1 Tessalonicenses 2 mostra o coração de Paulo como evangelizador. Ele recorda como anunciou o Evangelho em Tessalônica, sem interesse e sem lisonja, com o carinho de uma mãe e o cuidado de um pai. Agradece porque a comunidade acolheu a pregação como verdadeira Palavra de Deus e fala da saudade de revê-la.
Contexto de 1 Tessalonicenses 2
Tessalônica era a capital da província romana da Macedônia, um porto importante na Via Egnácia, a grande estrada que ligava o Oriente a Roma. Paulo chegou lá com Silas (Silvano) e Timóteo na sua segunda viagem missionária e fundou a comunidade, mas teve de fugir por causa da oposição, como contam os Atos dos Apóstolos (Atos 17). Preocupado, enviou Timóteo de Atenas para visitar os fiéis. Quando Timóteo voltou com boas notícias, Paulo escreveu esta carta, provavelmente de Corinto, por volta do ano 50 ou 51. Para a maioria dos estudiosos, é o escrito mais antigo do Novo Testamento.
Na época, muitos pregadores itinerantes andavam pelas cidades em busca de fama ou dinheiro. Depois da partida apressada de Paulo, talvez alguém tenha levantado suspeitas sobre ele. Por isso ele relembra, com detalhes, a forma como agiu entre os tessalonicenses.
Explicação de 1 Tessalonicenses 2
Versículos 1 e 2: uma visita que deu fruto
Paulo diz que a visita a eles não foi inútil. Antes, ele e seus companheiros tinham sido maltratados e insultados em Filipos, como contam os Atos (Atos 16). Mesmo assim, com a coragem que vem de Deus, anunciaram o Evangelho em meio a muita luta.
Versículos 3 a 6: sem engano e sem interesse
A pregação deles não nascia do erro, da impureza ou da astúcia. Deus os achou dignos de receber o Evangelho, e eles falam não para agradar às pessoas, mas a Deus, que examina os corações. Nunca usaram palavras de bajulação, nem buscaram lucro com pretextos, nem procuraram glória humana. Como apóstolos de Cristo, poderiam ter feito valer a sua autoridade, mas não o fizeram.
Versículos 7 a 9: como uma mãe que cuida dos filhos
Paulo usa uma imagem terna: foram cheios de bondade no meio deles, como uma mãe que alimenta e acaricia os próprios filhos. Por tanto afeto, quiseram dar não só o Evangelho, mas a própria vida, porque os tessalonicenses se tornaram muito queridos. E lembra o cansaço daqueles dias: trabalharam noite e dia para não pesar a ninguém enquanto anunciavam o Evangelho. Pelos Atos sabemos que Paulo trabalhava como fabricante de tendas (At 18,3).
Versículos 10 a 12: como um pai
Os fiéis e Deus são testemunhas de como eles se comportaram de modo santo, justo e irrepreensível. Agora a imagem é a do pai: Paulo exortou, encorajou e insistiu com cada um, como um pai com seus filhos, para que vivessem de maneira digna de Deus, que os chama ao seu Reino e à sua glória. A mãe nutre, o pai orienta. O evangelizador precisa das duas coisas.
Versículo 13: a Palavra de Deus acolhida
Paulo agradece sem cessar a Deus porque, ao receberem a Palavra que ele pregava, os tessalonicenses a acolheram “não como palavra humana, mas como ela realmente é, como Palavra de Deus” (1Ts 2,13). Essa Palavra age neles, que creem. O Catecismo lembra este versículo ao falar da Sagrada Escritura: nela a Igreja não recebe só uma palavra humana, mas a Palavra de Deus (CIC n. 104).
Versículos 14 a 16: o sofrimento das Igrejas
Os tessalonicenses se tornaram imitadores das Igrejas de Deus na Judeia: sofreram dos próprios compatriotas o mesmo que aquelas comunidades sofreram de alguns judeus que se opunham a elas. Paulo acrescenta palavras duras sobre esses opositores: fala da morte do Senhor Jesus e dos profetas, das perseguições contra os missionários e do esforço para impedir que o Evangelho fosse anunciado aos pagãos, e diz que a ira chegou sobre eles. É uma linguagem de polêmica, parecida com a dos profetas quando repreendiam o próprio povo.
Esses versículos exigem cuidado. Paulo era judeu, tinha orgulho disso e amava o seu povo a ponto de desejar ser separado de Cristo por ele (Romanos 9); mais tarde escreverá que Deus não rejeitou Israel e que os dons e o chamado de Deus são sem arrependimento (Romanos 11). Aqui ele se refere a grupos concretos do seu tempo que perseguiam os cristãos, não ao povo judeu como um todo. Alguns estudiosos discutem se parte do trecho foi acrescentada depois, sem consenso. O Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate (n. 4), ensina que a paixão de Cristo não pode ser imputada indistintamente a todos os judeus daquele tempo nem aos de hoje, e que os judeus não devem ser apresentados como rejeitados ou amaldiçoados por Deus, como se isso decorresse da Escritura. Por isso este texto jamais pode servir de base para qualquer desprezo ou hostilidade contra o povo judeu.
Versículos 17 a 20: a saudade e a esperança
Separado deles por pouco tempo, longe dos olhos, mas não do coração, Paulo sente forte desejo de revê-los. Tentou voltar mais de uma vez, mas Satanás o impediu. Ele não explica como; talvez se refira a obstáculos humanos que via como ação do inimigo. E conclui com emoção: na vinda do Senhor Jesus, a sua esperança, alegria e coroa de glória serão eles. A palavra vinda traduz o grego parusia, usada para a visita solene de um rei, e que os cristãos aplicam à volta gloriosa de Cristo.
O que 1 Tessalonicenses 2 ensina para a fé católica?
O versículo 13 é central para a fé da Igreja sobre a Palavra de Deus. Ela chega por meio de palavras humanas, a pregação dos apóstolos, mas é verdadeiramente Palavra de Deus e age em quem crê. Por isso a Igreja acolhe com a mesma reverência a Sagrada Escritura e a pregação apostólica transmitida na Tradição.
O capítulo também traça o perfil do pastor segundo o coração de Deus: desinteressado, verdadeiro, terno como mãe e firme como pai, disposto a dar a vida. É uma página que inspira bispos, padres, catequistas e pais. Os versículos 7 a 9 e 13 são a segunda leitura do 31º Domingo do Tempo Comum, Ano A.
Reflexão para hoje
Quem transmite a fé, em casa ou na catequese, pode se perguntar se faz isso para agradar a Deus ou para ser bem visto. Paulo não usou lisonja nem buscou vantagens. A fé passa melhor quando vem de alguém que ama de verdade.
A imagem da mãe e do pai serve para todos os educadores. Ternura sem orientação deixa a pessoa perdida; orientação sem ternura afasta. Pais e catequistas precisam das duas.
E o versículo 13 pede uma atitude de escuta. Quando ouvimos as leituras na Liturgia da Palavra, estamos ouvindo Deus. Vale chegar à Missa com tempo e prestar atenção, como quem recebe uma mensagem pessoal.
Para rezar com 1 Tessalonicenses 2
- Eu acolho a Palavra lida na Missa como Palavra de Deus?
- Como tenho transmitido a fé às pessoas que me foram confiadas?
- Quem, na minha vida, foi como mãe ou pai na fé, e por quem posso agradecer?
Sugestão de oração:
Senhor, quero acolher a tua Palavra não como palavra humana, mas como ela é de verdade. Que ela aja em mim. Dá-me um coração de mãe e de pai para cuidar dos que me confiaste, sem interesse e com amor. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Concílio Vaticano II, declaração Nostra Aetate.
Perguntas sobre 1 Tessalonicenses 2
O que significa acolher a Palavra como Palavra de Deus em 1 Tessalonicenses 2,13?
Por que Paulo se compara a uma mãe e a um pai?
Como entender as palavras duras sobre os judeus em 1 Tessalonicenses 2?
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