O milagre eucarístico de Valência, no catálogo de São Carlo Acutis, não é um fato com data, como uma hóstia que sangra. O painel trata do Santo Cálice, guardado na catedral de Valência, na Espanha, que a tradição identifica com o cálice usado por Jesus na Última Ceia. A relíquia está exposta à veneração dos fiéis na capela do Santo Cálice, dentro da catedral, e foi usada por São João Paulo II e por Bento XVI em Missas celebradas na cidade.
O que é o Santo Cálice de Valência?
Segundo o catálogo, a peça tem três partes de épocas diferentes. Em cima está uma taça de cornalina, uma pedra semipreciosa: é a parte mais antiga e a mais difícil de datar. No meio fica a haste, uma montagem de ourivesaria enriquecida com pedras preciosas. A base é formada por outra taça de pedra, invertida, com uma inscrição em árabe de interpretação discutida.
O professor Salvador Antuñano, citado pelo catálogo e pelo portal Almudí, retoma um estudo do arqueólogo Antonio Beltrán. Segundo esse estudo, a taça superior seria obra de uma oficina oriental do fim do período helenístico, entre o século II antes de Cristo e o século I depois de Cristo. Isso torna a tradição possível, mas não a prova.
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Como o cálice chegou a Valência?
A história documentada e a tradição se misturam, e é bom separar uma da outra.
O que diz a tradição
Uma antiga tradição conta que o cálice foi levado de Jerusalém a Roma e, no século III, enviado à região de Huesca, no norte da Espanha. Depois teria ficado escondido nos Pireneus durante a invasão muçulmana. O catálogo cita também relatos antigos sobre um cálice do Senhor venerado em Jerusalém, como o do bispo franco Arculfo e uma observação de São Beda, o Venerável. Esses textos falam de Jerusalém e não provam que se trate do mesmo objeto.
O que dizem os documentos
- 1399: o documento mais antigo que fala claramente da peça é a doação feita pelos monges do mosteiro de San Juan de la Peña, em Aragão, ao rei Martinho I, datada de 26 de setembro de 1399, segundo o portal Almudí.
- Século XV: o rei Afonso V, o Magnânimo, levou o cálice para Valência. O catálogo reproduz o documento de entrada do Santo Cálice na catedral, em 1437.
- 1916: a antiga sala capitular da catedral foi transformada na capela do Santo Cálice.
- 1936 a 1939: durante a Guerra Civil Espanhola, o cálice foi retirado da catedral pouco antes do incêndio de 1936 e devolvido ao cabido em 9 de abril de 1939.
O painel lembra ainda que o cálice inspirou lendas medievais do Graal, como as de Percival e dos cavaleiros da Távola Redonda. Essas histórias são literatura, não fontes históricas.
Como é a devoção hoje?
O cálice fica numa urna de vidro atrás do altar da capela do Santo Cálice. Em 8 de novembro de 1982, São João Paulo II celebrou a Missa em Valência usando a relíquia. Em 2006, Bento XVI fez o mesmo, durante o Encontro Mundial das Famílias.
Em 2015, o papa Francisco concedeu a Valência a celebração de um Ano Jubilar do Santo Cálice a cada cinco anos. O terceiro Ano Jubilar foi aberto em 30 de outubro de 2025 e vai até 29 de outubro de 2026. A festa do Santo Cálice é celebrada na última quinta-feira de outubro, e o cálice também sai em procissão na Quinta-feira Santa.
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A Igreja reconheceu o Santo Cálice de Valência?
A Igreja permite e incentiva a veneração do Santo Cálice: os jubileus concedidos e o uso da relíquia por dois papas mostram isso. Mas não há declaração oficial de que se trata, com certeza, do cálice da Última Ceia. O próprio professor Antuñano considera a autenticidade verossímil, mas não comprovada.
Por isso, o catálogo não registra aqui um milagre no sentido estrito. O que se venera é uma relíquia ligada por antiga tradição à instituição da Eucaristia.
O que o Santo Cálice ensina sobre a Eucaristia?
O cálice remete à noite da Última Ceia. São Paulo transmite as palavras de Jesus: "Este cálice é a nova aliança em meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim" (1Cor 11,25). O Catecismo ensina que, ao instituir a Eucaristia, Jesus deixou à Igreja o memorial da sua morte e ressurreição (n. 1337 e 1341) e que Cristo está presente em Corpo e Sangue sob as espécies do pão e do vinho (n. 1374).
A fé na Eucaristia não depende da autenticidade de nenhum objeto. O cálice de cada Missa, por mais simples que seja, contém o mesmo Sangue de Cristo. Jesus disse: "Meu sangue é verdadeira bebida" (Jo 6,55).
Perguntas frequentes
O Santo Cálice de Valência é o cálice da Última Ceia?
É o que afirma uma antiga tradição. Estudos indicam que a taça pode ser da época de Cristo, mas não há prova de que seja o cálice usado por Jesus.
Onde fica o Santo Cálice?
Na capela do Santo Cálice, dentro da catedral de Valência, na Espanha, numa urna de vidro atrás do altar.
Quais papas usaram o Santo Cálice?
São João Paulo II, em 8 de novembro de 1982, e Bento XVI, em 2006, ambos em Missas celebradas em Valência.
Quando é a festa do Santo Cálice?
Na última quinta-feira de outubro. A cada cinco anos, Valência celebra também um Ano Jubilar do Santo Cálice.
Para aprofundar
- Carlo Acutis e a catalogação dos milagres eucarísticos
- Objetos litúrgicos usados na Missa
- Milagre eucarístico de O Cebreiro
- A Eucaristia: presença real de Cristo
Fontes
Milagres Eucarísticos no mundo: catálogo da exposição de São Carlo Acutis; Catecismo da Igreja Católica (n. 1337, 1341 e 1374); Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); portal Almudí, "El sentido del Santo Cáliz de la Última Cena" (2006), com texto do professor Salvador Antuñano; Finestre sull'Arte, reportagem sobre o terceiro Ano Jubilar do Santo Cálice.
As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.