Marcos 14 abre o relato da Paixão. Em Betânia, uma mulher unge Jesus com perfume caro; Judas combina a traição. Na ceia pascal, Jesus institui a Eucaristia. No Getsêmani, reza em agonia enquanto os discípulos dormem. Preso, é levado ao Sinédrio, declara ser o Messias e é condenado, enquanto Pedro o nega três vezes no pátio.
Contexto de Marcos 14
Os capítulos 14 e 15 formam o relato da Paixão, provavelmente a parte do Evangelho mais cedo transmitida nas comunidades cristãs. Tudo acontece em poucos dias, na época da Páscoa judaica e da festa dos Pães Ázimos, que recordavam a libertação do Egito. Jesus já tinha anunciado três vezes o que aconteceria (Mc 8, 9 e 10), e o discurso de Marcos 13 pediu vigilância. Agora, chega a hora. A Igreja proclama este relato no Domingo de Ramos do ano B.
Explicação de Marcos 14
Versículos 1 e 2: a conspiração
Faltam dois dias para a Páscoa. Os sumos sacerdotes e os escribas procuram um modo de prender Jesus à traição e matá-lo, mas não durante a festa, para evitar tumulto do povo.
Versículos 3 a 9: a unção em Betânia
Em Betânia, na casa de Simão, o leproso, uma mulher quebra um frasco de alabastro com perfume de nardo puro, muito caro, e o derrama sobre a cabeça de Jesus. Alguns reclamam do desperdício: o perfume valia mais de trezentos denários, quase o salário de um ano. Jesus a defende. Ela fez uma boa obra; os pobres sempre estarão com eles, mas Jesus não. Ela ungiu o seu corpo antecipadamente para a sepultura. Messias quer dizer Ungido, e é uma mulher anônima quem o unge. Jesus promete que, onde o Evangelho for anunciado, o que ela fez será contado em sua memória.
Versículos 10 e 11: a traição de Judas
Judas Iscariotes, um dos Doze, vai aos sumos sacerdotes para entregar Jesus. Eles se alegram e prometem dinheiro. Marcos não explica os motivos; destaca o contraste: a mulher gasta tudo por Jesus, Judas o entrega por dinheiro.
Versículos 12 a 16: a preparação da ceia pascal
No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos perguntam onde preparar a ceia. Jesus envia dois deles: encontrarão um homem carregando um jarro de água, sinal fácil de reconhecer, pois normalmente eram as mulheres que buscavam água. Ele mostrará uma sala ampla, mobiliada, no andar de cima. Tudo acontece como Jesus disse.
Versículos 17 a 21: o anúncio da traição
À tarde, Jesus está à mesa com os Doze e diz que um deles, que come com ele, o entregará. A frase lembra o Salmo 41,10. Jesus diz que o Filho do Homem vai, conforme está escrito, mas ai daquele por quem é entregue.
Versículos 22 a 25: a instituição da Eucaristia
Durante a ceia, Jesus toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e o dá aos discípulos, dizendo: “Tomai, isto é o meu corpo” (Mc 14,22). Depois toma o cálice, dá graças e todos bebem dele. E diz que este é o seu sangue, o sangue da aliança, derramado por muitos. A expressão sangue da aliança retoma Êxodo 24,8, quando Moisés aspergiu o povo com o sangue dos sacrifícios no Sinai. Derramado por muitos lembra o Servo de Isaías 53,12, que entrega a vida pelos pecados de muitos.
Jesus acrescenta que não beberá mais do fruto da videira até o dia em que o beber de novo no Reino de Deus. A Eucaristia aponta para o banquete final. O Catecismo ensina que, na Última Ceia, Jesus instituiu a Eucaristia como memorial da sua morte e ressurreição e ordenou aos apóstolos que a celebrassem até a sua volta (CIC n. 1337). Os relatos paralelos estão em Mateus 26, Lucas 22 e 1 Coríntios 11. Este trecho é lido na solenidade de Corpus Christi do ano B.
Versículos 26 a 31: o anúncio da negação de Pedro
Depois de cantarem os salmos, como era costume no fim da ceia pascal, saem para o Monte das Oliveiras. Jesus diz que todos o abandonarão, citando Zacarias 13,7: ferirei o pastor, e as ovelhas se dispersarão. Mas promete que, depois de ressuscitar, irá à frente deles para a Galileia. Pedro garante que não o abandonará, mesmo que todos o façam. Jesus responde que, naquela mesma noite, antes que o galo cante duas vezes, Pedro o negará três vezes.
Versículos 32 a 42: a agonia no Getsêmani
Chegam a um lugar chamado Getsêmani, que quer dizer prensa de azeite. Jesus leva Pedro, Tiago e João, os mesmos da Transfiguração, e começa a sentir pavor e angústia. Diz que a sua alma está triste até a morte e pede que vigiem. Afasta-se um pouco, cai por terra e reza: “Abá, Pai, tudo é possível para ti. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas o que tu queres” (Mc 14,36).
Aqui se vê a verdadeira humanidade de Jesus, que sente medo diante do sofrimento, e a sua perfeita obediência ao Pai. O Catecismo apresenta esta oração filial de Jesus, que entrega a sua vontade ao Pai, como o momento em que oração e entrega de si se unem (CIC n. 2605). Três vezes Jesus volta e encontra os discípulos dormindo. Diz a Pedro: vigiai e orai para não cairdes em tentação; o espírito está pronto, mas a carne é fraca. Na terceira vez, anuncia que a hora chegou.
Versículos 43 a 52: a prisão de Jesus
Judas chega com uma multidão armada de espadas e paus, enviada pelas autoridades. O sinal combinado é um beijo, saudação comum entre discípulo e mestre. Judas o chama de Rabi e o beija. Prendem Jesus. Um dos presentes tira a espada e fere o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha. Jesus diz que assim se cumprem as Escrituras. Então todos o abandonam e fogem.
Um jovem que o seguia, vestido apenas com um lençol, é agarrado, larga o lençol e foge nu. O detalhe só aparece em Marcos. Alguns sugerem que seria o próprio evangelista, mas não há como confirmar.
Versículos 53 a 65: Jesus diante do Sinédrio
Levam Jesus ao sumo sacerdote, onde se reúnem os sumos sacerdotes, anciãos e escribas. Pedro segue de longe até o pátio e se aquece ao fogo. Procuram testemunhos contra Jesus, mas os depoimentos não concordam. Alguns dizem que ele falou em destruir o Templo e reconstruí-lo em três dias. Jesus se cala, como o Servo que não abre a boca (Is 53,7).
Então o sumo sacerdote pergunta diretamente se ele é o Cristo, o Filho do Bendito, forma respeitosa de dizer Filho de Deus. Jesus responde: eu sou. E acrescenta que verão o Filho do Homem sentado à direita do Poderoso e vindo com as nuvens do céu, unindo o Salmo 110,1 e Daniel 7,13. É a primeira vez em Marcos que Jesus declara abertamente quem é, e o faz quando já está preso e humilhado. O sumo sacerdote rasga as vestes, sinal de escândalo diante de uma blasfêmia, e todos o declaram réu de morte. Depois o insultam e o agridem.
Versículos 66 a 72: a negação de Pedro
Enquanto isso, no pátio, uma criada do sumo sacerdote reconhece Pedro e diz que ele estava com Jesus, o Nazareno. Pedro nega. O galo canta. A criada insiste com os presentes, e Pedro nega de novo. Os presentes dizem que ele é galileu, e Pedro jura que não conhece esse homem. Logo o galo canta pela segunda vez. Pedro se lembra da palavra de Jesus e cai em prantos. Enquanto Jesus confessa a verdade diante do tribunal, Pedro a nega diante de uma criada. Marcos conserva sem disfarce essa fraqueza.
O que Marcos 14 ensina para a fé católica?
- A Eucaristia é o Corpo e o Sangue de Cristo. As palavras de Jesus são repetidas em cada Missa. A Igreja crê na presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho. Veja a Eucaristia, presença real de Cristo e o que é a transubstanciação.
- Sacrifício e sacerdócio. O sangue derramado por muitos une a Ceia à Cruz, e Jesus confia aos apóstolos a missão de celebrá-la. Veja o sacramento da Ordem.
- A oração filial. No Getsêmani, Jesus ensina a rezar com confiança e entrega: seja feita a tua vontade.
- Arrependimento e perdão. Pedro chora e será restaurado. Nenhuma queda é definitiva para quem volta a Deus.
Reflexão para hoje
Na Missa, ouvimos as mesmas palavras ditas naquela noite. A Eucaristia nasceu numa noite de traição e abandono. Jesus se deu justamente a discípulos fracos. Não comungamos porque somos perfeitos, mas porque precisamos dele, com o coração preparado e em estado de graça, como pede a Igreja.
O Getsêmani é o lugar de todos os que já sentiram angústia diante de algo que não queriam viver. Jesus não fingiu força. Pediu que o cálice passasse e, ao mesmo tempo, confiou. Podemos rezar assim nos momentos difíceis: dizer a Deus o que sentimos e entregar-lhe a decisão. E podemos aprender a vigiar com ele, como na Hora Santa.
Pedro prometeu muito e caiu depressa, mas o seu choro é o início da volta. Quando caímos, o Evangelho nos convida a não fugir como Judas, mas a chorar como Pedro e voltar.
Para rezar com Marcos 14
- Como tenho me preparado para receber o Corpo de Cristo na Missa?
- Qual é o cálice que hoje peço a Deus que afaste, e como posso dizer: seja feita a tua vontade?
- Em que situações eu nego conhecer Jesus por medo ou vergonha?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, que na noite em que foste entregue nos deste o teu Corpo e o teu Sangue, eu te adoro e te agradeço. No meu Getsêmani, ensina-me a dizer: Abá, Pai, seja feita a tua vontade. Quando eu te negar, olha para mim como olhaste para Pedro e dá-me lágrimas de verdadeiro arrependimento. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1337 e 2605. Capítulo anterior: Marcos 13. Capítulo seguinte: Marcos 15.
Perguntas sobre Marcos 14
O que Jesus disse ao instituir a Eucaristia em Marcos 14?
O que significa Abá?
Quem era o jovem que fugiu nu na prisão de Jesus?
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