Mateus 2 conta a visita dos magos do Oriente ao menino Jesus em Belém, a reação violenta do rei Herodes, a fuga da Sagrada Família para o Egito, o massacre dos inocentes e o retorno para Nazaré. O capítulo mostra Jesus reconhecido pelos pagãos e rejeitado pelo poder, e já anuncia que sua vida será marcada pela perseguição e pela proteção de Deus.
Contexto de Mateus 2
O capítulo continua o Evangelho da infância iniciado em Mateus 1. O cenário é o fim do reinado de Herodes, o Grande, rei da Judeia sob o domínio de Roma. Herodes foi um governante hábil e construtor de grandes obras, inclusive a reforma do Templo de Jerusalém, mas também conhecido pela desconfiança e pela crueldade, chegando a mandar matar membros da própria família. Pela datação mais aceita, ele morreu por volta do ano 4 antes da nossa era, o que indica que Jesus nasceu alguns anos antes do que o calendário tradicional supõe.
Mateus organiza o capítulo em torno de lugares (Belém, Egito, Ramá, Nazaré) e, para cada um, aponta uma passagem do Antigo Testamento que se cumpre.
Explicação de Mateus 2
Versículos 1 e 2: os magos chegam a Jerusalém
Os magos vêm do Oriente. O texto não diz que eram reis nem que eram três. A palavra magos designava sábios ligados ao estudo dos astros, possivelmente da Pérsia ou da Babilônia. O número três foi deduzido mais tarde a partir dos três presentes, e a tradição popular lhes deu os nomes de Gaspar, Melquior e Baltasar. A imagem de reis vem da leitura cristã de salmos e profecias, como o Salmo 72 e Isaías 60, que falam de reis estrangeiros trazendo presentes.
Eles perguntam pelo rei dos judeus que acaba de nascer e falam de uma estrela. Muitos já tentaram identificá-la com um cometa ou uma conjunção de planetas; não há certeza, e o essencial é outro: Deus usa a linguagem que aqueles homens conheciam para conduzi-los até Cristo. Há também um eco do oráculo de Balaão, que falava de uma estrela que surge de Jacó (Nm 24,17).
Versículos 3 a 8: Herodes e os sacerdotes
Herodes fica perturbado, e com ele toda Jerusalém. Um rei que nasce ameaça o rei que governa. Ele reúne os sumos sacerdotes e os escribas, que sabem a resposta: o Messias nasceria em Belém, conforme o profeta Miqueias (Mq 5,1), combinado com uma palavra sobre Davi como pastor do povo (2Sm 5,2). Note o contraste: os estrangeiros caminham guiados por um sinal; os especialistas da Escritura sabem o endereço, mas não saem do lugar. Herodes, por sua vez, finge interesse religioso e esconde a intenção de matar.
Versículos 9 a 12: a adoração e os presentes
A estrela volta a guiá-los e para sobre o lugar onde estava o menino. Mateus fala de uma alegria muito grande. Ao entrar na casa, eles veem o menino com Maria, sua mãe, prostram-se e o adoram. Prostrar-se era o gesto reservado a reis e a Deus. Depois oferecem ouro, incenso e mirra.
A tradição cristã leu nesses presentes um sentido simbólico: o ouro para o rei, o incenso para Deus e a mirra, usada também para ungir os mortos, como anúncio da paixão e da sepultura de Jesus. Avisados em sonho, os magos voltam por outro caminho.
Versículos 13 a 15: a fuga para o Egito
Pela segunda vez, um anjo fala a José em sonho, e pela segunda vez ele obedece de imediato: levanta-se de noite, toma o menino e sua mãe e parte para o Egito. O Egito era refúgio conhecido para judeus em perigo, e havia ali comunidades judaicas numerosas. Mateus cita o profeta Oseias: do Egito chamei o meu filho (Os 11,1). Originalmente, a frase falava do povo de Israel saindo da escravidão. Mateus vê em Jesus a recapitulação da história de Israel: como o povo, ele desce ao Egito e de lá é chamado.
Versículos 16 a 18: os santos inocentes
Ao perceber que foi enganado, Herodes manda matar os meninos de Belém e arredores com até dois anos. Belém era um povoado pequeno, e o número de vítimas provavelmente não foi muito grande, o que explica que historiadores da época não o registrem; mas o episódio combina com o que se sabe do caráter de Herodes. Mateus cita Jeremias 31,15: Raquel, mãe das tribos, chora seus filhos e não quer ser consolada. A Igreja venera essas crianças como os Santos Inocentes, que deram a vida por Cristo sem saber, e celebra sua festa em 28 de dezembro.
Versículos 19 a 23: o retorno e Nazaré
Com a morte de Herodes, o anjo manda José voltar. Mas na Judeia reinava Arquelau, filho de Herodes, também temido. Avisado de novo em sonho, José se instala na Galileia, numa cidade chamada Nazaré. Mateus diz que assim se cumpriu o que fora dito pelos profetas: ele será chamado Nazareno. Não existe no Antigo Testamento uma frase exatamente assim, e por isso Mateus fala de profetas no plural. Muitos estudiosos veem aqui um jogo com a palavra hebraica nezer, rebento, usada em Isaías 11,1 para o descendente de Davi; outros lembram o nazireu, consagrado a Deus desde o ventre materno, como Sansão (Jz 13,5). A questão continua em debate. O ponto é que até a origem humilde de Nazaré entra no plano de Deus.
O que Mateus 2 ensina para a fé católica?
A visita dos magos é celebrada na solenidade da Epifania do Senhor, cujo Evangelho é justamente Mateus 2,1-12. O Catecismo explica que a Epifania é a manifestação de Jesus como Messias de Israel, Filho de Deus e salvador do mundo, e vê nos magos as primícias das nações que acolhem a Boa Nova (CIC n. 528). Cristo não veio só para um povo: a salvação é oferecida a todos.
O capítulo também ensina sobre a adoração. Os magos se prostram diante de uma criança pobre, numa casa simples. É a fé que reconhece Deus onde os olhos veem pouco, a mesma fé com que o católico se ajoelha diante da Eucaristia. E mostra a Sagrada Família como família migrante e perseguida, protegida pela obediência de José. A Igreja celebra a festa da Sagrada Família no tempo do Natal.
Reflexão para hoje
Os magos fizeram uma longa viagem com poucas certezas. Viram um sinal, se puseram a caminho e perguntaram quando ficaram perdidos. A fé muitas vezes é assim: não temos o mapa inteiro, mas damos o próximo passo. Quem busca Deus com sinceridade é conduzido, ainda que por caminhos que não imaginava.
Os escribas de Jerusalém, ao contrário, tinham a resposta na ponta da língua e não andaram oito quilômetros até Belém. É um alerta para quem conhece a doutrina, frequenta a igreja e sabe muitas coisas sobre Deus. Conhecer é bom, mas o conhecimento precisa nos levar a adorar e a mudar de vida.
Por fim, a Sagrada Família viveu o medo, a fuga e a vida de estrangeiro. Muitas famílias hoje passam por mudanças forçadas, desemprego, ameaças. Deus não poupou sua própria família dessas provas, mas esteve com ela em cada etapa. Ele também acompanha a nossa.
Para rezar com Mateus 2
- Que sinais Deus tem colocado no meu caminho para que eu me aproxime d'Ele?
- Que presente eu posso oferecer a Jesus hoje: meu tempo, meu trabalho, meus sofrimentos?
- Sei que algo é verdade, mas ainda não dei o passo de viver de acordo com isso?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, luz das nações, como os magos eu quero Te buscar e Te adorar. Guia meus passos quando eu não enxergar o caminho e livra meu coração do medo e da inveja que fecharam o coração de Herodes. Protege as famílias que sofrem perseguição e exílio, como protegeste a Tua. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 528.
Perguntas sobre Mateus 2
Quantos eram os reis magos?
O que significam o ouro, o incenso e a mirra?
Quem foram os santos inocentes?
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