Mateus 1 abre o Novo Testamento com duas partes: a genealogia de Jesus, de Abraão até José, e o relato de como Jesus nasceu de Maria por obra do Espírito Santo. Mateus quer mostrar logo de início quem é Jesus: o filho de Davi e de Abraão, o Messias esperado por Israel, e ao mesmo tempo o Deus conosco. José, homem justo, acolhe esse mistério pela fé.
Contexto de Mateus 1
O Evangelho de Mateus foi escrito em grego, com muitos traços de uma comunidade de origem judaica. A tradição da Igreja o atribui ao apóstolo Mateus, o cobrador de impostos chamado por Jesus (Mt 9,9); os estudiosos discutem a data e o modo como o texto chegou à forma atual, e não há consenso. O que é claro é a intenção do autor: mostrar que em Jesus se cumprem as promessas do Antigo Testamento. Por isso o primeiro capítulo começa com uma árvore genealógica, algo que para um leitor judeu era um documento de identidade.
Os capítulos 1 e 2 formam o chamado Evangelho da infância segundo Mateus. Diferente de Lucas, que conta os fatos a partir de Maria, Mateus narra do ponto de vista de José.
Explicação de Mateus 1
Versículo 1: o título do livro
O primeiro versículo funciona como título: livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. A palavra grega para origem lembra o livro do Gênesis, como se Mateus anunciasse um novo começo. Os dois nomes escolhidos não são acaso. Abraão é o pai do povo e recebeu a promessa de que nele seriam abençoadas todas as nações (Gn 12,3). Davi recebeu a promessa de um descendente cujo reino não teria fim (2Sm 7,12-16). Jesus é o herdeiro dessas duas promessas.
Versículos 2 a 17: a genealogia em três etapas
A lista desce de pai para filho em três blocos: de Abraão a Davi, de Davi ao exílio na Babilônia, do exílio até Cristo. No versículo 17, Mateus resume: quatorze gerações em cada etapa. É uma construção organizada para ser lembrada e para mostrar que a história tem um rumo guiado por Deus. Não se trata de uma lista completa ao estilo de um cartório moderno; alguns nomes conhecidos dos livros dos Reis ficam de fora. E, contando os nomes, a terceira série chega a treze, não a quatorze; desde a antiguidade se propõem modos diferentes de contar, sem solução única. O número tem sobretudo valor simbólico. Muitos estudiosos observam que, em hebraico, as letras do nome Davi somam quatorze, o que reforçaria o caráter messiânico do esquema, mas essa é uma hipótese, não uma certeza.
Chama atenção a presença de quatro mulheres, além de Maria: Tamar (Gn 38), Raab (Js 2), Rute e a mulher de Urias, isto é, Betsabeia (2Sm 11). Em listas desse tipo, era raro citar mulheres. Algumas eram estrangeiras e várias estão ligadas a histórias irregulares ou dolorosas. Mateus mostra que Deus conduz a salvação também por caminhos inesperados e por meio de pessoas que o mundo deixaria de lado. A lista também inclui reis fiéis e reis infiéis: a promessa de Deus não dependeu da santidade de cada geração.
Versículo 16: a mudança na fórmula
Ao longo de toda a lista se repete o verbo gerou: fulano gerou beltrano. No versículo 16, a fórmula muda. Mateus não diz que José gerou Jesus, mas que José era o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus. Essa pequena mudança prepara o leitor para o que vem a seguir. Pela lei e pelo costume, Jesus é filho de José e por isso herdeiro de Davi; mas sua concepção não vem de José.
Versículos 18 a 21: Maria grávida e o dilema de José
Maria estava prometida em casamento a José. No costume judaico da época, o casamento tinha duas etapas: primeiro o compromisso formal, que já os tornava marido e mulher diante da lei; depois, meses mais tarde, a ida da esposa para a casa do marido. Antes dessa segunda etapa, Maria aparece grávida por obra do Espírito Santo.
José é chamado de justo. Ele não quer expor Maria à vergonha pública e decide deixá-la em segredo. Muitos leem aqui a delicadeza de um homem que não entende o que está acontecendo, mas recusa ferir a esposa. Há também uma leitura antiga segundo a qual José, percebendo algo de divino, se sentia indigno de tomar parte nesse mistério. As duas leituras convergem num ponto: José age com retidão e caridade.
Então um anjo do Senhor fala a José em sonho. Pede que não tema receber Maria e explica a origem da criança. E dá a José uma missão: dar o nome ao menino. Dar o nome era o gesto do pai que assume legalmente o filho. O nome é Jesus, que em hebraico significa o Senhor salva, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados (Mt 1,21).
Versículos 22 e 23: o Emanuel
Mateus faz aqui a primeira de muitas citações de cumprimento: tudo isso aconteceu para que se cumprisse a palavra do profeta. Ele cita Isaías 7,14 na versão grega, que fala da virgem que concebe e dá à luz um filho chamado Emanuel, nome que Mateus traduz: Deus conosco. O Evangelho começa com essa promessa e termina com outra parecida, quando Jesus ressuscitado diz que estará com os discípulos todos os dias, até o fim do mundo (Mt 28,20). Toda a obra de Mateus está entre esses dois polos.
Versículos 24 e 25: a obediência de José
Ao despertar, José faz o que o anjo mandou e recebe Maria em sua casa. Ele não diz uma palavra em todo o Evangelho; fala por meio da obediência. O versículo 25 diz que ele não teve relações com ela até que ela deu à luz o filho, e que lhe deu o nome de Jesus. A expressão até que, na linguagem bíblica, afirma o que aconteceu até certo momento, sem dizer nada sobre o que veio depois. A Igreja sempre professou a virgindade real e perpétua de Maria (CIC n. 499), e esse versículo não diz o contrário.
O que Mateus 1 ensina para a fé católica?
O capítulo afirma duas verdades ao mesmo tempo. Jesus é verdadeiro homem, inserido numa família, num povo e numa história concreta, com antepassados santos e pecadores. E Jesus é o Filho de Deus, concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria. É o que rezamos no Credo.
O Catecismo ensina que as narrativas evangélicas entendem a conceição virginal como obra divina que ultrapassa toda a compreensão e as possibilidades humanas (CIC n. 497). A virgindade de Maria não é um detalhe biográfico: mostra que a salvação é iniciativa de Deus, não produto humano. Sobre o tema, veja também Maria na Bíblia.
A figura de José também ensina muito. A Igreja o venera como esposo de Maria e pai legal de Jesus, guardião da Sagrada Família, e o proclamou patrono da Igreja universal. Saiba mais em São José, patrono da Igreja. O trecho de Mateus 1,18-24 é proclamado no 4º Domingo do Advento do Ano A, às portas do Natal.
Reflexão para hoje
Muita gente pula a genealogia por achar que é só uma lista de nomes difíceis. Mas ela traz uma notícia boa: Deus entra numa família real, com histórias bonitas e outras que dariam vergonha. Sua família também tem as duas coisas. Nenhuma história é pesada demais para Deus escrever dentro dela uma história de salvação.
José, por sua vez, enfrenta um problema que não escolheu e que não entende. Ele não reage com raiva nem com exposição pública. Pensa, decide com delicadeza e, quando Deus fala, muda de rumo sem discutir. No trabalho, no casamento, na criação dos filhos, quantas vezes nos vemos diante de situações que fogem do nosso controle. O exemplo de José é este: agir com justiça e caridade, rezar e estar disposto a obedecer quando Deus mostrar o caminho.
Por fim, o nome Emanuel é uma promessa para os dias difíceis. Deus não está longe. Ele quis ser Deus conosco, e continua conosco na Palavra, na Eucaristia e na comunidade.
Para rezar com Mateus 1
- Que partes da história da minha família eu preciso entregar a Deus, confiando que Ele pode escrever coisas boas mesmo nas linhas tortas?
- Diante de uma situação que não entendo, eu reajo como José, com prudência e caridade, ou com pressa e julgamento?
- Em que momento do meu dia posso lembrar que Deus está comigo?
Sugestão de oração:
Senhor Jesus, Emanuel, Deus conosco, Tu quiseste nascer numa família humana e assumir a nossa história. Dá-me a fé obediente de São José e o coração disponível de Maria. Que eu Te acolha na minha casa e na minha vida, hoje e sempre. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 497 e 499.
Perguntas sobre Mateus 1
Por que a genealogia de Mateus é diferente da de Lucas?
Por que José queria deixar Maria em segredo?
O que significa o nome Emanuel?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.