Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
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Mateus

Mateus 27: a crucificação e a morte de Jesus

Leia Mateus 27 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Mateus, idoso e de barba branca, recebe o Evangelho de um anjo que aponta o livro, pintura de Guercino
Guercino, São Mateus e o Anjo, 1622. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Mateus 27 narra o julgamento de Jesus diante de Pôncio Pilatos, o fim de Judas, a escolha de Barrabás, a flagelação, a coroação de espinhos, a crucificação no Calvário, a morte de Jesus e o seu sepultamento. É o centro do mistério da redenção: o Filho de Deus entrega a vida na cruz pela salvação do mundo.

Contexto de Mateus 27

O capítulo continua o relato da paixão iniciado em Mateus 26. Depois de condenado pelo Sinédrio, Jesus precisa ser levado ao governador romano, porque, sob o domínio de Roma, as autoridades judaicas não podiam executar uma sentença de morte. Pôncio Pilatos governou a Judeia por volta dos anos 26 a 36. A crucificação era a pena romana mais cruel e humilhante, reservada a escravos e rebeldes. Mateus mostra em cada detalhe o cumprimento das Escrituras, sobretudo do Salmo 22.

Explicação de Mateus 27

Versículos 1 e 2: Jesus entregue a Pilatos

De manhã, os chefes dos sacerdotes e os anciãos tomam a decisão de levar Jesus à morte. Amarram-no e o entregam a Pilatos.

Versículos 3 a 10: o fim de Judas

Judas, vendo que Jesus foi condenado, sente remorso e devolve as trinta moedas, dizendo que pecou entregando sangue inocente. Os chefes respondem com frieza: isso é problema teu. Judas joga as moedas no santuário, sai e se enforca. Com esse preço de sangue, os sacerdotes compram o campo do oleiro para sepultar estrangeiros, chamado depois campo de sangue. Mateus vê nisso o cumprimento de uma profecia que atribui a Jeremias, embora as trinta moedas lançadas ao oleiro estejam em Zacarias (Zc 11,12-13). A explicação mais aceita é que Mateus une Zacarias a passagens de Jeremias sobre o oleiro, o vale de Ben-Enom e a compra de um campo (Jr 18 e 19; Jr 32,6-15) e cita pelo nome do profeta mais conhecido, como Marcos faz com Isaías ao juntar dois textos (Mc 1,2-3). O remorso de Judas não se transformou em confiança na misericórdia, ao contrário das lágrimas de Pedro.

Versículos 11 a 14: o interrogatório de Pilatos

Pilatos pergunta: és tu o rei dos judeus? Para Roma, era acusação de rebelião. Jesus responde: tu o dizes. Diante das acusações dos chefes, Ele se cala, a ponto de o governador ficar muito impressionado.

Versículos 15 a 26: Barrabás e a condenação

Havia o costume de soltar um prisioneiro escolhido pelo povo na festa. Pilatos propõe Barrabás, um preso famoso, ou Jesus, chamado Cristo, pois sabia que o tinham entregado por inveja. Sua mulher manda dizer-lhe que não se envolva com esse justo, porque sofreu muito em sonho por causa dele. Os chefes persuadem a multidão a pedir Barrabás. Pilatos pergunta o que fazer com Jesus, e todos gritam: seja crucificado!

Vendo que nada consegue e que o tumulto cresce, Pilatos lava as mãos diante da multidão e se declara inocente do sangue desse homem. Era um gesto conhecido de quem se declarava sem culpa (Dt 21,6-7). O povo ali reunido responde que o sangue dele caia sobre eles e sobre seus filhos. Pilatos solta Barrabás, manda flagelar Jesus e o entrega para ser crucificado. A Igreja ensina que esta frase não pode ser usada contra os judeus: a declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, afirma que a morte de Cristo não pode ser imputada indistintamente a todos os judeus daquele tempo, nem aos judeus de hoje, ensinamento retomado pelo Catecismo (CIC n. 597). A fé cristã lê o sangue de Jesus como sangue que salva, que fala melhor do que o sangue de Abel (Hb 12,24), derramado para a remissão dos pecados de todos.

Versículos 27 a 31: a coroação de espinhos

Os soldados levam Jesus ao pretório, reúnem toda a tropa, tiram-lhe a roupa e o vestem com um manto vermelho, como se fosse púrpura real. Trançam uma coroa de espinhos, colocam-lhe na cabeça e uma vara na mão direita, como cetro. Ajoelham-se zombando: salve, rei dos judeus! Cospem nele e batem na sua cabeça. Sem saber, proclamam a verdade: Ele é Rei.

Versículos 32 a 44: a crucificação

Ao saírem, encontram Simão, de Cirene, cidade do norte da África, e o obrigam a carregar a cruz de Jesus. Chegam ao Gólgota, nome aramaico que significa lugar da caveira; Calvário vem da tradução latina. Dão a Jesus vinho misturado com fel, mas Ele prova e não quer beber. Depois de crucificá-lo, os soldados repartem as suas vestes tirando a sorte, como no Salmo 22,19. Sobre a cabeça colocam o motivo da condenação: Este é Jesus, o Rei dos Judeus; veja o que significa INRI na cruz. Com Ele são crucificados dois bandidos, um à direita e outro à esquerda.

Os que passam o insultam, balançando a cabeça, como descreve o Salmo 22,8: tu que destróis o Templo, salva-te a ti mesmo, desce da cruz! Os chefes zombam: salvou os outros e não pode salvar a si mesmo; confiou em Deus, que Deus o livre agora (Sl 22,9). Até os bandidos o insultam. A tentação é a mesma do deserto (Mateus 4): se és Filho de Deus, prova. Jesus permanece na cruz justamente porque é o Filho obediente.

Versículos 45 a 56: a morte de Jesus

Do meio-dia às três da tarde, as trevas cobrem toda a terra. Por volta das três horas, Jesus grita em alta voz: “Eli, Eli, lemá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). São as primeiras palavras do Salmo 22, uma oração que começa no abandono e termina na confiança e no louvor a Deus. Alguns pensam que Ele chama Elias, e um deles lhe oferece vinagre numa esponja. Jesus dá de novo um forte grito e entrega o espírito.

Nesse momento, a cortina do santuário se rasga de alto a baixo. Era o véu que separava o Santo dos Santos, o lugar mais sagrado do Templo: o acesso a Deus agora está aberto. A terra treme, as rochas se partem, túmulos se abrem e muitos santos ressuscitam, aparecendo depois da ressurreição de Jesus. O centurião e os soldados, cheios de medo, dizem: verdadeiramente este era Filho de Deus! São pagãos que, diante da cruz, fazem essa profissão de fé. Muitas mulheres olham de longe; elas tinham seguido Jesus desde a Galileia, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

Versículos 57 a 61: o sepultamento

Ao entardecer, José de Arimateia, homem rico e discípulo de Jesus, pede o corpo a Pilatos, que o concede. José envolve o corpo num lençol limpo, coloca-o no seu túmulo novo, escavado na rocha, e rola uma grande pedra para fechar a entrada. Maria Madalena e a outra Maria ficam ali, sentadas diante do sepulcro.

Versículos 62 a 66: a guarda do sepulcro

No dia seguinte, os chefes lembram a Pilatos que Jesus anunciou ressuscitar ao terceiro dia e pedem guarda, para que o corpo não seja roubado. Pilatos lhes dá uma guarda, e eles lacram a pedra. Sem querer, preparam testemunhas do sepulcro vazio.

O que Mateus 27 ensina para a fé católica?

A Igreja professa no Credo que Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. A morte de Cristo é o sacrifício que nos reconcilia com Deus: Ele entrega a vida em resgate por muitos, como anunciou em Mateus 20. A Igreja ensina que todos os pecadores foram, de certo modo, autores da paixão (CIC n. 598), e por isso cada cristão contempla a cruz com arrependimento e gratidão, nunca com acusação contra um povo.

O grito do Salmo 22 mostra que Jesus assumiu até o fundo a experiência humana do abandono, sem deixar de confiar no Pai. A cortina rasgada indica que, pela cruz, temos livre acesso a Deus (Hb 10,19-20). A Igreja revive estes acontecimentos na Sexta-feira Santa e na Via-Sacra, e eles formam os últimos mistérios dolorosos do Rosário. A presença das mulheres ao pé da cruz é lembrada como fidelidade que permanece quando os outros fogem.

Reflexão para hoje

No capítulo 27, muitos personagens fogem da responsabilidade. Judas se desespera, os chefes dizem que não é problema deles, Pilatos lava as mãos. Também nós lavamos as mãos diante de injustiças no trabalho ou na família.

Simão de Cirene foi obrigado a carregar a cruz, e acabou ajudando o próprio Salvador. Muitas cruzes chegam sem que as escolhamos: um parente doente, uma perda, um problema que caiu no nosso colo. Carregadas com Jesus, elas se tornam participação na sua obra.

E o grito de Jesus nos ensina a rezar na escuridão. Ele não fingiu que estava tudo bem. Rezou com um salmo que começa na dor e termina na esperança. Quem se sente abandonado por Deus pode usar as mesmas palavras e saber que Jesus esteve ali primeiro.

Para rezar com Mateus 27

  • Em que situação eu tenho lavado as mãos diante do sofrimento de alguém?
  • Que cruz chegou à minha vida sem que eu escolhesse, e como posso carregá-la com Jesus?
  • Diante da cruz, consigo dizer com o centurião: verdadeiramente este é o Filho de Deus?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus crucificado, que entregaste a vida por mim, eu te adoro e te agradeço. Perdoa as vezes em que lavei as mãos e fugi da cruz. Dá-me a coragem de Simão de Cirene e a fidelidade das mulheres que ficaram junto de ti. E nas horas de escuridão, ensina-me a gritar ao Pai com confiança. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 597 e 598; Concílio Vaticano II, Declaração Nostra Aetate; Credo Apostólico.

Perguntas sobre Mateus 27

Por que Jesus disse meu Deus, por que me abandonaste?

Jesus rezou as primeiras palavras do Salmo 22, que começa com um grito de abandono e termina com confiança e louvor. Ele assumiu a dor humana até o fim, sem deixar de confiar no Pai.

O que significa o véu do Templo rasgado?

A cortina separava o Santo dos Santos, lugar da presença de Deus. Rasgada de alto a baixo na morte de Jesus, ela indica que, pela cruz, o acesso a Deus foi aberto a todos.

Os judeus são culpados pela morte de Jesus?

Não. A Igreja ensina, na declaração Nostra Aetate, que a morte de Cristo não pode ser imputada a todos os judeus daquele tempo nem aos de hoje. A fé ensina que Jesus morreu pelos pecados de todos.

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