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Milagres Eucarísticos

Milagre eucarístico de Scete: o monge que duvidou

Um dos mais antigos relatos eucarísticos: um monge simples de Scete duvidava da presença real e, segundo os Ditos dos Padres, foi atendido na Missa.

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Mosteiro de Paromeos, no Wadi El Natrun, antigo deserto de Scete, no Egito
Paromeos Monastery (July 2012). Foto: Frank Schulenburg, licença CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

O milagre eucarístico de Scete é um dos relatos mais antigos ligados à Eucaristia. Ele está nos Ditos dos Padres do Deserto, coletânea de ensinamentos dos monges que viveram no Egito entre os séculos III e V. Segundo o relato, um monge de Scete que duvidava da presença real de Cristo viu, durante a Missa, um menino no lugar do pão consagrado, e a carne que lhe foi oferecida voltou a ter a aparência de pão quando ele professou a fé. Não há relíquia: o que chegou até nós é o texto.

Onde fica Scete e quem eram os Padres do Deserto?

Scete é uma região desértica do Egito, a oeste do delta do Nilo, onde se formou um dos centros mais conhecidos do monaquismo antigo. Ali viviam eremitas e pequenos grupos de monges que buscavam a Deus no silêncio, no trabalho manual e na oração, seguindo o exemplo de Santo Antão, o Abade.

Desses monges ficaram os chamados apotegmas: frases curtas e histórias com lição espiritual, transmitidas de boca em boca e depois postas por escrito. O catálogo de São Carlo Acutis explica o termo e situa o milagre dentro dessa coletânea, conhecida em português como Ditos dos Padres do Deserto.

Leia também: Milagres Eucarísticos no Brasil: história e Presença Real

O que aconteceu em Scete?

O relato é atribuído ao abade Daniel de Farã. Ele conta que havia em Scete um ancião muito trabalhador e de vida piedosa, mas pouco instruído na fé. Por ignorância, ele dizia que o pão que os monges recebiam não era de fato o Corpo de Cristo, mas apenas um símbolo.

Dois anciãos ouviram isso. Como conheciam a bondade do irmão, entenderam que ele falava sem malícia. Foram até ele e o corrigiram com delicadeza: a fé transmitida pela Igreja ensina que aquele pão é verdadeiramente o Corpo de Cristo e que o cálice é verdadeiramente o seu Sangue, e não um símbolo. O ancião respondeu que só se convenceria se visse um sinal.

Os dois monges propuseram rezar a Deus durante uma semana pedindo luz sobre o mistério. No domingo seguinte, os três foram juntos à igreja. Segundo o relato, quando o pão foi colocado sobre o altar, somente eles três viram em seu lugar um menino. Quando o sacerdote partiu o pão, viram um anjo que parecia imolar o menino e recolher o sangue no cálice. Na hora da Comunhão, ao ancião foi oferecido um pedaço de carne com sangue.

Diante disso, ele se encheu de temor e clamou que cria: o pão é o Corpo do Senhor e o cálice é o seu Sangue. No mesmo instante, a carne em sua mão voltou a ter a aparência de pão, e ele comungou dando graças a Deus.

Um detalhe merece atenção. O catálogo apresenta o próprio Arsênio como o monge que duvidava. Traduções conhecidas dos Ditos, porém, dizem que foi o abade Arsênio quem contou a história de um outro habitante de Scete, sem dizer o nome dele. Neste artigo seguimos a leitura mais comum: o monge que duvidava não é identificado.

Como esse relato é lembrado hoje?

Não existe hóstia conservada, santuário ou festa ligada a este episódio. Sua permanência está nos textos monásticos, lidos há séculos no Oriente e no Ocidente. O catálogo ilustra o painel com imagens de antigos mosteiros coptas do Egito, como os de Santo Antão e de São Paulo, perto do Mar Vermelho, que guardam a memória desse monaquismo.

Leia também: Milagre Eucarístico de Cascia: o sangue no breviário

A Igreja reconheceu o milagre de Scete?

O catálogo não menciona decreto de reconhecimento. Trata-se de um relato da tradição monástica antiga, transmitido como ensinamento espiritual, e não de um fato examinado em processo canônico. Seu valor está no testemunho de fé que ele expressa: já nos primeiros séculos os cristãos do Egito professavam que o pão consagrado é o Corpo de Cristo, e não um símbolo.

O que o milagre de Scete ensina sobre a Eucaristia?

A história repete, em pequena escala, a cena de Cafarnaum. Jesus disse: "a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida" (Jo 6,55), e muitos acharam a palavra dura. O ancião de Scete também tropeça nessa palavra, e os irmãos não o expulsam: rezam com ele.

Há ainda uma lição sobre o próprio sinal. A carne volta a ter aparência de pão antes da Comunhão. É assim que Cristo quis se dar: sob as espécies do pão e do vinho. O Catecismo ensina que, pela consagração, toda a substância do pão se converte na substância do Corpo de Cristo, o que a Igreja chama de transubstanciação (CIC 1376), e que Cristo está presente de modo verdadeiro, real e substancial (CIC 1374).

A fé na presença real não depende de visões. São Paulo lembra que quem come e bebe sem discernir o Corpo do Senhor come e bebe a própria condenação (1Cor 11,29); por isso a Igreja forma a fé pela Palavra e pelos sacramentos. Os relatos de prodígios, por mais antigos que sejam, não obrigam a fé de ninguém (CIC 67).

Perguntas frequentes

O que são os Ditos dos Padres do Deserto?

São coletâneas de frases e histórias curtas dos monges que viveram no deserto do Egito nos primeiros séculos. Servem até hoje como leitura espiritual.

Quem viu o milagre de Scete?

Segundo o relato, apenas três monges: o ancião que duvidava e os dois irmãos que rezaram com ele. O texto diz que os outros presentes não viram nada.

O monge que duvidava era Santo Arsênio?

O catálogo dá a entender que sim, mas traduções conhecidas dos Ditos dizem que Arsênio contou a história de outro monge de Scete, sem nome.

Existe relíquia do milagre de Scete?

Não. O episódio é conhecido apenas pelos textos monásticos antigos.

Para aprofundar

Fontes

Milagres Eucarísticos no mundo: catálogo da exposição de São Carlo Acutis (Edizioni San Clemente, 2006); Catecismo da Igreja Católica (n. 67 e 1374 a 1377); Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Ditos dos Padres do Deserto (relato do abade Daniel de Farã).

As explicações deste artigo não substituem o acompanhamento de um sacerdote.