidade.

Ao ver Jesus de longe, o homem corre, se prostra e grita, chamando-o de Filho do Deus Altíssimo. Jesus pergunta o nome, e ele responde: Legião, porque somos muitos. Uma legião romana reunia milhares de soldados. O nome indica uma possessão intensa e talvez evoque também a presença opressora de Roma na região.

Versículos 11 a 20: os porcos e o envio do homem curado

Os espíritos pedem para entrar numa grande manada de porcos que pastava ali. Jesus permite, e a manada, cerca de dois mil animais, se precipita no mar e se afoga. Para os judeus o porco era impuro (Lv 11,7). A cena mostra que o mal saiu de fato e revela sua face destruidora. Os moradores encontram o homem sentado, vestido e em perfeito juízo, e ficam com medo. Pedem que Jesus vá embora. O prejuízo material pesou mais que a libertação de uma pessoa.

O homem curado quer ir com Jesus, mas ele não permite. Manda que volte para os seus e conte o que o Senhor fez e como teve misericórdia dele. Em terra pagã, onde não havia risco de ser entendido como messias político, Jesus não pede silêncio. O homem anuncia por toda a Decápole. É o primeiro missionário entre os pagãos no Evangelho de Marcos. O relato paralelo está em Lucas 8 e, de forma mais breve, em Mateus 8.

Versículos 21 a 24: o pedido de Jairo

De volta à outra margem, Jairo, um dos chefes da sinagoga, se lança aos pés de Jesus. Sua filhinha está morrendo, e ele pede que Jesus lhe imponha as mãos para que seja salva e viva. Um homem importante da comunidade se humilha em público por amor à filha. Jesus vai com ele, e uma multidão o aperta pelo caminho.

Versículos 25 a 34: a mulher que tocou o manto

No meio da multidão há uma mulher que sofria de hemorragia havia doze anos. Gastara tudo com médicos e só piorara. Pela Lei (Lv 15,25-27), uma mulher nessa condição era considerada impura, e tudo o que tocasse também ficava. Ela vivia, portanto, isolada, além de doente e empobrecida. Pensava: se eu tocar ao menos o manto dele, ficarei curada. Toca por trás e sente que está curada.

Jesus percebe que uma força saiu dele e pergunta quem tocou suas roupas. Os discípulos acham a pergunta estranha, com tanta gente apertando. Mas há diferença entre esbarrar em Jesus e tocá-lo com fé. A mulher, tremendo, se aproxima e conta toda a verdade. Jesus a chama de filha, diz que a fé dela a salvou e a manda em paz, curada do seu mal. Ele não quer apenas uma cura física às escondidas: devolve-lhe a dignidade diante de todos. O Catecismo lembra que Jesus muitas vezes pede aos doentes que creiam e que os doentes procuravam tocá-lo, porque saía dele uma força que curava (CIC n. 1504).

Versículos 35 a 43: a filha de Jairo

Enquanto Jesus ainda fala, chegam da casa de Jairo dizendo que a menina morreu e que não adianta mais incomodar o Mestre. Jesus ouve e diz a Jairo que não tenha medo, apenas creia. Leva consigo somente Pedro, Tiago e João, os mesmos que estarão na Transfiguração e no Getsêmani. Na casa há choro e gritos; era costume haver lamentações em voz alta, às vezes com carpideiras. Jesus diz que a menina não morreu, mas dorme. Riem dele. Para os cristãos, a morte passou a ser chamada de sono justamente porque Jesus a vence.

Jesus toma a mão da menina e diz em aramaico: “Talitá cum”, que significa “Menina, eu te digo, levanta-te” (Mc 5,41). Ela se levanta imediatamente e começa a andar; tinha doze anos. Jesus manda que ninguém saiba e pede que lhe deem de comer. O detalhe da comida mostra que ela voltou de verdade à vida concreta. Note os dois “doze”: doze anos de doença e doze anos de vida. As duas filhas, a mulher e a menina, são restituídas à vida pela fé.

O que Marcos 5 ensina para a fé católica?

  • Jesus vence o poder do demônio. A Igreja continua essa missão pela oração e, quando necessário, pelo exorcismo realizado por sacerdotes autorizados pelo bispo. Veja anjos e demônios na doutrina católica.
  • A fé é contato pessoal com Cristo. Os sacramentos são, de certo modo, a continuação desse tocar em Jesus. Por meio deles, a força que saía do seu corpo continua a nos curar.
  • Cuidado com os doentes. A atenção de Jesus aos enfermos se prolonga na Unção dos Enfermos e na caridade da Igreja.
  • Esperança na ressurreição. A volta da filha de Jairo à vida é um sinal: Jesus tem poder sobre a morte. A ressurreição definitiva virá com a dele. Veja o que a Igreja ensina sobre a vida eterna.

Reflexão para hoje

O homem dos túmulos, a mulher isolada, a menina morta: três pessoas fora da vida comum. Jesus vai até elas. Hoje também há pessoas que vivem entre os túmulos: presas a vícios, a depressões, a culpas que as fazem se ferir. Jesus não tem medo de se aproximar, e nós, como Igreja, também não devemos ter.

A mulher do manto nos ensina a não desistir. Doze anos de tentativas frustradas, e ela ainda arrisca um gesto de fé. E Jesus nos ensina que tocar nele com fé é diferente de estar apenas na multidão. Podemos ir à Missa todo domingo esbarrando em Jesus, ou podemos tocá-lo de verdade.

A Jairo, que recebe a pior notícia, Jesus diz apenas: não tenha medo, somente creia. Para quem está diante de um diagnóstico difícil ou do luto, essa palavra não tira a dor, mas abre uma porta. Jesus caminha conosco até a casa onde há choro e entra nela.

Para rezar com Marcos 5

  • Que “túmulo” na minha vida precisa da visita libertadora de Jesus?
  • Tenho tocado Jesus com fé nos sacramentos ou apenas esbarrado nele?
  • Diante de qual medo preciso ouvir hoje: somente crê?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, tu atravessas o mar para libertar quem vive entre os túmulos. Quero tocar a orla do teu manto com fé. Cura as minhas feridas antigas, devolve-me a paz e, quando o medo me disser que não há mais saída, toma a minha mão e diz-me: levanta-te. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1504. Capítulo anterior: Marcos 4. Capítulo seguinte: Marcos 6.

Perguntas sobre Marcos 5

O que significa “Talitá cum”?

É uma expressão em aramaico, a língua falada por Jesus, que quer dizer “Menina, eu te digo, levanta-te”. Marcos conserva as palavras originais e as traduz para os leitores.

Por que os demônios entraram nos porcos em Marcos 5?

Os porcos eram animais impuros para os judeus, e a cena mostra que o mal foi totalmente expulso do homem. A destruição da manada torna visível a força destruidora do demônio e o poder de Jesus sobre ele.

Por que a mulher com hemorragia tocou o manto de Jesus escondida?

Pela Lei, a perda de sangue a tornava impura e quem ela tocasse também ficava impuro. Por isso se aproximou às escondidas, e Jesus a chamou para curá-la por inteiro, inclusive diante da comunidade.

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