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Milagre eucarístico de Trani (século XI): a hóstia frita

Uma hóstia roubada e posta no azeite fervente teria derramado sangue em Trani, na Puglia. Veja o relato, a relíquia em Sant'Andrea e o contexto histórico.

6 min de leitura
Catedral de Trani, que guarda a relíquia do milagre eucarístico
Trani Cattedrale di San Nicola Pellegrino-2804. Foto: Isiwal, licença CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

O milagre eucarístico de Trani remonta, segundo a tradição, ao século XI, por volta do ano mil, nessa cidade da Puglia, no sul da Itália. Conta o relato que uma mulher levou para casa uma hóstia consagrada e a jogou numa panela de azeite fervente; a partícula teria se transformado em carne e derramado tanto sangue que ele escorreu pela porta da casa. A relíquia ficou por muito tempo na catedral e, desde 1987, está na igreja de Santo André (Sant'Andrea), em Trani.

É também um relato que exige leitura cuidadosa, porque as fontes antigas atribuem o sacrilégio a uma mulher judia, num contexto em que acusações desse tipo alimentaram preconceito.

O que aconteceu em Trani?

O catálogo descreve a mulher como não cristã e incrédula quanto à presença real de Jesus na Eucaristia. Com a ajuda de uma amiga cristã, ela participou da Missa fingindo ser cristã, recebeu a hóstia, tirou-a da boca e a guardou num lenço.

Em casa, querendo verificar se era apenas pão, colocou a partícula numa panela com azeite para fritar. Segundo o relato, em contato com o azeite quente, a hóstia se transformou em carne e começou a sangrar sem parar. O sangue transbordou da panela e se espalhou pela casa. Assustada, a mulher gritou, e as vizinhas acorreram.

O arcebispo foi avisado e mandou levar a partícula de volta à igreja com reverência.

As fontes do relato

O catálogo cita principalmente dois autores:

  • o frade Bartolomeo Campi, que resumiu o episódio na obra L'innamorato di Gesù Cristo (o catálogo indica 1625);
  • o abade cisterciense Ferdinando Ughelli, que na obra Italia sacra, de 1670, menciona a hóstia venerada em Trani.

Um estudo da Universidade de Messina (Berardino Palumbo, "Una storia contesa") data em 1611 o texto do frade, ali chamado Cambi. O painel lembra ainda monogramas eucarísticos reproduzidos nas ruas antigas da cidade.

A frase atribuída a Padre Pio

O catálogo atribui a São Pio de Pietrelcina a afirmação de que Trani é afortunada porque o sangue de Cristo banhou duas vezes a sua terra: no milagre da hóstia e no do Crucifixo de Colonna, cujo rosto desfigurado, segundo a tradição, deixou escorrer sangue.

Leia também: Milagre eucarístico de Bruges: a relíquia do Santo Sangue

Como ler hoje a acusação contra uma mulher judia?

As fontes antigas, como o texto do frade do século XVII, apresentam a mulher como judia; o painel em português prefere dizer "não cristã". Na Idade Média e no início da era moderna, relatos que acusavam judeus de profanar hóstias foram comuns em muitos lugares da Europa. Essas acusações alimentaram desconfiança e perseguições, e hoje são reconhecidas como injustas. Trani teve uma comunidade judaica importante na Idade Média, o que torna esse cuidado ainda mais necessário.

A Igreja rejeita todo antissemitismo. O Concílio Vaticano II, na declaração Nostra Aetate (n. 4), afirma que os judeus não devem ser apresentados como rejeitados ou amaldiçoados e deplora os ódios, perseguições e manifestações de antissemitismo, em qualquer tempo e por qualquer pessoa. O relato de Trani pode ser lembrado como expressão da fé eucarística de uma época, sem lançar culpa sobre nenhum povo.

Onde está a relíquia hoje?

O texto do catálogo diz que a relíquia está na catedral de Nossa Senhora da Assunção, mas uma legenda do mesmo painel esclarece que ela ficou ali "por vários anos" e mostra a capela dedicada ao milagre na igreja de Santo André. O estudo da Universidade de Messina explica a diferença: a relíquia ficou na catedral até 1987, quando o arcebispo a transferiu para Sant'Andrea, antigo mosteiro de São Basílio. Ali ela é guardada num estojo de prata no sacrário e exposta em alguns momentos litúrgicos.

A história da relíquia

  • Em 1616, a hóstia foi colocada num antigo relicário de prata doado por Fabrizio de Cunio.
  • Em 1706, a casa da mulher foi transformada em capela, com a oferta do nobre Ottaviano Campitelli.
  • A relíquia saiu em procissão em várias épocas; a última, segundo o catálogo, em 1924, no Congresso Eucarístico interdiocesano.

O painel mostra também a panela que, segundo a tradição, a mulher usou.

Leia também: Milagre eucarístico de Alkmaar (1429): a casula com sangue

A Igreja reconheceu o milagre de Trani?

O catálogo não menciona decreto de reconhecimento. Fala da ordem do arcebispo de levar a hóstia de volta à igreja e da veneração mantida por séculos, primeiro na catedral e depois em Sant'Andrea. É, portanto, uma relíquia de culto antigo, sem notícia de aprovação formal do fato.

O que o milagre de Trani ensina sobre a Eucaristia?

A pergunta da mulher, "é pão ou não é?", é a pergunta que a fé responde. A Igreja ensina que, pela consagração, a substância do pão se converte na do Corpo de Cristo, permanecendo só as aparências (CIC 1376), e que Cristo está presente de modo verdadeiro, real e substancial (CIC 1374). Jesus disse: "a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue, verdadeira bebida" (Jo 6,55).

A fé na presença real não depende de sinais como o de Trani, e a Igreja não obriga ninguém a crer em prodígios particulares. O respeito pela Eucaristia, aliás, nunca pode se tornar desculpa para desprezar pessoas.

Perguntas frequentes

Onde está a relíquia do milagre de Trani?

Desde 1987, na igreja de Santo André (Sant'Andrea), em Trani. Antes ela ficava na catedral.

O que aconteceu no milagre eucarístico de Trani?

Segundo o relato, uma hóstia roubada foi posta em azeite fervente, transformou-se em carne e derramou muito sangue.

Quando foi o milagre de Trani?

A tradição situa o fato no século XI, por volta do ano mil.

Por que o relato de Trani precisa de cuidado?

Porque as fontes antigas culpam uma mulher judia, e acusações desse tipo alimentaram perseguições. A Igreja rejeita todo antissemitismo (Nostra Aetate, n. 4).

Para aprofundar

Fontes

Este artigo se baseia em: Milagres Eucarísticos no mundo: catálogo da exposição de São Carlo Acutis; Catecismo da Igreja Católica (n. 1374 a 1377); Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Concílio Vaticano II, declaração Nostra Aetate (n. 4); Berardino Palumbo, "Una storia contesa" (Universidade de Messina); Ferdinando Ughelli, Italia sacra (citada pelo catálogo).

As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.