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Lucas 22: a Última Ceia e a agonia no Getsêmani

Leia Lucas 22 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Lucas escreve o Evangelho com a pena sobre o livro aberto, com o touro ao fundo, pintura de Frans Hals
Frans Hals, São Lucas, c. 1625. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Lucas 22 abre o relato da Paixão. Judas combina a traição, Jesus celebra a Ceia pascal com os apóstolos e institui a Eucaristia. Depois reza em agonia no Monte das Oliveiras, é preso, negado por Pedro, zombado pelos guardas e levado ao Sinédrio.

Contexto de Lucas 22

Aproxima-se a festa dos Pães sem Fermento, chamada Páscoa. Era a grande festa judaica que lembrava a libertação do Egito (Ex 12). Jerusalém ficava cheia de peregrinos. Os chefes dos sacerdotes querem eliminar Jesus, mas temem o povo que o escuta no Templo (Lucas 21).

Na narrativa da Ceia, Lucas tem traços próprios: fala de um cálice antes do pão, coloca durante a refeição a discussão sobre quem é o maior e traz um verdadeiro discurso de despedida de Jesus. O paralelo está em Mt 26 e Mc 14.

Explicação de Lucas 22

Versículos 1 a 6: a traição de Judas

Os chefes procuram um modo de matar Jesus. Lucas diz que Satanás entrou em Judas, um dos Doze. Judas vai combinar com os chefes dos sacerdotes e os chefes da guarda do Templo como entregá-lo. Eles ficam contentes e prometem dinheiro. Judas procura uma ocasião longe da multidão. A frase sobre Satanás retoma Lc 4,13, quando o diabo se afastou de Jesus até o tempo oportuno. Esse tempo chegou. Mas Judas não deixa de ser responsável: ele concorda e age.

Versículos 7 a 13: a preparação da Páscoa

Jesus envia Pedro e João para preparar a ceia pascal. Encontrarão um homem levando um jarro de água, o que chamava atenção, pois buscar água era tarefa normalmente feita por mulheres. Devem segui-lo até a casa e pedir a sala. O dono mostrará uma grande sala no andar de cima, já arrumada. Tudo acontece como Jesus disse. Ele não é vítima surpreendida: conduz os acontecimentos.

Versículos 14 a 20: a instituição da Eucaristia

À mesa com os apóstolos, Jesus diz que desejou ardentemente comer esta Páscoa com eles antes de sofrer, e que não a comerá mais até que se cumpra no Reino de Deus. Toma um cálice, dá graças e manda que o repartam.

Depois toma o pão, dá graças, parte e dá aos apóstolos, dizendo: “Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19). Depois da ceia, faz o mesmo com o cálice: este cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado por vós. A nova aliança fora prometida pelo profeta Jeremias (Jr 31,31 a 34). A antiga aliança fora selada com sangue no Sinai (Ex 24,8). Agora é selada com o sangue do próprio Jesus. O relato é muito próximo do que São Paulo transmite em 1Cor 11,23 a 25.

Versículos 21 a 23: o traidor à mesa

Jesus revela que a mão de quem o entrega está com Ele à mesa. O Filho do Homem segue o caminho determinado, mas ai daquele que o trai. Os apóstolos começam a perguntar entre si quem seria. A traição vem de dentro, de quem partilhou o pão.

Versículos 24 a 30: quem é o maior?

No meio da ceia, surge uma discussão sobre quem é o maior. Jesus explica que os reis das nações dominam e ainda se fazem chamar de benfeitores. Entre os discípulos não deve ser assim: o maior seja como o menor, e quem governa como quem serve. E Ele mesmo diz: eu estou no meio de vós como aquele que serve. Depois promete aos que permaneceram com Ele nas provações um lugar à sua mesa no Reino e tronos para julgar as doze tribos de Israel.

Versículos 31 a 34: a oração por Pedro

Jesus se dirige a Pedro pelo nome antigo: Simão, Simão, Satanás pediu para vos peneirar como trigo. O “vos” é plural: todos serão provados. Mas Jesus diz a Pedro, no singular, que rezou por ele para que a sua fé não desfaleça, e que, depois de convertido, confirme os seus irmãos. Pedro garante que está pronto para ir à prisão e à morte. Jesus anuncia que, antes de o galo cantar, ele o negará três vezes.

Versículos 35 a 38: as duas espadas

Jesus lembra que, quando os enviou sem bolsa e sem sandálias, nada lhes faltou (Lc 10,4). Agora será diferente: quem tem bolsa, leve; quem não tem espada, venda o manto e compre uma. Ele cita Is 53,12: foi contado entre os malfeitores. O sentido é figurado: chega um tempo de hostilidade e luta. Os discípulos entendem ao pé da letra e mostram duas espadas. Jesus responde “basta”, encerrando a conversa. Pouco depois, quando um discípulo usa a espada, Jesus o detém e cura o ferido (v. 51).

Versículos 39 a 46: a agonia no Monte das Oliveiras

Jesus vai, como de costume, ao Monte das Oliveiras. Lucas não usa o nome Getsêmani, que vem de Mateus e Marcos. Ele pede aos discípulos que rezem para não cair em tentação, se afasta à distância de um tiro de pedra, se ajoelha e reza: Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua.

Um anjo do céu aparece para fortalecê-lo. Em agonia, Ele reza com mais insistência, e o seu suor se torna como gotas de sangue caindo no chão. Os versículos 43 e 44 faltam em alguns manuscritos antigos, mas estão em muitos outros, fazem parte do texto bíblico conservado pela Igreja e são proclamados na liturgia. Ao voltar, encontra os discípulos dormindo de tristeza e repete: levantai-vos e rezai, para não cair em tentação.

Versículos 47 a 53: a prisão

Chega uma multidão guiada por Judas, que se aproxima para beijar Jesus. Jesus pergunta: Judas, com um beijo entregas o Filho do Homem? Um dos discípulos fere com a espada o servo do sumo sacerdote e corta-lhe a orelha direita. Jesus diz: basta! E, tocando a orelha, cura o homem. Só Lucas conta essa cura. Jesus diz aos que vieram prendê-lo: esta é a vossa hora e o poder das trevas.

Versículos 54 a 62: a negação de Pedro

Levam Jesus para a casa do sumo sacerdote. Pedro segue de longe e senta junto ao fogo no pátio. Uma criada o reconhece; ele nega. Pouco depois outro o acusa; ele nega de novo. Cerca de uma hora mais tarde, um terceiro insiste, porque Pedro é galileu; ele nega pela terceira vez. Naquele instante o galo canta. Então o Senhor se volta e olha para Pedro. Pedro se lembra da palavra de Jesus, sai e chora amargamente. Esse olhar, que só Lucas registra, não é de condenação: é o olhar que provoca o arrependimento.

Versículos 63 a 71: zombarias e Sinédrio

Os guardas zombam de Jesus, vendam seus olhos, batem nele e dizem: profetiza, quem te bateu? Ao amanhecer, Ele é levado ao Sinédrio, o conselho dos anciãos, chefes dos sacerdotes e mestres da Lei. Perguntam se Ele é o Messias. Jesus responde que, desde agora, o Filho do Homem estará sentado à direita do poder de Deus (Sl 110,1; Dn 7,13). Perguntam: então és o Filho de Deus? Ele responde: vós dizeis que eu sou. Para eles, isso basta para condená-lo.

O que Lucas 22 ensina para a fé católica?

  • A instituição da Eucaristia. O Catecismo cita as palavras de Lucas sobre o corpo entregue e a ordem “fazei isto em memória de mim” ao apresentar a instituição do sacramento (CIC n. 1339). Na Missa, a Igreja obedece a esse mandamento. Veja a Oração Eucarística e a transubstanciação.
  • O sacerdócio e o serviço. A Igreja vê na Última Ceia também a instituição do sacerdócio ministerial. E Jesus deixa claro que toda autoridade na Igreja é serviço.
  • A missão de Pedro. A oração de Jesus por Pedro e a ordem de confirmar os irmãos são lidas pela Igreja como fundamento da missão do sucessor de Pedro. Veja São Pedro, o primeiro Papa.
  • A oração de Jesus na agonia. O Catecismo cita a oração no Monte das Oliveiras ao falar da oração de Jesus na Paixão (CIC n. 2600), e lembra o seu apelo à vigilância (CIC n. 2612).
  • Arrependimento e misericórdia. Judas e Pedro pecam gravemente. O olhar de Jesus abre para Pedro o caminho das lágrimas e da volta.

Reflexão para hoje

Na Missa, ouvimos as mesmas palavras que Jesus disse naquela noite. Não é só uma lembrança: é o mesmo sacrifício de Cristo tornado presente. Cada Comunhão é um encontro com o Senhor que deseja ardentemente estar conosco.

O Monte das Oliveiras é o lugar da nossa angústia. Há noites em que também queremos que o cálice passe: uma doença, uma perda, uma decisão difícil. Jesus nos ensina a rezar com sinceridade total e a terminar com confiança: seja feita a tua vontade. E Deus envia força, como o anjo.

E Pedro nos consola. Ele foi sincero quando prometeu fidelidade, e mesmo assim caiu. Todos conhecemos essa fraqueza. O que salvou Pedro foi deixar-se olhar por Jesus e chorar. O sacramento da Confissão é esse olhar hoje.

Para rezar com Lucas 22

  • Com que coração eu me aproximo da Eucaristia?
  • Qual é o cálice que hoje eu peço a Deus que afaste de mim?
  • Deixo-me olhar por Jesus depois das minhas quedas?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, que te entregaste por nós no pão e no vinho, obrigado pelo dom da Eucaristia. Na minha agonia, ensina-me a dizer contigo: seja feita a tua vontade. Quando eu te negar, olha para mim como olhaste para Pedro, e dá-me a graça do arrependimento. Faz de mim alguém que serve. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1339, 2600 e 2612.

Perguntas sobre Lucas 22

O que Jesus disse na Última Ceia segundo Lucas?

Ao dar o pão, disse que era o seu corpo dado por nós e mandou fazer isto em sua memória. Ao dar o cálice, disse que era a nova aliança no seu sangue, derramado por nós. Essas palavras estão no centro da Missa.

Por que Jesus suou sangue no Monte das Oliveiras?

Lucas diz que, em agonia, o suor de Jesus se tornou como gotas de sangue. A imagem mostra a intensidade do seu sofrimento e da sua oração diante da Paixão.

O que significa o olhar de Jesus para Pedro?

Depois da terceira negação, o Senhor se voltou e olhou para Pedro, que saiu e chorou amargamente. Foi um olhar de misericórdia que provocou o arrependimento.

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