Mateus 4 narra as três tentações de Jesus no deserto, depois de quarenta dias de jejum, e o início de sua missão na Galileia. Jesus vence o diabo respondendo com a Palavra de Deus, passa a morar em Cafarnaum, chama os primeiros discípulos (Pedro, André, Tiago e João) e percorre a região ensinando, anunciando o Reino e curando doentes.
Contexto de Mateus 4
O capítulo segue imediatamente o batismo. A voz do Pai acabou de declarar Jesus Filho amado, e agora o tentador vai justamente questionar essa identidade: se és Filho de Deus. Mateus apresenta Jesus como o novo Israel. O povo foi chamado filho de Deus, passou pelas águas do Mar Vermelho e ficou quarenta anos no deserto, onde caiu em tentação muitas vezes. Jesus, depois das águas do Jordão, passa quarenta dias no deserto e permanece fiel. As três respostas que Ele dá vêm do livro do Deuteronômio, justamente dos capítulos que recordam a provação de Israel no deserto.
Explicação de Mateus 4
Versículos 1 e 2: conduzido pelo Espírito ao deserto
É o próprio Espírito que leva Jesus ao deserto para ser tentado. A tentação não é sinal de abandono de Deus; faz parte da missão. Jesus jejua quarenta dias e quarenta noites, como Moisés no Sinai (Ex 34,28) e Elias a caminho do Horeb (1Rs 19,8). O número quarenta, na Bíblia, indica um tempo completo de preparação e prova. No fim, Ele tem fome: Mateus sublinha a humanidade real de Jesus.
Versículos 3 e 4: a tentação do pão
O tentador propõe: se és Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães. A proposta é usar o poder de Filho para si mesmo, resolver a própria necessidade fora do caminho do Pai. Jesus responde com Deuteronômio 8,3: “Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). No deserto, Israel reclamou da comida e duvidou de Deus. Jesus confia. O pão é necessário, mas a vida humana não se resume ao que se come.
Versículos 5 a 7: a tentação do espetáculo
O diabo leva Jesus ao ponto mais alto do Templo, em Jerusalém, e sugere que Ele se atire, citando o Salmo 91, que promete a proteção dos anjos. O tentador também sabe usar a Escritura, mas fora do seu sentido. A proposta é obrigar Deus a provar seu cuidado com um gesto espetacular, que impressionaria as multidões no Templo. Jesus responde com Deuteronômio 6,16: não tentarás o Senhor teu Deus. Em Massa, no deserto, o povo exigiu um sinal perguntando se Deus estava ou não no meio deles (Ex 17,7). Confiar não é colocar Deus à prova.
Versículos 8 a 11: a tentação do poder
Do alto de um monte, o diabo mostra todos os reinos do mundo e promete entregá-los a Jesus se Ele se prostrar e o adorar. É a tentação de um messianismo político, de chegar ao poder sem a cruz. Jesus responde com firmeza: vai-te, Satanás, e cita Deuteronômio 6,13: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele prestarás culto. Ironia de Mateus: no fim do Evangelho, também num monte, Jesus ressuscitado dirá que recebeu todo poder no céu e na terra (Mt 28,18), mas pelo caminho da obediência. O diabo se afasta, e os anjos vêm servir a Jesus.
Versículos 12 a 17: a luz na Galileia
Quando João é preso, Jesus se retira para a Galileia. Deixa Nazaré e vai morar em Cafarnaum, cidade junto ao lago, no território das antigas tribos de Zabulon e Neftali. Mateus vê nisso o cumprimento de Isaías 8,23 a 9,1: o povo que estava nas trevas viu uma grande luz. Essa região, no norte, foi a primeira a ser invadida pelos assírios séculos antes e tinha população mista, por isso era chamada Galileia dos gentios. É ali, na periferia, que a luz começa a brilhar. Jesus assume a mesma pregação de João: convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo.
Versículos 18 a 22: o chamado dos primeiros discípulos
Caminhando à beira do mar da Galileia, que na verdade é um grande lago de água doce, Jesus vê dois irmãos, Simão, chamado Pedro, e André, lançando a rede. Diz a eles: segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens. Logo depois chama outros dois irmãos, Tiago e João, filhos de Zebedeu, que consertavam as redes com o pai no barco. Os quatro deixam tudo imediatamente.
Dois detalhes chamam atenção. Primeiro, é Jesus quem toma a iniciativa: na época, em geral era o discípulo que procurava um mestre; aqui, o mestre chama. Segundo, a resposta é imediata e envolve deixar trabalho, barco e família. Jesus não promete vantagens, mas uma missão.
Versículos 23 a 25: ensinar, anunciar, curar
O capítulo termina com um resumo do ministério de Jesus: Ele percorre a Galileia ensinando nas sinagogas, anunciando o Evangelho do Reino e curando toda doença e enfermidade. Sua fama se espalha pela Síria, e o seguem multidões da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia e do outro lado do Jordão. Esse resumo prepara o Sermão da Montanha, que começa no capítulo 5. Mateus repetirá quase as mesmas palavras em 9,35, formando uma moldura em torno das palavras e obras de Jesus.
O que Mateus 4 ensina para a fé católica?
A Igreja proclama Mateus 4,1-11 no primeiro domingo da Quaresma do Ano A. Os quarenta dias quaresmais se inspiram nos quarenta dias de Jesus no deserto. O Catecismo afirma que os evangelhos falam de um tempo de solidão que Jesus passou no deserto, logo depois do batismo (CIC n. 538), e que a tentação de Jesus manifesta a maneira própria de o Filho de Deus ser Messias, ao contrário da que lhe propõe Satanás (CIC n. 540).
Daí vêm alguns ensinamentos. Jesus foi tentado de verdade, mas sem pecado, e por isso pode compreender nossas fraquezas (Hb 4,15). A tentação em si não é pecado; o pecado está em consentir. E a força para vencer vem da Palavra de Deus, da oração e do jejum, as armas que a Igreja propõe na Quaresma. Sobre a ação do demônio, a Igreja ensina com sobriedade: ele existe e tenta, mas não tem poder sobre quem permanece unido a Cristo. Veja anjos e demônios na doutrina católica. O chamado dos discípulos, por sua vez, mostra que Jesus quis associar pessoas à sua missão, origem dos Doze e da Igreja; leia mais sobre São Pedro e Santo André.
Reflexão para hoje
As três tentações continuam sendo as nossas. A do pão é viver só para as necessidades imediatas, achando que a vida se resolve com dinheiro, conforto e consumo. A do espetáculo é querer uma fé de sinais extraordinários, ou exigir que Deus prove seu amor do jeito que nós decidimos. A do poder é conseguir o que se quer a qualquer preço, dobrando os joelhos diante do que não é Deus: sucesso, aprovação, influência.
Jesus não vence com discursos próprios nem com força. Vence com a Palavra de Deus que conhecia e rezava. Quem lê a Bíblia com frequência tem uma resposta pronta na hora da prova. Se você está começando, veja como começar a ler a Bíblia.
O chamado dos pescadores também fala ao nosso cotidiano. Jesus os encontra no trabalho, entre redes e barcos. Ele continua chamando no meio da rotina, e a resposta, mesmo que não signifique largar a profissão, sempre significa colocar Jesus acima de tudo.
Para rezar com Mateus 4
- Qual das três tentações mais me atinge hoje: a do conforto, a da fé de espetáculo ou a do poder?
- Que palavra da Escritura eu posso guardar para os momentos de tentação?
- O que me impede de responder ao chamado de Jesus com a prontidão dos primeiros discípulos?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, que venceste o tentador no deserto, fica comigo nas minhas provações. Ensina-me a viver da Tua Palavra, a confiar sem exigir sinais e a adorar somente a Deus. Como chamaste Pedro e André no meio do trabalho, chama-me também, e dá-me coragem para Te seguir. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 538 e 540.
Perguntas sobre Mateus 4
Quais são as três tentações de Jesus?
Jesus podia pecar ao ser tentado?
Por que a Quaresma tem quarenta dias?
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