Mateus 3 apresenta João Batista pregando a conversão no deserto da Judeia e batizando no rio Jordão. Depois narra o batismo de Jesus: ao sair da água, o Espírito desce sobre Ele como pomba e a voz do Pai o declara Filho amado. É o início da vida pública de Jesus e uma das cenas mais claras da Santíssima Trindade no Evangelho.
Contexto de Mateus 3
Entre o capítulo 2 e o capítulo 3 passam cerca de trinta anos, sobre os quais Mateus não diz nada. Jesus agora é adulto. João Batista surge como profeta depois de um longo período em que Israel sentia falta de profetas. O deserto e o Jordão evocam a história do povo: no deserto Deus formou Israel, e pelo Jordão o povo entrou na Terra Prometida. Voltar a esses lugares era como recomeçar a história com Deus.
Na época, havia vários grupos religiosos no judaísmo. Mateus menciona dois: os fariseus, conhecidos pelo cuidado com a Lei e as tradições, e os saduceus, ligados à aristocracia sacerdotal do Templo.
Explicação de Mateus 3
Versículos 1 a 3: a voz no deserto
João prega uma mensagem curta: convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo. Mateus costuma dizer Reino dos Céus em vez de Reino de Deus, seguindo o costume judaico de evitar pronunciar o nome divino. A palavra conversão, no grego, indica uma mudança de mentalidade; na tradição bíblica, é voltar para Deus. Mateus aplica a João a profecia de Isaías 40,3: uma voz que clama no deserto para preparar o caminho do Senhor. No texto de Isaías, o caminho era o do retorno do exílio; agora é a chegada do próprio Senhor.
Versículos 4 a 6: o estilo de vida de João
João veste roupa de pelos de camelo e um cinto de couro. É quase a mesma descrição do profeta Elias em 2Reis 1,8. Mateus dá a entender que João é o Elias que devia voltar antes do dia do Senhor, conforme Malaquias; o próprio Jesus dirá isso mais adiante (Mt 11,14). Ele se alimenta de gafanhotos e mel silvestre, comida do deserto, permitida pela Lei (Lv 11,22). Multidões vêm de Jerusalém e de toda a região, confessam seus pecados e são batizadas no Jordão. O batismo de João era um sinal de arrependimento, não ainda o sacramento cristão.
Versículos 7 a 10: a advertência aos fariseus e saduceus
Ao ver muitos fariseus e saduceus chegando, João usa palavras duras: raça de víboras. Ele denuncia a falsa segurança de quem pensa estar salvo só por ser descendente de Abraão. Deus pode fazer surgir filhos de Abraão até das pedras. O que importa são frutos de conversão. A imagem do machado na raiz das árvores indica urgência: o juízo está perto, e a árvore sem fruto será cortada. João não fala contra um povo, mas contra a religião de aparência, tentação de todos os tempos.
Versículos 11 e 12: aquele que vem depois
João se coloca em segundo plano. Ele batiza com água para a conversão, mas virá alguém mais forte, de quem não é digno sequer de carregar as sandálias, tarefa de escravo. Esse batizará com o Espírito Santo e com fogo. O fogo, na Bíblia, purifica e também julga. A imagem da pá que separa o trigo da palha vem do trabalho na eira: jogava-se o grão para o alto, o vento levava a palha e o trigo caía no chão para ser recolhido.
Versículos 13 a 15: por que Jesus quis ser batizado
Jesus vem da Galileia para ser batizado por João. João tenta impedir: ele é quem precisa ser batizado por Jesus. A resposta de Jesus é a primeira fala dele no Evangelho de Mateus: convém que cumpramos toda a justiça. Justiça, em Mateus, é fazer plenamente a vontade de Deus. Jesus não tinha pecado, mas se coloca na fila dos pecadores, solidário com eles. O gesto antecipa a cruz, onde Ele assumirá o pecado do mundo sem ter cometido pecado.
Versículos 16 e 17: o céu se abre
Ao sair da água, os céus se abrem, sinal de que Deus volta a se comunicar com o seu povo (cf. Is 63,19). O Espírito de Deus desce como pomba e pousa sobre Jesus. A pomba pode lembrar o Espírito que pairava sobre as águas na criação (Gn 1,2) ou a pomba do dilúvio que anuncia uma terra nova (Gn 8,11). E uma voz do céu diz: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3,17). A frase une o Salmo 2,7, sobre o rei messiânico filho de Deus, e Isaías 42,1, sobre o Servo escolhido em quem Deus põe o seu Espírito. Jesus é ao mesmo tempo o Filho e o Servo que vai sofrer.
O que Mateus 3 ensina para a fé católica?
O batismo de Jesus é uma manifestação da Trindade: o Filho na água, o Espírito em forma de pomba, a voz do Pai. A Igreja celebra a festa do Batismo do Senhor no domingo depois da Epifania, encerrando o tempo do Natal; no Ano A, o Evangelho é este de Mateus 3,13-17.
O Catecismo ensina que o início da vida pública de Jesus é o seu batismo por João no Jordão (CIC n. 535) e que, da parte de Jesus, o batismo é a aceitação e a inauguração da sua missão de Servo sofredor (CIC n. 536). A Igreja vê ainda neste episódio uma ligação com o nosso batismo: em Cristo, também nós somos feitos filhos amados do Pai e recebemos o Espírito Santo. O batismo de João preparava; o batismo cristão realiza o que ele anunciava. Para entender melhor, veja o Batismo: significado, rito e graças e a vida de São João Batista, o precursor.
A pregação de João também tem lugar fixo na liturgia: ela marca o tempo do Advento, quando a Igreja ouve de novo o chamado a preparar o caminho do Senhor.
Reflexão para hoje
João não prega conversão para os outros enquanto vive confortavelmente. Ele mesmo vive com simplicidade e aponta para outro. Essa é uma boa medida para qualquer cristão que fala de Deus em casa, no trabalho ou na comunidade: a vida precisa sustentar as palavras, e o centro não somos nós, mas Cristo.
A crítica de João à falsa segurança continua atual. Ser batizado, ter família católica, ir à missa: tudo isso é dom, mas não substitui os frutos. A pergunta honesta é: que frutos de conversão aparecem na minha vida? Paciência com os filhos, honestidade no trabalho, tempo para os pobres, perdão a quem me feriu.
E há uma consolação enorme no batismo de Jesus. Antes de fazer qualquer milagre ou pregação, Jesus ouve do Pai que é amado. Pelo batismo, cada cristão recebe essa mesma palavra. Antes de qualquer resultado, você é filho amado de Deus. É a partir daí, e não para conquistar esse amor, que vivemos a conversão.
Para rezar com Mateus 3
- Que caminho na minha vida precisa ser endireitado para que o Senhor possa chegar?
- Em que área eu me apoio em aparências religiosas, sem frutos reais de conversão?
- Eu me lembro de que, pelo batismo, sou filho amado do Pai?
Sugestão de oração:
Pai do céu, no batismo de Jesus abriste os céus e mostraste o Teu amor. Renova em mim a graça do meu batismo. Dá-me a humildade de João Batista, para que eu diminua e Cristo cresça em mim. Que o Teu Espírito produza na minha vida frutos verdadeiros de conversão. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 535 e 536.
Perguntas sobre Mateus 3
Se Jesus não tinha pecado, por que foi batizado?
Qual a diferença entre o batismo de João e o batismo cristão?
O que significa a pomba no batismo de Jesus?
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