Marcos 5 narra três milagres em que Jesus vence o que parecia invencível: uma legião de demônios, uma doença de doze anos e a morte de uma menina. O capítulo mostra o poder de Jesus sobre o mal, a doença e a morte, e destaca a fé de quem se aproxima dele.
Contexto de Marcos 5
O capítulo continua a travessia do mar iniciada em Marcos 4, logo após a tempestade acalmada. Jesus chega à outra margem, a região dos gerasenos, território pagão da Decápole, uma liga de cidades de cultura grega a leste do Jordão. Depois volta para a margem judaica, onde acontecem as duas outras curas, contadas de forma entrelaçada. Esse recurso de Marcos, abrir uma história, inserir outra no meio e depois concluir a primeira, ajuda a ler uma à luz da outra.
Explicação de Marcos 5
Versículos 1 a 10: o homem que vivia nos túmulos
Assim que Jesus desce do barco, vem ao seu encontro um homem possuído por um espírito impuro. Morava entre os túmulos, ninguém conseguia prendê-lo, nem com correntes. Dia e noite gritava e se feria com pedras. Túmulos eram lugares impuros, ligados à morte. A descrição mostra o efeito do mal: isolamento, violência contra si mesmo e perda da dignidade.
Ao ver Jesus de longe, o homem corre, se prostra e grita, chamando-o de Filho do Deus Altíssimo. Jesus pergunta o nome, e ele responde: Legião, porque somos muitos. Uma legião romana reunia milhares de soldados. O nome indica uma possessão intensa e talvez evoque também a presença opressora de Roma na região.
Versículos 11 a 20: os porcos e o envio do homem curado
Os espíritos pedem para entrar numa grande manada de porcos que pastava ali. Jesus permite, e a manada, cerca de dois mil animais, se precipita no mar e se afoga. Para os judeus o porco era impuro (Lv 11,7). A cena mostra que o mal saiu de fato e revela sua face destruidora. Os moradores encontram o homem sentado, vestido e em perfeito juízo, e ficam com medo. Pedem que Jesus vá embora. O prejuízo material pesou mais que a libertação de uma pessoa.
O homem curado quer ir com Jesus, mas ele não permite. Manda que volte para os seus e conte o que o Senhor fez e como teve misericórdia dele. Em terra pagã, onde não havia risco de ser entendido como messias político, Jesus não pede silêncio. O homem anuncia por toda a Decápole. É o primeiro missionário entre os pagãos no Evangelho de Marcos. O relato paralelo está em Lucas 8 e, de forma mais breve, em Mateus 8.
Versículos 21 a 24: o pedido de Jairo
De volta à outra margem, Jairo, um dos chefes da sinagoga, se lança aos pés de Jesus. Sua filhinha está morrendo, e ele pede que Jesus lhe imponha as mãos para que seja salva e viva. Um homem importante da comunidade se humilha em público por amor à filha. Jesus vai com ele, e uma multidão o aperta pelo caminho.
Versículos 25 a 34: a mulher que tocou o manto
No meio da multidão há uma mulher que sofria de hemorragia havia doze anos. Gastara tudo com médicos e só piorara. Pela Lei (Lv 15,25-27), uma mulher nessa condição era considerada impura, e tudo o que tocasse também ficava. Ela vivia, portanto, isolada, além de doente e empobrecida. Pensava: se eu tocar ao menos o manto dele, ficarei curada. Toca por trás e sente que está curada.
Jesus percebe que uma força saiu dele e pergunta quem tocou suas roupas. Os discípulos acham a pergunta estranha, com tanta gente apertando. Mas há diferença entre esbarrar em Jesus e tocá-lo com fé. A mulher, tremendo, se aproxima e conta toda a verdade. Jesus a chama de filha, diz que a fé dela a salvou e a manda em paz, curada do seu mal. Ele não quer apenas uma cura física às escondidas: devolve-lhe a dignidade diante de todos. O Catecismo lembra que Jesus muitas vezes pede aos doentes que creiam e que os doentes procuravam tocá-lo, porque saía dele uma força que curava (CIC n. 1504).
Versículos 35 a 43: a filha de Jairo
Enquanto Jesus ainda fala, chegam da casa de Jairo dizendo que a menina morreu e que não adianta mais incomodar o Mestre. Jesus ouve e diz a Jairo que não tenha medo, apenas creia. Leva consigo somente Pedro, Tiago e João, os mesmos que estarão na Transfiguração e no Getsêmani. Na casa há choro e gritos; era costume haver lamentações em voz alta, às vezes com carpideiras. Jesus diz que a menina não morreu, mas dorme. Riem dele. Para os cristãos, a morte passou a ser chamada de sono justamente porque Jesus a vence.
Jesus toma a mão da menina e diz em aramaico: “Talitá cum”, que significa “Menina, eu te digo, levanta-te” (Mc 5,41). Ela se levanta imediatamente e começa a andar; tinha doze anos. Jesus manda que ninguém saiba e pede que lhe deem de comer. O detalhe da comida mostra que ela voltou de verdade à vida concreta. Note os dois “doze”: doze anos de doença e doze anos de vida. As duas filhas, a mulher e a menina, são restituídas à vida pela fé.
O que Marcos 5 ensina para a fé católica?
- Jesus vence o poder do demônio. A Igreja continua essa missão pela oração e, quando necessário, pelo exorcismo realizado por sacerdotes autorizados pelo bispo. Veja anjos e demônios na doutrina católica.
- A fé é contato pessoal com Cristo. Os sacramentos são, de certo modo, a continuação desse tocar em Jesus. Por meio deles, a força que saía do seu corpo continua a nos curar.
- Cuidado com os doentes. A atenção de Jesus aos enfermos se prolonga na Unção dos Enfermos e na caridade da Igreja.
- Esperança na ressurreição. A volta da filha de Jairo à vida é um sinal: Jesus tem poder sobre a morte. A ressurreição definitiva virá com a dele. Veja o que a Igreja ensina sobre a vida eterna.
Reflexão para hoje
O homem dos túmulos, a mulher isolada, a menina morta: três pessoas fora da vida comum. Jesus vai até elas. Hoje também há pessoas que vivem entre os túmulos: presas a vícios, a depressões, a culpas que as fazem se ferir. Jesus não tem medo de se aproximar, e nós, como Igreja, também não devemos ter.
A mulher do manto nos ensina a não desistir. Doze anos de tentativas frustradas, e ela ainda arrisca um gesto de fé. E Jesus nos ensina que tocar nele com fé é diferente de estar apenas na multidão. Podemos ir à Missa todo domingo esbarrando em Jesus, ou podemos tocá-lo de verdade.
A Jairo, que recebe a pior notícia, Jesus diz apenas: não tenha medo, somente creia. Para quem está diante de um diagnóstico difícil ou do luto, essa palavra não tira a dor, mas abre uma porta. Jesus caminha conosco até a casa onde há choro e entra nela.
Para rezar com Marcos 5
- Que “túmulo” na minha vida precisa da visita libertadora de Jesus?
- Tenho tocado Jesus com fé nos sacramentos ou apenas esbarrado nele?
- Diante de qual medo preciso ouvir hoje: somente crê?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, tu atravessas o mar para libertar quem vive entre os túmulos. Quero tocar a orla do teu manto com fé. Cura as minhas feridas antigas, devolve-me a paz e, quando o medo me disser que não há mais saída, toma a minha mão e diz-me: levanta-te. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1504. Capítulo anterior: Marcos 4. Capítulo seguinte: Marcos 6.
Perguntas sobre Marcos 5
O que significa “Talitá cum”?
Por que os demônios entraram nos porcos em Marcos 5?
Por que a mulher com hemorragia tocou o manto de Jesus escondida?
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