Lucas 23 narra o julgamento, a crucificação, a morte e o sepultamento de Jesus. Pilatos o declara inocente várias vezes, mas o entrega à vontade do povo. Na cruz, Jesus perdoa os que o crucificam, promete o Paraíso ao bom ladrão e entrega o espírito ao Pai.
Contexto de Lucas 23
O capítulo continua sem pausa o relato de Lucas 22. Depois da noite no palácio do sumo sacerdote e da sessão do Sinédrio ao amanhecer, Jesus é levado ao governador romano Pôncio Pilatos. Só a autoridade romana podia aplicar a pena de crucificação.
Lucas tem detalhes próprios: o envio de Jesus a Herodes, o encontro com as mulheres de Jerusalém, as palavras de perdão na cruz e o diálogo com o bom ladrão. Ao longo do capítulo, ele insiste na inocência de Jesus. A narrativa da Paixão segundo Lucas é proclamada no Domingo de Ramos do Ano C.
Explicação de Lucas 23
Versículos 1 a 5: diante de Pilatos
Toda a assembleia leva Jesus a Pilatos. As acusações são políticas, para pesar diante de Roma: Ele agita o povo, proíbe pagar imposto a César e diz ser Messias, rei. A segunda acusação é falsa, como mostra Lc 20,25. Pilatos pergunta se Ele é o rei dos judeus, e Jesus responde: tu o dizes. Pilatos declara que não encontra nele motivo de condenação. Eles insistem que Jesus agita o povo desde a Galileia até ali.
Versículos 6 a 12: diante de Herodes
Ao ouvir falar da Galileia, Pilatos envia Jesus a Herodes Antipas, que governava aquela região e estava em Jerusalém. Herodes fica muito contente, pois há tempo queria ver Jesus e esperava algum milagre. Faz muitas perguntas, mas Jesus não responde nada. Herodes e os seus soldados o desprezam, zombam dele e o vestem com uma roupa brilhante. Naquele dia, Herodes e Pilatos, que eram inimigos, ficam amigos. O silêncio de Jesus lembra o Servo de Is 53,7, que não abre a boca.
Versículos 13 a 25: Barrabás é solto
Pilatos reúne os chefes e o povo e repete: nem ele nem Herodes encontraram culpa em Jesus. Propõe castigá-lo e soltá-lo. Mas todos gritam: fora com ele, solta-nos Barrabás. Barrabás estava preso por uma revolta na cidade e por homicídio. Pilatos fala de novo, querendo soltar Jesus. Eles gritam: crucifica-o! Pela terceira vez Pilatos afirma que não encontra nele nada que mereça a morte. Mas os gritos crescem, e ele cede. Solta o culpado e entrega o inocente. A troca é um retrato do que a fé cristã vê na cruz: o justo no lugar do pecador.
Versículos 26 a 32: o caminho do Calvário
Ao levarem Jesus, obrigam um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, a carregar a cruz atrás dele. Lucas diz “atrás de Jesus”, a postura do discípulo (Lc 9,23). Uma grande multidão o segue, e mulheres batem no peito e choram por Ele. Jesus se volta e diz: filhas de Jerusalém, não choreis por mim, chorai por vós e por vossos filhos. Ele pensa nos dias de sofrimento que virão sobre a cidade. E diz um provérbio: se fazem isso com a madeira verde, o que farão com a seca? Se o inocente sofre assim, o que será dos culpados? Dois malfeitores também são levados com Ele para serem mortos.
Versículos 33 a 38: a crucificação e o perdão
No lugar chamado Caveira, crucificam Jesus e os dois malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus diz: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Alguns manuscritos antigos não trazem essa frase, mas ela está em muitos outros, faz parte do texto conservado pela Igreja, é proclamada na liturgia e combina com todo o Evangelho de Lucas. Estêvão repetirá esse gesto ao morrer (At 7,60).
Os soldados repartem as suas vestes tirando a sorte, como no Salmo 22,19. O povo observa. Os chefes zombam: salvou os outros, salve a si mesmo, se é o Messias. Os soldados oferecem vinagre e dizem: se és o rei dos judeus, salva-te. Acima dele há uma inscrição: este é o rei dos judeus. A tentação de “salvar a si mesmo” lembra as tentações do deserto (Lc 4,1 a 13). Jesus não desce da cruz porque veio salvar os outros.
Versículos 39 a 43: o bom ladrão
Um dos malfeitores crucificados insulta Jesus: não és o Messias? Salva-te e salva-nos. O outro o repreende: nem temes a Deus, estando na mesma condenação? Nós recebemos o que merecemos, mas este não fez nenhum mal. E diz: Jesus, lembra-te de mim quando vieres com o teu Reino. Jesus responde: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43).
O bom ladrão, que a tradição chamou de Dimas, reconhece o seu pecado, proclama a inocência de Jesus e confia nele. É o último a ser chamado por Jesus antes de morrer, e o primeiro a quem Ele promete o Paraíso. “Hoje” é uma palavra cara a Lucas (Lc 2,11; Lc 19,9): a salvação é agora.
Versículos 44 a 49: a morte de Jesus
Por volta do meio-dia, a escuridão cobre toda a terra até as três da tarde. O sol se apaga e o véu do santuário se rasga ao meio. O véu separava o Santo dos Santos, lugar da presença de Deus. Rasgado, ele sinaliza que o acesso a Deus está aberto. Jesus dá um grande grito: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito. São palavras do Salmo 31,6, uma oração de confiança em Deus. Dito isso, expira.
O centurião, vendo o que acontece, glorifica a Deus e diz: realmente, este homem era justo. As multidões voltam batendo no peito. Os conhecidos de Jesus e as mulheres que o seguiam desde a Galileia observam de longe.
Versículos 50 a 56: o sepultamento
José, de Arimateia, membro do conselho, homem bom e justo, que não tinha concordado com a decisão dos outros e esperava o Reino de Deus, pede a Pilatos o corpo de Jesus. Ele o desce da cruz, envolve num lençol e o coloca num túmulo escavado na rocha, onde ninguém ainda tinha sido sepultado. Era o dia da preparação, e o sábado ia começar. As mulheres vindas da Galileia veem o túmulo e como o corpo foi colocado. Voltam, preparam aromas e perfumes e, no sábado, descansam conforme o mandamento.
O que Lucas 23 ensina para a fé católica?
- A inocência e a entrega de Cristo. Jesus morre inocente, por nós. A fé da Igreja vê na cruz o sacrifício que nos reconcilia com Deus. Não se pode culpar o povo judeu como um todo pela morte de Jesus, como a Igreja ensina com clareza; somos todos pecadores por quem Ele morreu.
- O perdão aos inimigos. A primeira palavra de Jesus na cruz em Lucas é de perdão. Ela é o modelo do perdão cristão.
- A oração confiante do bom ladrão. O Catecismo cita o bom ladrão entre os que se aproximam de Jesus com a oração da fé (CIC n. 2616).
- A morte como entrega ao Pai. O Catecismo mostra que, nas últimas palavras de Jesus, a sua oração e a sua entrega coincidem, e cita o “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (CIC n. 2605). A Igreja reza essas palavras todas as noites nas Completas.
- Os mistérios da Paixão. Os cristãos meditam estes passos na Via-Sacra e nos mistérios dolorosos do Rosário.
Reflexão para hoje
Pilatos sabia que Jesus era inocente, mas cedeu à pressão. Muitas vezes também sabemos o que é certo e cedemos: no trabalho, nas redes, na roda de amigos. A cruz nos pergunta de que lado ficamos quando a multidão grita.
Simão de Cirene não escolheu carregar a cruz; foi obrigado. E acabou caminhando atrás de Jesus. Há cruzes que chegam sem pedir licença: uma doença, um filho com dificuldades, um cuidado longo com um idoso. Carregadas com Jesus, elas ganham sentido.
E o bom ladrão nos dá esperança. Nunca é tarde. Uma oração simples e verdadeira, lembra-te de mim, bastou. Podemos rezá-la por nós e pelos que estão perto da morte. E podemos aprender com Jesus a morrer como quem dorme nos braços do Pai.
Para rezar com Lucas 23
- Em que situações eu cedo à pressão, como Pilatos?
- Qual cruz estou carregando atrás de Jesus neste momento?
- Quem eu preciso perdoar, mesmo que não saiba o que fez?
Sugestão de oração:
Jesus, crucificado por amor, lembra-te de mim no teu Reino. Perdoa os meus pecados como perdoaste os que te crucificaram, e ensina-me a perdoar. Dá-me força para carregar a minha cruz atrás de Ti. E, na hora da minha morte, recebe-me como recebeste o bom ladrão. Pai, em tuas mãos entrego a minha vida. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2605 e 2616; Liturgia das Horas (Completas); Lecionário Dominical (Ano C).
Perguntas sobre Lucas 23
O que Jesus disse ao bom ladrão?
Quais são as palavras de Jesus na cruz em Lucas?
Por que Pilatos enviou Jesus a Herodes?
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