Romanos 9 abre uma nova parte da carta, dedicada ao mistério de Israel. Paulo sente grande tristeza porque muitos de seu povo não acolheram Jesus como Messias. Ele recorda os dons que Deus deu a Israel e mostra, com exemplos do Antigo Testamento, que a promessa de Deus não falhou: ela sempre dependeu da escolha livre e misericordiosa de Deus.
Contexto de Romanos 9
Os capítulos 9 a 11 formam um bloco. Depois de afirmar que nada nos separa do amor de Deus (Rm 8,39), Paulo enfrenta uma pergunta dolorosa: se Deus é fiel, como explicar que grande parte do povo eleito não creu em Cristo? Será que a palavra de Deus fracassou?
Paulo responde ao longo de três capítulos, e só no capítulo 11 se vê o quadro completo. Por isso Romanos 9 não deve ser lido isolado. Ele fala sobretudo da eleição de povos e pessoas para uma missão na história da salvação, e não de um decreto que condenaria alguém de antemão ao inferno.
Explicação de Romanos 9
Versículos 1 a 5: a dor de Paulo e os dons de Israel
Paulo jura, em Cristo, que sente uma tristeza profunda e uma dor contínua no coração. Chega a dizer que desejaria ser separado de Cristo em favor de seus irmãos de raça. Lembra Moisés, que pediu a Deus para ser riscado do livro em lugar do povo (Ex 32,32). É o amor de um pastor.
Em seguida enumera os privilégios de Israel: a adoção filial, a glória, as alianças, a Lei, o culto, as promessas e os patriarcas. Deles descende Cristo segundo a carne. O versículo 5 termina com um louvor, e muitos Padres da Igreja o leram como uma afirmação da divindade de Cristo, que está acima de todas as coisas, Deus bendito para sempre. Os estudiosos discutem a pontuação do texto grego, mas essa leitura tem uma longa tradição. O Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate, n. 4, cita estes versículos ao falar do vínculo espiritual entre a Igreja e o povo judeu.
Versículos 6 a 13: nem todos os descendentes são filhos da promessa
A palavra de Deus não falhou, afirma Paulo, porque nem todos os que descendem de Israel são Israel. Abraão teve Ismael e Isaac, mas a promessa seguiu por Isaac (Gn 21,12). Rebeca concebeu gêmeos, Esaú e Jacó, e antes que nascessem, sem que tivessem feito bem ou mal, foi dito que o mais velho serviria ao mais novo (Gn 25,23). Assim fica claro que a escolha depende de Deus que chama, e não das obras.
Paulo cita o profeta Malaquias: amei Jacó e odiei Esaú (Ml 1,2-3). Na linguagem semítica, amar e odiar, nesse tipo de frase, expressam preferência: escolher um e não o outro. O próprio Jesus usa uma forma parecida quando fala de “odiar” pai e mãe para segui-lo (Lc 14,26). Não se trata de ódio pessoal nem de condenação eterna de Esaú, mas da escolha de Jacó como herdeiro da promessa.
Versículos 14 a 18: Deus é injusto?
Então Deus é injusto? De modo nenhum. Paulo cita o que Deus disse a Moisés: terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia (Ex 33,19). A misericórdia não é algo que se conquista com esforço; é dom de Deus.
Paulo cita também o Faraó, que Deus suscitou para mostrar nele o seu poder. O livro do Êxodo diz às vezes que o Faraó endureceu o próprio coração e às vezes que Deus endureceu o coração dele. A Bíblia atribui a Deus aquilo que ele permite, sem anular a responsabilidade do homem. Deus não cria o mal no coração de ninguém, mas pode deixar que quem se fecha siga o próprio caminho.
Versículos 19 a 29: o oleiro e o barro
Alguém pode objetar: se é assim, por que Deus ainda culpa alguém? Paulo responde com a imagem do oleiro, já usada pelos profetas (Is 29,16; Jr 18,1-6): o vaso não pode dizer ao oleiro por que o fez assim. A criatura não tem o direito de exigir explicações de Deus como se fosse igual a ele.
Paulo fala de vasos de ira, que Deus suportou com muita paciência, e de vasos de misericórdia, preparados para a glória. A ênfase está na paciência de Deus com quem resiste. E os vasos de misericórdia são os que ele chamou, não só dentre os judeus, mas também dentre os pagãos. Paulo cita Oseias (Os 2,25 e Os 2,1): chamarei meu povo àquele que não era meu povo. E cita Isaías (Is 10,22-23 e Is 1,9): mesmo que os israelitas fossem como a areia do mar, só um resto seria salvo. A ideia do resto fiel é constante nos profetas.
Versículos 30 a 33: a pedra de tropeço
Paulo tira uma conclusão surpreendente. Os pagãos, que não buscavam a justiça, alcançaram a justiça que vem da fé. Israel, que buscava uma lei de justiça, não chegou a ela, porque a buscou como se viesse das obras, e não da fé. Tropeçaram na pedra de tropeço. Paulo une duas passagens de Isaías (Is 28,16 e Is 8,14): Deus põe em Sião uma pedra que faz tropeçar, mas quem nela crê não será confundido. Essa pedra é Cristo.
O que Romanos 9 ensina para a fé católica?
- Israel tem dons permanentes. A Igreja reconhece os dons de Deus ao povo judeu e rejeita todo desprezo ou antissemitismo, como ensina a declaração Nostra Aetate.
- A salvação é misericórdia. Ninguém merece a graça primeira; tudo começa no chamado gratuito de Deus (CIC n. 2010).
- Deus não predestina ao mal. A Igreja ensina que Deus quer a salvação de todos (1Tm 2,4) e que o homem coopera livremente com a graça (CIC n. 1993). Romanos 9 fala da eleição para uma missão, e não de uma condenação prévia.
- A pedra angular é Cristo. A fé em Jesus é o caminho da justiça para judeus e pagãos.
Reflexão para hoje
A dor de Paulo pelo seu povo lembra a dor de muitos pais e avós que veem filhos e netos afastados da fé. Paulo não deixa de amar, não desiste e não fala com amargura. Ele reza, sofre e confia que Deus é fiel. Essa é uma boa atitude para quem tem alguém querido longe da Igreja.
A imagem do oleiro também ajuda na vida espiritual. Nem sempre entendemos por que Deus permite certas coisas. A fé não exige que entendamos tudo, mas que confiemos nas mãos que nos modelam. O barro não precisa saber o projeto inteiro; precisa deixar-se trabalhar.
Para rezar com Romanos 9
- Por quem eu sinto dor por estar longe de Deus? Tenho rezado por essas pessoas?
- Aceito ser barro nas mãos de Deus, mesmo quando não entendo os seus caminhos?
- Reconheço que a fé que tenho é um dom, e não um mérito meu?
Sugestão de oração:
Senhor, oleiro da minha vida, eu me coloco em tuas mãos. Dá-me um coração como o de Paulo, que ama e reza por aqueles que estão longe de ti. Eu te confio meus familiares e amigos: tem misericórdia de todos e conduze-nos a Cristo, pedra firme da nossa fé. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1993 e 2010; Concílio Vaticano II, declaração Nostra Aetate, n. 4.
Perguntas sobre Romanos 9
O que significa “amei Jacó e odiei Esaú” em Romanos 9,13?
Romanos 9 ensina que Deus predestina algumas pessoas ao inferno?
Por que Paulo sente tanta tristeza em Romanos 9?
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