Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Marcos

Marcos 15: a crucificação e a morte de Jesus explicadas

Leia Marcos 15 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Marcos de barba branca, pensativo junto aos livros e ao tinteiro, com a cabeça do leão aos pés, de Carlo Maratta
Carlo Maratta, O Evangelista São Marcos, c. 1655-1660. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Marcos 15 narra o julgamento de Jesus diante de Pilatos, a escolha de Barrabás, a flagelação e as zombarias dos soldados, o caminho até o Gólgota, a crucificação e a morte de Jesus. Diante da cruz, um centurião pagão reconhece que ele era o Filho de Deus. O capítulo termina com a sepultura feita por José de Arimateia, observada pelas mulheres.

Contexto de Marcos 15

O capítulo continua o relato da Paixão iniciado em Marcos 14. Depois da condenação no Sinédrio durante a noite, Jesus é levado a Pôncio Pilatos, governador romano da Judeia entre os anos 26 e 36, aproximadamente. Só a autoridade romana podia executar uma pena de morte naquela situação. Marcos marca as horas do dia: de manhã, a terceira hora, a sexta e a nona, como numa liturgia. É o centro de todo o Evangelho, para onde tudo caminhava desde o início.

Explicação de Marcos 15

Versículos 1 a 5: Jesus diante de Pilatos

De manhã cedo, o Sinédrio entrega Jesus amarrado a Pilatos. Pilatos pergunta: “Tu és o rei dos judeus?” (Mc 15,2). Jesus responde: tu o dizes. Diante de um romano, a acusação muda de tom: já não é blasfêmia, mas uma pretensão política de ser rei. Os sumos sacerdotes acusam Jesus de muitas coisas, mas ele não responde mais nada, e Pilatos fica admirado. O silêncio de Jesus lembra o Servo que não abre a boca (Is 53,7).

Versículos 6 a 15: Barrabás

Por ocasião da festa, Pilatos costumava soltar um preso que o povo pedisse. Havia um chamado Barrabás, preso com rebeldes que tinham cometido homicídio numa revolta. A multidão pede o costume, e Pilatos oferece soltar o rei dos judeus, porque percebia que os sumos sacerdotes o tinham entregado por inveja. Mas eles incitam a multidão a pedir Barrabás. Pilatos pergunta o que fazer com Jesus, e gritam: crucifica-o. Pilatos pergunta que mal ele fez, mas gritam ainda mais. Querendo agradar a multidão, solta Barrabás e, depois de mandar flagelar Jesus, o entrega para ser crucificado.

O culpado é solto, e o inocente vai à morte em seu lugar. A cena ilustra o que Jesus disse: o Filho do Homem dá a vida em resgate por muitos (Mc 10,45). A flagelação romana, com chicotes de tiras de couro com pontas de metal ou osso, era terrivelmente dolorosa e precedia a crucificação. A Igreja ensina que a responsabilidade pela morte de Jesus não pode ser atribuída aos judeus como povo, nem aos de então nem aos de hoje (Concílio Vaticano II, Nostra Aetate 4): todos os pecadores têm parte nela.

Versículos 16 a 20: a zombaria dos soldados

Os soldados levam Jesus para dentro do palácio, o pretório, e reúnem toda a tropa. Vestem-no de púrpura, a cor dos reis, colocam-lhe uma coroa de espinhos e o saúdam como rei dos judeus. Batem na sua cabeça com uma vara, cospem nele e se ajoelham em zombaria. Sem saber, proclamam uma verdade: Jesus é rei, mas a sua coroa é de espinhos. Depois tiram a púrpura, vestem-lhe as próprias roupas e o levam para crucificar.

Versículos 21 a 24: Simão de Cirene e a crucificação

Os soldados obrigam um homem que passava, vindo do campo, a carregar a cruz: Simão de Cirene, cidade do norte da África, pai de Alexandre e de Rufo. Marcos cita os filhos como se os leitores os conhecessem; um Rufo é saudado por Paulo em Romanos 16,13, mas não é certo que seja o mesmo. Simão faz literalmente o que Jesus pediu aos discípulos: tomar a cruz e segui-lo.

Levam Jesus ao Gólgota, que quer dizer lugar da Caveira. Oferecem-lhe vinho misturado com mirra, que talvez servisse para entorpecer a dor, mas ele não toma. Crucificam-no e repartem as suas vestes tirando a sorte, como diz o Salmo 22,19 (em algumas Bíblias, 22,18). A crucificação era a pena romana reservada a escravos e rebeldes, a morte mais humilhante do mundo antigo.

Versículos 25 a 32: o rei crucificado e as zombarias

Era a terceira hora, cerca de nove da manhã. A inscrição com o motivo da condenação dizia: o rei dos judeus. Veja o que significa INRI na cruz. Com ele crucificam dois bandidos, um à direita e outro à esquerda, os lugares que Tiago e João tinham pedido (Mc 10,37). Os que passam balançam a cabeça e zombam, lembrando a frase sobre destruir o Templo. Os sumos sacerdotes e escribas dizem que salvou outros, mas não pode salvar a si mesmo. A frase, dita com ironia, é verdadeira: justamente por não salvar a si mesmo, ele salva os outros. Até os crucificados com ele o insultam.

Versículos 33 a 37: a morte de Jesus

Ao meio-dia, a sexta hora, a escuridão cobre toda a terra até as três da tarde. As trevas lembram o profeta Amós, que anunciou o sol escurecendo ao meio-dia no dia do Senhor (Am 8,9). Na nona hora, Jesus grita em alta voz: “Eloí, Eloí, lemá sabactâni?”, que significa “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 15,34). São as primeiras palavras do Salmo 22. Na tradição judaica, citar o início de um salmo evocava o salmo inteiro, que passa da angústia à confiança e ao louvor (Sl 22,23-32).

Jesus experimenta o abandono que os pecadores sentem longe de Deus, mas continua a chamá-lo de meu Deus. O Catecismo inclui este grito entre as palavras de Jesus na cruz em que oração e entrega de si se unem (CIC n. 2605). Alguns pensam que ele chama Elias, e um deles lhe oferece vinagre numa esponja. Então Jesus dá um grande grito e expira.

Versículos 38 e 39: o véu rasgado e o centurião

O véu do santuário se rasga em duas partes, de alto a baixo. O véu separava o Santo dos Santos, onde só o sumo sacerdote entrava uma vez por ano (Lv 16). Rasgar-se de cima para baixo indica uma ação de Deus: o acesso a ele está aberto (Hb 10,19-20). O mesmo verbo rasgar foi usado no Batismo, quando os céus se abriram (Mc 1,10).

O centurião, oficial romano que estava diante de Jesus, vendo como ele expirou, diz: verdadeiramente este homem era Filho de Deus. É o ponto alto do Evangelho de Marcos. Ninguém humano, até agora, tinha dito isso com essas palavras. Quem o diz é um pagão, ao pé da cruz. O livro que começou anunciando o Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1,1), chega aqui à sua confissão central.

Versículos 40 e 41: as mulheres que olhavam de longe

Algumas mulheres observam de longe: Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé. Elas seguiam e serviam Jesus desde a Galileia, com muitas outras que subiram com ele a Jerusalém. Os discípulos fugiram; elas permanecem. Serão testemunhas da morte, da sepultura e do túmulo vazio. Conheça Santa Maria Madalena.

Versículos 42 a 47: a sepultura

Era a véspera do sábado, a Preparação. José de Arimateia, membro respeitado do Conselho que também esperava o Reino de Deus, tem coragem de pedir a Pilatos o corpo de Jesus. Pilatos se admira de que já esteja morto e confirma com o centurião. A morte de Jesus é real. José compra um lençol, desce o corpo, envolve-o e o coloca num túmulo escavado na rocha, rolando uma pedra na entrada. Maria Madalena e Maria, mãe de José, observam onde o colocam.

O que Marcos 15 ensina para a fé católica?

  • Cristo morreu pelos nossos pecados. No Credo professamos que ele padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. A cruz é o preço do nosso resgate.
  • Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele sofre e morre de verdade, e no momento da morte é reconhecido como Filho de Deus.
  • A oração no sofrimento. Jesus reza um salmo na cruz. Também nós podemos rezar os salmos nas horas de angústia.
  • A responsabilidade de todos. A Igreja ensina que os pecadores foram os autores da Paixão, e rejeita culpar o povo judeu.
  • A memória da Paixão. A Sexta-feira Santa e a Via-Sacra fazem os fiéis acompanharem estes passos. Veja também o Tríduo Pascal.

Reflexão para hoje

O grito de Jesus na cruz dá voz a muitas dores. Quem já perdeu alguém, quem enfrentou uma doença grave ou sente que Deus está calado pode rezar com ele: meu Deus, por que me abandonaste? Não é falta de fé. É a oração de quem continua chamando Deus de meu, mesmo no escuro. E o salmo que Jesus começou termina em esperança.

Simão de Cirene não escolheu carregar a cruz. Foi obrigado. Muitas cruzes chegam assim, sem pedir licença: cuidar de um pai doente, enfrentar uma demissão, conviver com um problema que não se resolve. Simão nos ensina que, mesmo uma cruz imposta, carregada junto com Jesus, pode se tornar caminho de graça.

E as mulheres de longe nos ensinam a fidelidade discreta. Não podiam fazer nada, mas não foram embora. Às vezes, ficar perto de quem sofre, mesmo sem soluções, é o maior gesto de amor.

Para rezar com Marcos 15

  • Que dor minha posso entregar a Deus com as palavras do Salmo 22?
  • Qual cruz chegou à minha vida sem eu escolher, e como posso carregá-la com Jesus?
  • Diante da cruz, consigo dizer com o centurião: verdadeiramente este é o Filho de Deus?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, rei coroado de espinhos, eu te adoro e te bendigo, porque pela tua santa cruz remiste o mundo. Nas minhas horas de escuridão, ensina-me a continuar chamando a Deus de meu Deus. Dá-me a força de Simão para carregar a cruz contigo e a fidelidade das mulheres que não te abandonaram. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2605; Concílio Vaticano II, Declaração Nostra Aetate. Capítulo anterior: Marcos 14. Capítulo seguinte: Marcos 16.

Perguntas sobre Marcos 15

O que significa “Eloí, Eloí, lemá sabactâni”?

Significa “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, o início do Salmo 22. Jesus reza esse salmo, que começa com um grito de angústia e termina com confiança e louvor a Deus.

Por que o véu do Templo se rasgou na morte de Jesus?

O véu separava o lugar mais santo do Templo. Rasgado de alto a baixo, significa que, pela morte de Cristo, o acesso a Deus está aberto e começa um culto novo.

Quem foi Simão de Cirene?

Um homem que vinha do campo e foi obrigado pelos soldados a carregar a cruz de Jesus. Marcos o identifica como pai de Alexandre e Rufo, provavelmente conhecidos da comunidade cristã.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.