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Quem pode comungar? Regras para receber a Eucaristia

Estado de graça, jejum, confissão e casos do dia a dia: entenda com calma quando você pode receber a Comunhão e o que fazer quando não pode.

9 min de leitura
Quem pode comungar em obra de Leonardo da Vinci
The Last Supper, Leonardo da Vinci, from 1495 until 1498. Domínio público, via Wikimedia Commons.

"Será que eu posso comungar hoje?" Essa dúvida passa pela cabeça de muita gente na fila da Comunhão. A resposta curta é esta: pode comungar todo católico batizado que esteja em estado de graça, isto é, sem consciência de pecado grave não confessado, que tenha guardado o jejum eucarístico de uma hora e que não esteja impedido pelo direito da Igreja (CDC cân. 912; CIC 1385 e 1415).

Parece pouco, mas cada parte dessa frase tem um sentido. A seguir você vê cada condição explicada com calma, uma tabela com as situações mais comuns do dia a dia e o que fazer quando não dá para comungar. Ninguém aqui está para julgar você. A ideia é ajudar a receber Jesus com paz e com verdade.

Quem pode comungar segundo a Igreja?

O Código de Direito Canônico diz que todo batizado que não seja proibido pelo direito pode e deve ser admitido à sagrada Comunhão (cân. 912). Repare na palavra "deve". A Igreja não quer afastar ninguém do altar. Ela deseja que os fiéis comunguem, e com frequência.

Ao mesmo tempo, a Eucaristia não é um pão qualquer. É o próprio Cristo, presente com seu Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Por isso São Paulo pede um cuidado especial:

"Examine-se, pois, cada um a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice." (1Cor 11,28)

Se você quer entender melhor esse mistério, vale ler A Eucaristia: presença real de Cristo. Quem entende quem está recebendo entende também por que a Igreja pede preparação.

As quatro condições, em resumo

  1. Ser católico batizado. A Comunhão é sinal de unidade plena com a Igreja.
  2. Estar em estado de graça. Quem tem consciência de pecado grave deve antes confessar-se.
  3. Guardar o jejum eucarístico. Uma hora sem comida ou bebida, exceto água e remédios.
  4. Não estar impedido pelo direito. São situações específicas, que o pároco pode esclarecer.

Além disso, quem comunga pela primeira vez precisa ter feito a preparação da Primeira Comunhão. Se esse é o seu caso, veja A Primeira Comunhão: preparação e significado.

Leia também: Por que não se pode comungar em estado de pecado mortal?

O que é estar em estado de graça?

Estar em estado de graça é viver na amizade com Deus, sem pecado mortal na consciência. O Catecismo é claro: quem tiver consciência de ter cometido um pecado grave deve receber o sacramento da Reconciliação antes de se aproximar da Comunhão (CIC 1385). E repete: quem quer receber Cristo na Comunhão eucarística deve estar em estado de graça (CIC 1415).

Isso não significa ser perfeito. Ninguém comunga porque merece. Por isso, antes da Comunhão, a assembleia inteira diz: "Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo." Pecados veniais, como impaciência no trânsito ou uma fofoca, não impedem a Comunhão. A própria Eucaristia ajuda a purificar essas faltas do dia a dia.

O que impede é o pecado grave: matéria grave, cometida com pleno conhecimento e deliberado consentimento. Se você tem dúvida sobre o que é grave, o artigo Por que não se pode comungar em estado de pecado mortal explica com exemplos.

E se não houver como confessar?

O cânon 916 prevê uma exceção estreita. Quem tem consciência de pecado grave não celebre a Missa nem comungue sem antes se confessar, a não ser que haja motivo grave e não exista oportunidade de confissão. Nesse caso, a pessoa deve fazer um ato de contrição perfeita, que inclui o propósito de se confessar o quanto antes.

Atenção: "não ter tempo" ou "ter vergonha" não é motivo grave. Um exemplo de motivo grave seria um padre que precisa celebrar para a comunidade e não tem outro sacerdote por perto. Para a maioria dos fiéis, o caminho normal é procurar a confissão antes. Se você precisa de um roteiro, use Como fazer uma boa confissão passo a passo.

Ação para hoje: descubra os horários de confissão da sua paróquia e anote no celular. Saber onde e quando se confessar tira metade do peso da decisão.

Jejum eucarístico: quanto tempo antes de comungar?

O cânon 919 pede que quem vai comungar se abstenha de qualquer comida ou bebida pelo menos uma hora antes da Comunhão. Água e remédios não quebram o jejum. O Catecismo lembra que esse jejum faz parte da preparação, junto com as atitudes do corpo, como gestos e roupas, que expressam o respeito pelo momento (CIC 1387).

Três detalhes práticos ajudam muito:

  • A hora é contada até o momento da Comunhão, e não até o início da Missa.
  • Idosos, doentes e quem cuida deles podem comungar mesmo que tenham comido algo na hora anterior (cân. 919 §3).
  • O jejum não é castigo. É um pequeno sinal de fome de Deus, que prepara o corpo e a cabeça.

Para todos os detalhes, leia O que é o jejum eucarístico: tempo e regras.

Leia também: Por que existe o jejum antes da comunhão? Entenda a regra

Posso comungar se...? Tabela com os casos mais comuns

Esta tabela resume situações que as pessoas mais perguntam. Ela é uma orientação geral. Se o seu caso tiver detalhes diferentes, converse com um padre.

SituaçãoPosso comungar?
Tomei café 40 minutos antes da Missa, e a Comunhão aconteceu mais de uma hora depois do caféSim. A hora conta até a Comunhão.
Tomei meu remédio ou bebi água pouco antesSim. Água e remédios não quebram o jejum.
Tenho só pecados veniais, como impaciência ou preguiçaSim. Faça um ato de arrependimento no início da Missa.
Cometi um pecado grave e ainda não me confesseiNão. Procure a confissão antes (CIC 1385).
Faltei à Missa de domingo sem motivo sérioEm geral, não antes de se confessar, porque a Igreja considera falta grave deixar a Missa dominical sem motivo.
Esqueci um pecado grave na última confissão, sem quererSim. Ele foi perdoado junto com os outros. Conte na próxima confissão.
Já comunguei hoje de manhã e vou a outra Missa à noiteSim, uma segunda vez no mesmo dia, desde que participe da Missa (cân. 917).
Sou divorciado e não estou em nova uniãoSim, se estiver em estado de graça. O divórcio por si só não impede.
Vivo em nova união, ou sou casado só no civilHá orientações próprias. Veja o artigo sobre segunda união.
Não sou católicoEm geral, não. Há exceções raras previstas no direito.

Sobre o pecado esquecido, há um artigo inteiro: Esqueci um pecado na confissão, o que fazer? E para quem vive em segunda união, preparamos um texto acolhedor e fiel: Casado só no civil ou em segunda união pode comungar?

Quem não é católico pode comungar?

Em geral, não. E isso não é desprezo por ninguém. A Comunhão é sinal de que a pessoa partilha a mesma fé e está em comunhão plena com a Igreja. Comungar sem essa unidade seria dizer com o gesto algo que ainda não é verdade.

O cânon 844 diz que os ministros católicos administram licitamente os sacramentos aos fiéis católicos. O mesmo cânon prevê exceções raras, por exemplo para cristãos orientais não católicos que peçam espontaneamente e estejam bem dispostos, ou para outros cristãos em perigo de morte ou grave necessidade, sob condições específicas, entre elas manifestar a fé católica nesse sacramento. São casos que o sacerdote avalia.

Se você não é católico e está indo à Missa, seja muito bem-vindo. Você pode ir à fila de braços cruzados sobre o peito para receber uma bênção, onde esse costume existe, ou permanecer no banco rezando. Se sente o desejo de receber Jesus, esse desejo pode ser o começo de um caminho. Leia Como se tornar católico.

Com que frequência o católico deve comungar?

O mínimo pedido pela Igreja é comungar ao menos uma vez por ano, no tempo pascal, salvo se, por justa causa, isso for feito em outra época do ano (cân. 920). É um dos mandamentos da Igreja, explicados em Os mandamentos da Igreja.

Mas o mínimo é só o chão. A Igreja recomenda vivamente que os fiéis comunguem sempre que participam da Missa, estando bem dispostos. Comungar todo domingo é o ritmo natural de um católico. Muitos, quando podem, comungam também em Missas durante a semana.

Como se preparar bem

  1. Na véspera: faça um breve exame de consciência antes de dormir. Pode usar a ferramenta Exame de consciência.
  2. No caminho: no ônibus ou no carro, desligue as notificações do celular e reze em silêncio.
  3. Durante a Missa: ouça a Palavra com atenção. Se quiser, leia antes as leituras na Liturgia diária.
  4. Na fila: faça um ato de fé simples: "Senhor, eu creio que és Tu."
  5. Depois: fique alguns minutos em ação de graças, sem pressa de sair.

Se tiver dúvida sobre como receber na mão ou na boca, veja Como comungar corretamente.

Quando não posso comungar: a comunhão espiritual

Quem, por qualquer motivo, não pode comungar sacramentalmente não está fora da Missa. Continua obrigado e convidado a participar, a ouvir a Palavra, a rezar com a comunidade. E pode fazer a comunhão espiritual, que é o desejo ardente de receber Jesus, oferecido a Ele com amor.

A comunhão espiritual não substitui a confissão quando ela é necessária, mas mantém o coração voltado para Deus enquanto o caminho se organiza. Uma oração tradicional, muito rezada no Brasil, é esta:

Meu Jesus, eu creio que estais presente no Santíssimo Sacramento. Amo-vos sobre todas as coisas e desejo-vos em minha alma. Já que agora não posso receber-vos sacramentalmente, vinde ao menos espiritualmente ao meu coração. Como se já vos tivesse recebido, eu vos abraço e me uno todo a vós. Não permitais que eu jamais me separe de vós. Amém.

Ação para hoje: se hoje você não pôde comungar, reze essa oração no momento da Comunhão e marque a data da sua próxima confissão. Um passo concreto vale mais do que muita culpa.

Perguntas frequentes

Posso comungar sem me confessar?

Sim, se você não tem consciência de pecado grave. A confissão antes da Comunhão é obrigatória para quem tem consciência de pecado mortal ainda não confessado (CIC 1385).

Quanto tempo de jejum para comungar?

Uma hora antes da Comunhão, sem comida nem bebida. Água e remédios estão liberados, e idosos e doentes têm dispensa (cân. 919).

Posso comungar duas vezes no mesmo dia?

Sim, uma segunda vez, desde que seja dentro de uma Missa da qual você participa (cân. 917).

Evangélico pode comungar na Missa católica?

Em geral, não, porque a Comunhão expressa unidade plena na fé. O direito prevê exceções raras, avaliadas pelo sacerdote (cân. 844).

Para aprofundar

Fontes

Este artigo se baseia em: Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica (§§ 1385, 1387 e 1415); Código de Direito Canônico (cân. 844, 912, 916, 917, 919 e 920); Missal Romano (diálogo antes da Comunhão).

As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.