Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Mateus

Mateus 26: a Última Ceia, o Getsêmani e a prisão

Leia Mateus 26 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Mateus, idoso e de barba branca, recebe o Evangelho de um anjo que aponta o livro, pintura de Guercino
Guercino, São Mateus e o Anjo, 1622. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Mateus 26 abre o relato da paixão de Jesus. Nele estão a conspiração contra Jesus, a unção em Betânia, a traição de Judas, a Última Ceia com a instituição da Eucaristia, a agonia no Getsêmani, a prisão, o julgamento diante do Sinédrio e a tríplice negação de Pedro. É um dos capítulos mais importantes para a fé e a liturgia da Igreja.

Contexto de Mateus 26

Terminados os cinco grandes discursos, Mateus inicia a narração da paixão, morte e ressurreição, que ocupa os capítulos 26 a 28. Tudo acontece em Jerusalém, durante a festa da Páscoa, quando os judeus recordavam a libertação do Egito com a ceia do cordeiro e dos pães sem fermento (Ex 12). Mateus mostra que Jesus sabe o que vai acontecer e entrega livremente a vida, cumprindo as Escrituras.

Explicação de Mateus 26

Versículos 1 a 5: a conspiração

Jesus anuncia aos discípulos que, dali a dois dias, será a Páscoa e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado. Ao mesmo tempo, os chefes dos sacerdotes e os anciãos se reúnem no palácio do sumo sacerdote Caifás e combinam prender Jesus à traição, mas não durante a festa, para evitar tumulto do povo.

Versículos 6 a 13: a unção em Betânia

Em Betânia, na casa de Simão, o leproso, uma mulher derrama sobre a cabeça de Jesus um perfume muito caro guardado num frasco de alabastro. Os discípulos reclamam do desperdício: o perfume poderia ser vendido em favor dos pobres. Jesus a defende: ela praticou uma boa obra; pobres sempre tereis, mas a mim nem sempre. Ao derramar o perfume, ela o preparou para a sepultura. Onde o Evangelho for anunciado, o que ela fez será contado em sua memória.

Versículos 14 a 16: a traição de Judas

Judas Iscariotes, um dos Doze, procura os chefes dos sacerdotes e pergunta quanto lhe darão para entregar Jesus. Combinam trinta moedas de prata. Mateus lembra a profecia de Zacarias, em que trinta moedas são o salário desprezível do pastor (Zc 11,12), e o preço de um escravo na Lei (Ex 21,32).

Versículos 17 a 25: a preparação da Páscoa e o anúncio da traição

No primeiro dia dos Pães sem fermento, os discípulos perguntam onde preparar a ceia pascal. Jesus os envia à casa de um certo homem com a mensagem: o meu tempo está próximo. À tarde, Ele se põe à mesa com os Doze e anuncia que um deles vai entregá-lo. Entristecidos, cada um pergunta: acaso sou eu, Senhor? Judas também pergunta, mas chama Jesus de Rabi, e não de Senhor. Jesus responde: tu o dizes.

Versículos 26 a 29: a instituição da Eucaristia

Durante a ceia, Jesus toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e o dá aos discípulos dizendo: “Tomai e comei, isto é o meu corpo” (Mt 26,26). Depois toma o cálice, dá graças e o entrega dizendo que bebam todos, porque isto é o seu sangue, o sangue da aliança, derramado por muitos para a remissão dos pecados. As palavras retomam a aliança do Sinai, selada com sangue (Ex 24,8), e a nova aliança anunciada por Jeremias (Jr 31,31). Só Mateus acrescenta para a remissão dos pecados. Jesus diz ainda que não beberá mais do fruto da videira até o dia em que o beber de novo no Reino do Pai.

Versículos 30 a 35: o anúncio da negação de Pedro

Depois de cantarem os salmos, como era costume no fim da ceia pascal, saem para o monte das Oliveiras. Jesus anuncia que todos se escandalizarão por causa dele naquela noite, citando Zacarias: ferirei o pastor, e as ovelhas se dispersarão (Zc 13,7). Mas promete: depois de ressuscitar, irá adiante deles para a Galileia. Pedro garante que nunca o abandonará. Jesus responde que, naquela mesma noite, antes que o galo cante, Pedro o negará três vezes.

Versículos 36 a 46: a agonia no Getsêmani

Jesus vai com os discípulos a um lugar chamado Getsêmani, nome que significa lagar de azeite. Leva Pedro, Tiago e João, os mesmos da transfiguração (Mateus 17), e começa a sentir tristeza e angústia. Diz que a sua alma está triste até a morte e pede que vigiem com Ele. Adiantando-se um pouco, cai com o rosto em terra e reza: meu Pai, se possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres. Três vezes volta e encontra os discípulos dormindo, e adverte: vigiai e orai para não cairdes em tentação; o espírito está pronto, mas a carne é fraca. Na segunda oração, Jesus diz: seja feita a tua vontade, as mesmas palavras do Pai-nosso (Mateus 6). Por fim anuncia que chegou a hora e que o traidor está perto.

Versículos 47 a 56: a prisão de Jesus

Judas chega com uma multidão armada de espadas e paus, enviada pelos chefes dos sacerdotes. O sinal combinado é um beijo, saudação habitual entre discípulo e mestre. Judas diz: salve, Rabi, e o beija. Jesus responde: amigo, a que vieste? Prendem Jesus. Um dos que estavam com Ele puxa a espada e corta a orelha do servo do sumo sacerdote. Jesus manda guardar a espada, porque todos os que usam a espada pela espada morrerão. Ele poderia pedir ao Pai doze legiões de anjos, mas as Escrituras devem se cumprir. Então todos os discípulos o abandonam e fogem.

Versículos 57 a 68: Jesus diante do Sinédrio

Levam Jesus à casa de Caifás, onde estão reunidos escribas e anciãos. Pedro o segue de longe. Procuram falsos testemunhos, mas não encontram nada consistente, até que dois afirmam que Ele disse poder destruir o Templo e reconstruí-lo em três dias. Jesus se cala, como o Servo de Isaías, que não abre a boca (Is 53,7). O sumo sacerdote o conjura pelo Deus vivo a dizer se é o Cristo, o Filho de Deus. Jesus responde: tu o disseste, e acrescenta que verão o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu, unindo o Salmo 110 e Daniel 7. O sumo sacerdote rasga as vestes, sinal de horror diante de blasfêmia, e o conselho o declara réu de morte. Cospem no seu rosto, dão-lhe socos e zombam dele.

Versículos 69 a 75: a negação de Pedro

No pátio, uma criada diz que Pedro estava com Jesus, o galileu. Pedro nega diante de todos. Outra criada repete, e ele nega com juramento. Outros dizem que o sotaque galileu o denuncia. Pedro começa a praguejar e jurar que não conhece esse homem. Imediatamente o galo canta. Pedro se lembra da palavra de Jesus, sai e chora amargamente.

O que Mateus 26 ensina para a fé católica?

A Última Ceia é o momento em que Jesus institui a Eucaristia. O Catecismo ensina que Jesus escolheu o tempo da Páscoa para cumprir o que havia anunciado em Cafarnaum: dar aos discípulos o seu corpo e o seu sangue (CIC n. 1339). Porque é o memorial da Páscoa de Cristo, a Eucaristia é também sacrifício (CIC n. 1365): o corpo entregue e o sangue derramado se tornam presentes no altar. A Igreja crê na presença real de Cristo no pão e no vinho consagrados; veja a Eucaristia, presença real de Cristo e o que é a transubstanciação. A Igreja vê também na Última Ceia a instituição do sacerdócio, celebrada na Quinta-feira Santa.

O Getsêmani revela a verdadeira humanidade de Jesus, que sente angústia, e a sua obediência filial ao Pai. A tradição da Igreja vê ali a vontade humana de Jesus plenamente unida à vontade divina. A agonia é o primeiro dos mistérios dolorosos do Rosário. As lágrimas de Pedro mostram o caminho do arrependimento, que leva ao perdão. O relato da paixão segundo Mateus, que começa neste capítulo, é proclamado no Domingo de Ramos do Ano A; veja o Tríduo Pascal.

Reflexão para hoje

A mulher de Betânia gasta tudo num gesto de amor, e os discípulos chamam isso de desperdício. O amor a Deus às vezes parece exagerado aos olhos do mundo: o tempo da adoração, a Missa durante a semana, a generosidade com a Igreja. Jesus defende esse amor.

No Getsêmani, Jesus nos ensina a rezar na angústia. Ele não esconde o medo, pede que o cálice passe, mas se entrega: seja feita a tua vontade. Quando enfrentamos uma doença, uma perda, um medo do futuro, podemos rezar com essas mesmas palavras. E Ele nos pede companhia: vigiai comigo.

Judas e Pedro traem o Mestre na mesma noite. A diferença está no que fazem depois. Pedro chora e volta. A queda não é o fim da história quando o coração se deixa encontrar pela misericórdia.

Para rezar com Mateus 26

  • Como recebo Jesus na Eucaristia: com fé, preparação e gratidão?
  • Que cálice difícil preciso entregar ao Pai dizendo seja feita a tua vontade?
  • Em que momento eu nego Jesus por medo, e como posso voltar a Ele como Pedro?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, que na noite em que foste entregue nos deixaste o teu corpo e o teu sangue, aumenta a minha fé na Eucaristia. Ensina-me a vigiar e orar contigo nas horas de angústia, e a dizer ao Pai: seja feita a tua vontade. E quando eu cair, olha para mim como olhaste para Pedro, e dá-me lágrimas de verdadeiro arrependimento. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1339 e 1365.

Perguntas sobre Mateus 26

Onde está a instituição da Eucaristia em Mateus 26?

Nos versículos 26 a 29, durante a Última Ceia. Jesus toma o pão e diz que é o seu corpo, e toma o cálice e diz que é o seu sangue da aliança, derramado por muitos para a remissão dos pecados.

O que Jesus rezou no Getsêmani?

Jesus pediu ao Pai que, se possível, afastasse dele o cálice do sofrimento, mas concluiu que não fosse feita a sua vontade, e sim a do Pai. É um modelo de oração confiante na angústia.

Por quanto Judas traiu Jesus?

Por trinta moedas de prata, combinadas com os chefes dos sacerdotes. O valor lembra a profecia de Zacarias e era o preço de um escravo segundo a Lei.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.