Mateus 27 narra o julgamento de Jesus diante de Pôncio Pilatos, o fim de Judas, a escolha de Barrabás, a flagelação, a coroação de espinhos, a crucificação no Calvário, a morte de Jesus e o seu sepultamento. É o centro do mistério da redenção: o Filho de Deus entrega a vida na cruz pela salvação do mundo.
Contexto de Mateus 27
O capítulo continua o relato da paixão iniciado em Mateus 26. Depois de condenado pelo Sinédrio, Jesus precisa ser levado ao governador romano, porque, sob o domínio de Roma, as autoridades judaicas não podiam executar uma sentença de morte. Pôncio Pilatos governou a Judeia por volta dos anos 26 a 36. A crucificação era a pena romana mais cruel e humilhante, reservada a escravos e rebeldes. Mateus mostra em cada detalhe o cumprimento das Escrituras, sobretudo do Salmo 22.
Explicação de Mateus 27
Versículos 1 e 2: Jesus entregue a Pilatos
De manhã, os chefes dos sacerdotes e os anciãos tomam a decisão de levar Jesus à morte. Amarram-no e o entregam a Pilatos.
Versículos 3 a 10: o fim de Judas
Judas, vendo que Jesus foi condenado, sente remorso e devolve as trinta moedas, dizendo que pecou entregando sangue inocente. Os chefes respondem com frieza: isso é problema teu. Judas joga as moedas no santuário, sai e se enforca. Com esse preço de sangue, os sacerdotes compram o campo do oleiro para sepultar estrangeiros, chamado depois campo de sangue. Mateus vê nisso o cumprimento de uma profecia que atribui a Jeremias, embora as trinta moedas lançadas ao oleiro estejam em Zacarias (Zc 11,12-13). A explicação mais aceita é que Mateus une Zacarias a passagens de Jeremias sobre o oleiro, o vale de Ben-Enom e a compra de um campo (Jr 18 e 19; Jr 32,6-15) e cita pelo nome do profeta mais conhecido, como Marcos faz com Isaías ao juntar dois textos (Mc 1,2-3). O remorso de Judas não se transformou em confiança na misericórdia, ao contrário das lágrimas de Pedro.
Versículos 11 a 14: o interrogatório de Pilatos
Pilatos pergunta: és tu o rei dos judeus? Para Roma, era acusação de rebelião. Jesus responde: tu o dizes. Diante das acusações dos chefes, Ele se cala, a ponto de o governador ficar muito impressionado.
Versículos 15 a 26: Barrabás e a condenação
Havia o costume de soltar um prisioneiro escolhido pelo povo na festa. Pilatos propõe Barrabás, um preso famoso, ou Jesus, chamado Cristo, pois sabia que o tinham entregado por inveja. Sua mulher manda dizer-lhe que não se envolva com esse justo, porque sofreu muito em sonho por causa dele. Os chefes persuadem a multidão a pedir Barrabás. Pilatos pergunta o que fazer com Jesus, e todos gritam: seja crucificado!
Vendo que nada consegue e que o tumulto cresce, Pilatos lava as mãos diante da multidão e se declara inocente do sangue desse homem. Era um gesto conhecido de quem se declarava sem culpa (Dt 21,6-7). O povo ali reunido responde que o sangue dele caia sobre eles e sobre seus filhos. Pilatos solta Barrabás, manda flagelar Jesus e o entrega para ser crucificado. A Igreja ensina que esta frase não pode ser usada contra os judeus: a declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, afirma que a morte de Cristo não pode ser imputada indistintamente a todos os judeus daquele tempo, nem aos judeus de hoje, ensinamento retomado pelo Catecismo (CIC n. 597). A fé cristã lê o sangue de Jesus como sangue que salva, que fala melhor do que o sangue de Abel (Hb 12,24), derramado para a remissão dos pecados de todos.
Versículos 27 a 31: a coroação de espinhos
Os soldados levam Jesus ao pretório, reúnem toda a tropa, tiram-lhe a roupa e o vestem com um manto vermelho, como se fosse púrpura real. Trançam uma coroa de espinhos, colocam-lhe na cabeça e uma vara na mão direita, como cetro. Ajoelham-se zombando: salve, rei dos judeus! Cospem nele e batem na sua cabeça. Sem saber, proclamam a verdade: Ele é Rei.
Versículos 32 a 44: a crucificação
Ao saírem, encontram Simão, de Cirene, cidade do norte da África, e o obrigam a carregar a cruz de Jesus. Chegam ao Gólgota, nome aramaico que significa lugar da caveira; Calvário vem da tradução latina. Dão a Jesus vinho misturado com fel, mas Ele prova e não quer beber. Depois de crucificá-lo, os soldados repartem as suas vestes tirando a sorte, como no Salmo 22,19. Sobre a cabeça colocam o motivo da condenação: Este é Jesus, o Rei dos Judeus; veja o que significa INRI na cruz. Com Ele são crucificados dois bandidos, um à direita e outro à esquerda.
Os que passam o insultam, balançando a cabeça, como descreve o Salmo 22,8: tu que destróis o Templo, salva-te a ti mesmo, desce da cruz! Os chefes zombam: salvou os outros e não pode salvar a si mesmo; confiou em Deus, que Deus o livre agora (Sl 22,9). Até os bandidos o insultam. A tentação é a mesma do deserto (Mateus 4): se és Filho de Deus, prova. Jesus permanece na cruz justamente porque é o Filho obediente.
Versículos 45 a 56: a morte de Jesus
Do meio-dia às três da tarde, as trevas cobrem toda a terra. Por volta das três horas, Jesus grita em alta voz: “Eli, Eli, lemá sabactâni?”, que quer dizer: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46). São as primeiras palavras do Salmo 22, uma oração que começa no abandono e termina na confiança e no louvor a Deus. Alguns pensam que Ele chama Elias, e um deles lhe oferece vinagre numa esponja. Jesus dá de novo um forte grito e entrega o espírito.
Nesse momento, a cortina do santuário se rasga de alto a baixo. Era o véu que separava o Santo dos Santos, o lugar mais sagrado do Templo: o acesso a Deus agora está aberto. A terra treme, as rochas se partem, túmulos se abrem e muitos santos ressuscitam, aparecendo depois da ressurreição de Jesus. O centurião e os soldados, cheios de medo, dizem: verdadeiramente este era Filho de Deus! São pagãos que, diante da cruz, fazem essa profissão de fé. Muitas mulheres olham de longe; elas tinham seguido Jesus desde a Galileia, entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.
Versículos 57 a 61: o sepultamento
Ao entardecer, José de Arimateia, homem rico e discípulo de Jesus, pede o corpo a Pilatos, que o concede. José envolve o corpo num lençol limpo, coloca-o no seu túmulo novo, escavado na rocha, e rola uma grande pedra para fechar a entrada. Maria Madalena e a outra Maria ficam ali, sentadas diante do sepulcro.
Versículos 62 a 66: a guarda do sepulcro
No dia seguinte, os chefes lembram a Pilatos que Jesus anunciou ressuscitar ao terceiro dia e pedem guarda, para que o corpo não seja roubado. Pilatos lhes dá uma guarda, e eles lacram a pedra. Sem querer, preparam testemunhas do sepulcro vazio.
O que Mateus 27 ensina para a fé católica?
A Igreja professa no Credo que Jesus padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. A morte de Cristo é o sacrifício que nos reconcilia com Deus: Ele entrega a vida em resgate por muitos, como anunciou em Mateus 20. A Igreja ensina que todos os pecadores foram, de certo modo, autores da paixão (CIC n. 598), e por isso cada cristão contempla a cruz com arrependimento e gratidão, nunca com acusação contra um povo.
O grito do Salmo 22 mostra que Jesus assumiu até o fundo a experiência humana do abandono, sem deixar de confiar no Pai. A cortina rasgada indica que, pela cruz, temos livre acesso a Deus (Hb 10,19-20). A Igreja revive estes acontecimentos na Sexta-feira Santa e na Via-Sacra, e eles formam os últimos mistérios dolorosos do Rosário. A presença das mulheres ao pé da cruz é lembrada como fidelidade que permanece quando os outros fogem.
Reflexão para hoje
No capítulo 27, muitos personagens fogem da responsabilidade. Judas se desespera, os chefes dizem que não é problema deles, Pilatos lava as mãos. Também nós lavamos as mãos diante de injustiças no trabalho ou na família.
Simão de Cirene foi obrigado a carregar a cruz, e acabou ajudando o próprio Salvador. Muitas cruzes chegam sem que as escolhamos: um parente doente, uma perda, um problema que caiu no nosso colo. Carregadas com Jesus, elas se tornam participação na sua obra.
E o grito de Jesus nos ensina a rezar na escuridão. Ele não fingiu que estava tudo bem. Rezou com um salmo que começa na dor e termina na esperança. Quem se sente abandonado por Deus pode usar as mesmas palavras e saber que Jesus esteve ali primeiro.
Para rezar com Mateus 27
- Em que situação eu tenho lavado as mãos diante do sofrimento de alguém?
- Que cruz chegou à minha vida sem que eu escolhesse, e como posso carregá-la com Jesus?
- Diante da cruz, consigo dizer com o centurião: verdadeiramente este é o Filho de Deus?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus crucificado, que entregaste a vida por mim, eu te adoro e te agradeço. Perdoa as vezes em que lavei as mãos e fugi da cruz. Dá-me a coragem de Simão de Cirene e a fidelidade das mulheres que ficaram junto de ti. E nas horas de escuridão, ensina-me a gritar ao Pai com confiança. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 597 e 598; Concílio Vaticano II, Declaração Nostra Aetate; Credo Apostólico.
Perguntas sobre Mateus 27
Por que Jesus disse meu Deus, por que me abandonaste?
O que significa o véu do Templo rasgado?
Os judeus são culpados pela morte de Jesus?
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