Lucas 24 é o capítulo da Ressurreição. As mulheres encontram o túmulo vazio, dois discípulos reconhecem Jesus no caminho de Emaús ao partir o pão, e o Ressuscitado aparece aos apóstolos, come com eles e os envia em missão. O Evangelho termina com a Ascensão e com a alegria dos discípulos no Templo.
Contexto de Lucas 24
Tudo acontece no primeiro dia da semana, o domingo, logo depois do sábado em que as mulheres descansaram (Lucas 23). Lucas reúne num só dia as aparições em Jerusalém e arredores. Nos Atos dos Apóstolos, o mesmo autor dirá que Jesus apareceu durante quarenta dias antes de subir ao céu (At 1,3). As duas narrativas se completam.
O Evangelho de Lucas começou no Templo, com o anúncio a Zacarias (Lc 1,8 a 11), e termina no Templo, com os discípulos louvando a Deus. O círculo se fecha, e se abre o caminho da Igreja.
Explicação de Lucas 24
Versículos 1 a 8: o túmulo vazio
Muito cedo, as mulheres vão ao túmulo com os aromas que tinham preparado. Encontram a pedra removida e, ao entrar, não acham o corpo do Senhor Jesus. Enquanto estão perplexas, aparecem dois homens com roupas brilhantes. Elas se curvam com medo, e eles perguntam: “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (Lc 24,5). Ele não está aqui, ressuscitou. E as lembram do que Jesus disse na Galileia: o Filho do Homem devia ser entregue, crucificado e ressuscitar ao terceiro dia. Elas se lembram das palavras dele.
Versículos 9 a 12: o anúncio aos apóstolos
As mulheres voltam e contam tudo aos Onze e aos outros. Lucas dá nomes: Maria Madalena, Joana, Maria, mãe de Tiago, e outras. Mas os apóstolos acham que é delírio e não acreditam. Pedro, porém, corre ao túmulo, vê só os panos de linho e volta admirado. As primeiras testemunhas da Ressurreição são mulheres, num tempo em que o testemunho delas tinha pouco peso. Isso mostra que os evangelistas não inventaram um relato para convencer, mas contaram o que aconteceu. Veja Santa Maria Madalena.
Versículos 13 a 24: o caminho de Emaús
No mesmo dia, dois discípulos vão para um povoado chamado Emaús, a cerca de onze quilômetros de Jerusalém. Conversam sobre tudo o que aconteceu. Jesus se aproxima e caminha com eles, mas os seus olhos estão impedidos de reconhecê-lo. Ele pergunta do que falam. Eles param, tristes. Um deles, chamado Cléofas, se espanta: és o único em Jerusalém que não sabe o que aconteceu?
Eles contam: Jesus de Nazaré era um profeta poderoso em obras e palavras, foi condenado e crucificado. E acrescentam: nós esperávamos que fosse Ele quem libertaria Israel. Falam das mulheres e do túmulo vazio, mas a ele ninguém viu. A frase “nós esperávamos” resume a decepção de quem viu a esperança morrer.
Versículos 25 a 27: Jesus explica as Escrituras
Jesus os chama de lentos de coração para crer no que os profetas anunciaram. Não era preciso que o Messias sofresse tudo isso para entrar na sua glória? E, começando por Moisés e todos os profetas, explica o que nas Escrituras se referia a Ele. Toda a Bíblia aponta para Cristo. A cruz que parecia o fim da esperança estava no plano de Deus.
Versículos 28 a 35: reconhecido ao partir o pão
Perto do povoado, Jesus faz como quem vai adiante. Eles insistem: “Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando” (Lc 24,29). Ele entra. À mesa, toma o pão, abençoa, parte e lhes dá. Os mesmos gestos da Última Ceia (Lc 22,19). Então os olhos deles se abrem e o reconhecem, mas Ele desaparece. Eles dizem um ao outro: não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?
Na mesma hora voltam a Jerusalém, de noite, e encontram os Onze reunidos, que dizem: o Senhor ressuscitou de verdade e apareceu a Simão. Eles contam o que aconteceu no caminho e como o reconheceram ao partir o pão. A aparição a Pedro também é lembrada por São Paulo (1Cor 15,5).
Versículos 36 a 43: Jesus aparece aos apóstolos
Enquanto falam, Jesus aparece no meio deles e diz: a paz esteja convosco. Eles pensam ver um fantasma. Jesus mostra as mãos e os pés: sou eu mesmo; tocai-me e vede, um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. Como ainda não acreditam, de tanta alegria e espanto, Ele pede algo para comer e come um pedaço de peixe assado diante deles. O Ressuscitado não é uma ideia nem uma alma sem corpo. É Jesus com o seu corpo verdadeiro, agora glorioso.
Versículos 44 a 49: o envio em missão
Jesus lembra que precisava se cumprir tudo o que estava escrito sobre Ele na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos, modo de indicar todas as Escrituras de Israel. Abre a mente deles para entenderem as Escrituras. O Messias devia sofrer e ressuscitar ao terceiro dia, e em seu nome seriam anunciados a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Vós sois testemunhas disso. Ele promete enviar o que o Pai prometeu e manda que fiquem na cidade até serem revestidos da força do alto. É o anúncio do Espírito Santo em Pentecostes (At 2).
Versículos 50 a 53: a Ascensão
Jesus os leva até perto de Betânia, levanta as mãos e os abençoa. Enquanto os abençoa, afasta-se deles e é levado ao céu. Eles o adoram e voltam para Jerusalém com grande alegria. E estão sempre no Templo, louvando a Deus. A última imagem de Jesus no Evangelho de Lucas é a de um sacerdote que abençoa. A última dos discípulos é a de uma comunidade alegre que reza.
O que Lucas 24 ensina para a fé católica?
- A Ressurreição corporal de Jesus. O Ressuscitado tem corpo real, pode ser tocado e come. A Igreja professa que Cristo ressuscitou verdadeiramente e que nós também ressuscitaremos.
- A estrutura da Missa. O Catecismo lembra que foi ao partir o pão que os discípulos reconheceram Jesus depois da Ressurreição (CIC n. 1329). E mostra que o caminho de Emaús tem a mesma estrutura da celebração eucarística: primeiro a explicação das Escrituras, depois a mesa e a fração do pão (CIC n. 1347). Veja como a Missa é dividida.
- Cristo é a chave das Escrituras. Todo o Antigo Testamento se entende à luz de Cristo. A Igreja lê a Bíblia como unidade.
- A missão e o perdão dos pecados. A pregação da conversão e do perdão a todos os povos continua na Igreja, especialmente nos sacramentos do Batismo e da Reconciliação.
- Liturgia. O relato do túmulo vazio (vv. 1 a 12) é proclamado na Vigília Pascal do Ano C, e o caminho de Emaús no 3º Domingo da Páscoa do Ano A. Veja também o Tempo Pascal.
Reflexão para hoje
Os discípulos de Emaús somos nós em muitos dias. “Nós esperávamos.” Esperávamos que o casamento desse certo, que a doença passasse, que a vida tivesse outro rumo. E saímos de Jerusalém, tristes, conversando sobre o que deu errado. Jesus não nos repreende de longe. Ele caminha junto, mesmo quando não o reconhecemos.
O caminho de Emaús também ensina onde encontrá-lo: na Palavra que aquece o coração e no pão partido. É exatamente o que acontece em cada Missa. Quem sai da Missa de coração aquecido tem vontade de voltar e contar aos outros, como os dois que voltaram a Jerusalém de noite.
E o Evangelho termina em alegria. Depois da cruz, a última palavra é bênção e louvor. A fé na Ressurreição não apaga o sofrimento, mas lhe dá um horizonte. O túmulo está vazio, e o Senhor está vivo.
Para rezar com Lucas 24
- Qual é o meu “nós esperávamos” hoje?
- Meu coração arde quando escuto a Palavra de Deus?
- A quem posso contar que encontrei o Senhor vivo?
Sugestão de oração:
Senhor ressuscitado, fica conosco, porque a tarde cai. Caminha ao meu lado nos dias de tristeza e explica-me as Escrituras até meu coração arder. Abre os meus olhos para te reconhecer ao partir o pão. E envia-me, cheio de alegria, para anunciar que estás vivo. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1329 e 1347; Lecionário Dominical.
Perguntas sobre Lucas 24
Como os discípulos de Emaús reconheceram Jesus?
Quem foram as primeiras testemunhas da Ressurreição em Lucas?
Onde Lucas 24 situa a Ascensão de Jesus?
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