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Lucas 23: a Paixão, o bom ladrão e a morte de Jesus

Leia Lucas 23 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Lucas escreve o Evangelho com a pena sobre o livro aberto, com o touro ao fundo, pintura de Frans Hals
Frans Hals, São Lucas, c. 1625. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Lucas 23 narra o julgamento, a crucificação, a morte e o sepultamento de Jesus. Pilatos o declara inocente várias vezes, mas o entrega à vontade do povo. Na cruz, Jesus perdoa os que o crucificam, promete o Paraíso ao bom ladrão e entrega o espírito ao Pai.

Contexto de Lucas 23

O capítulo continua sem pausa o relato de Lucas 22. Depois da noite no palácio do sumo sacerdote e da sessão do Sinédrio ao amanhecer, Jesus é levado ao governador romano Pôncio Pilatos. Só a autoridade romana podia aplicar a pena de crucificação.

Lucas tem detalhes próprios: o envio de Jesus a Herodes, o encontro com as mulheres de Jerusalém, as palavras de perdão na cruz e o diálogo com o bom ladrão. Ao longo do capítulo, ele insiste na inocência de Jesus. A narrativa da Paixão segundo Lucas é proclamada no Domingo de Ramos do Ano C.

Explicação de Lucas 23

Versículos 1 a 5: diante de Pilatos

Toda a assembleia leva Jesus a Pilatos. As acusações são políticas, para pesar diante de Roma: Ele agita o povo, proíbe pagar imposto a César e diz ser Messias, rei. A segunda acusação é falsa, como mostra Lc 20,25. Pilatos pergunta se Ele é o rei dos judeus, e Jesus responde: tu o dizes. Pilatos declara que não encontra nele motivo de condenação. Eles insistem que Jesus agita o povo desde a Galileia até ali.

Versículos 6 a 12: diante de Herodes

Ao ouvir falar da Galileia, Pilatos envia Jesus a Herodes Antipas, que governava aquela região e estava em Jerusalém. Herodes fica muito contente, pois há tempo queria ver Jesus e esperava algum milagre. Faz muitas perguntas, mas Jesus não responde nada. Herodes e os seus soldados o desprezam, zombam dele e o vestem com uma roupa brilhante. Naquele dia, Herodes e Pilatos, que eram inimigos, ficam amigos. O silêncio de Jesus lembra o Servo de Is 53,7, que não abre a boca.

Versículos 13 a 25: Barrabás é solto

Pilatos reúne os chefes e o povo e repete: nem ele nem Herodes encontraram culpa em Jesus. Propõe castigá-lo e soltá-lo. Mas todos gritam: fora com ele, solta-nos Barrabás. Barrabás estava preso por uma revolta na cidade e por homicídio. Pilatos fala de novo, querendo soltar Jesus. Eles gritam: crucifica-o! Pela terceira vez Pilatos afirma que não encontra nele nada que mereça a morte. Mas os gritos crescem, e ele cede. Solta o culpado e entrega o inocente. A troca é um retrato do que a fé cristã vê na cruz: o justo no lugar do pecador.

Versículos 26 a 32: o caminho do Calvário

Ao levarem Jesus, obrigam um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, a carregar a cruz atrás dele. Lucas diz “atrás de Jesus”, a postura do discípulo (Lc 9,23). Uma grande multidão o segue, e mulheres batem no peito e choram por Ele. Jesus se volta e diz: filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai por vós e por vossos filhos. Ele pensa nos dias de sofrimento que virão sobre a cidade. E diz um provérbio: se fazem isso com a madeira verde, o que farão com a seca? Se o inocente sofre assim, o que será dos culpados? Dois malfeitores também são levados com Ele para serem mortos.

Versículos 33 a 38: a crucificação e o perdão

No lugar chamado Caveira, crucificam Jesus e os dois malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus diz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Alguns manuscritos antigos não trazem essa frase, mas ela está em muitos outros, faz parte do texto conservado pela Igreja, é proclamada na liturgia e combina com todo o Evangelho de Lucas. Estêvão repetirá esse gesto ao morrer (At 7,60).

Os soldados repartem as suas vestes tirando a sorte, como no Salmo 22,19. O povo observa. Os chefes zombam: salvou os outros, salve a si mesmo, se é o Messias. Os soldados oferecem vinagre e dizem: se és o rei dos judeus, salva-te. Acima dele há uma inscrição: este é o rei dos judeus. A tentação de “salvar a si mesmo” lembra as tentações do deserto (Lc 4,1 a 13). Jesus não desce da cruz porque veio salvar os outros.

Versículos 39 a 43: o bom ladrão

Um dos malfeitores crucificados insulta Jesus: não és o Messias? Salva-te e salva-nos. O outro o repreende: nem temes a Deus, estando na mesma condenação? Nós recebemos o que merecemos, mas este não fez nenhum mal. E diz: Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino. Jesus responde: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43).

O bom ladrão, que a tradição chamou de Dimas, reconhece o seu pecado, proclama a inocência de Jesus e confia nele. É o último a ser chamado por Jesus antes de morrer, e o primeiro a quem Ele promete o Paraíso. “Hoje” é uma palavra cara a Lucas (Lc 2,11; Lc 19,9): a salvação é agora.

Versículos 44 a 49: a morte de Jesus

Por volta do meio-dia, a escuridão cobre toda a terra até as três da tarde. O sol se apaga e o véu do santuário se rasga ao meio. O véu separava o Santo dos Santos, lugar da presença de Deus. Rasgado, ele sinaliza que o acesso a Deus está aberto. Jesus dá um grande grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. São palavras do Salmo 31,6, uma oração de confiança em Deus. Dito isso, expira.

O centurião, vendo o que acontece, glorifica a Deus e diz: realmente, este homem era justo. As multidões voltam batendo no peito. Os conhecidos de Jesus e as mulheres que o seguiam desde a Galileia observam de longe.

Versículos 50 a 56: o sepultamento

José, de Arimateia, membro do conselho, homem bom e justo, que não tinha concordado com a decisão dos outros e esperava o Reino de Deus, pede a Pilatos o corpo de Jesus. Ele o desce da cruz, envolve num lençol e o coloca num túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado. Era o dia da preparação, e o sábado ia começar. As mulheres vindas da Galileia veem o túmulo e como o corpo foi colocado. Voltam, preparam aromas e perfumes e, no sábado, descansam conforme o mandamento.

O que Lucas 23 ensina para a fé católica?

  • A inocência e a entrega de Cristo. Jesus morre inocente, por nós. A fé da Igreja vê na cruz o sacrifício que nos reconcilia com Deus. Não se pode culpar o povo judeu como um todo pela morte de Jesus, como a Igreja ensina com clareza; somos todos pecadores por quem Ele morreu.
  • O perdão aos inimigos. A primeira palavra de Jesus na cruz em Lucas é de perdão. Ela é o modelo do perdão cristão.
  • A oração confiante do bom ladrão. O Catecismo cita o bom ladrão entre os que se aproximam de Jesus com a oração da fé (CIC n. 2616).
  • A morte como entrega ao Pai. O Catecismo mostra que, nas últimas palavras de Jesus, a sua oração e a sua entrega coincidem, e cita o “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (CIC n. 2605). A Igreja reza essas palavras todas as noites nas Completas.
  • Os mistérios da Paixão. Os cristãos meditam estes passos na Via-Sacra e nos mistérios dolorosos do Rosário.

Reflexão para hoje

Pilatos sabia que Jesus era inocente, mas cedeu à pressão. Muitas vezes também sabemos o que é certo e cedemos: no trabalho, nas redes, na roda de amigos. A cruz nos pergunta de que lado ficamos quando a multidão grita.

Simão de Cirene não escolheu carregar a cruz; foi obrigado. E acabou caminhando atrás de Jesus. Há cruzes que chegam sem pedir licença: uma doença, um filho com dificuldades, um cuidado longo com um idoso. Carregadas com Jesus, elas ganham sentido.

E o bom ladrão nos dá esperança. Nunca é tarde. Uma oração simples e verdadeira, lembra-te de mim, bastou. Podemos rezá-la por nós e pelos que estão perto da morte. E podemos aprender com Jesus a morrer como quem dorme nos braços do Pai.

Para rezar com Lucas 23

  • Em que situações eu cedo à pressão, como Pilatos?
  • Qual cruz estou carregando atrás de Jesus neste momento?
  • Quem eu preciso perdoar, mesmo que não saiba o que fez?

Sugestão de oração:

Jesus, crucificado por amor, lembra-te de mim no teu Reino. Perdoa os meus pecados como perdoaste os que te crucificaram, e ensina-me a perdoar. Dá-me força para carregar a minha cruz atrás de Ti. E, na hora da minha morte, recebe-me como recebeste o bom ladrão. Pai, em tuas mãos entrego a minha vida. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2605 e 2616; Liturgia das Horas (Completas); Lecionário Dominical (Ano C).

Perguntas sobre Lucas 23

O que Jesus disse ao bom ladrão?

Quando o malfeitor arrependido pediu que Jesus se lembrasse dele no seu Reino, Jesus respondeu que naquele mesmo dia ele estaria com Ele no Paraíso (Lc 23,43).

Quais são as palavras de Jesus na cruz em Lucas?

Lucas traz três: o pedido de perdão ao Pai pelos que o crucificavam, a promessa do Paraíso ao bom ladrão e a entrega final, Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito.

Por que Pilatos enviou Jesus a Herodes?

Porque Jesus era da Galileia, região governada por Herodes Antipas, que estava em Jerusalém. Herodes queria ver um milagre, mas Jesus ficou em silêncio, e ele o devolveu a Pilatos.

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