O Salmo 75 é uma ação de graças em que o próprio Deus toma a palavra. Ele declara que julgará com retidão no tempo que ele fixar e que sustenta as colunas da terra quando tudo treme. Os orgulhosos são advertidos a não se vangloriar, porque é Deus quem humilha um e exalta outro. O salmo termina com o compromisso de louvar o Deus de Jacó para sempre.
Contexto do Salmo 75
Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 74. O título hebraico diz: para o mestre de canto, segundo a melodia "Não destruas", salmo de Asaf, cântico. A expressão "Não destruas" aparece também nos títulos dos Salmos 57, 58 e 59 e deve indicar uma melodia conhecida. A ligação com Asaf, chefe de cantores levitas, é tradicional.
É um salmo de ação de graças com um oráculo profético no centro, isto é, uma palavra pronunciada em nome de Deus, talvez por um cantor ou profeta no culto. Muitos estudiosos o aproximam do Salmo 76, que vem depois e celebra Deus como juiz vitorioso. Na Bíblia da CNBB o título é o versículo 1, e o texto vai do versículo 2 ao 11.
Explicação do Salmo 75
Versículo 2: damos graças
O salmo começa com a comunidade em oração: damos graças a Deus, damos graças. O nome de Deus está perto, e as pessoas contam as suas maravilhas. Dizer que o nome está perto significa que Deus está presente e age. A ação de graças nasce da experiência dessa proximidade.
Versículos 3 e 4: Deus fala
De repente quem fala é o próprio Deus. Ele diz que, no tempo que fixar, julgará com retidão. O ritmo da história não está nas mãos dos homens, mas de Deus. Ele escolhe o momento.
Em seguida, Deus afirma que, quando a terra treme com todos os seus habitantes, é ele quem firma as suas colunas. Os antigos imaginavam a terra apoiada sobre colunas. Quando tudo parece desabar, seja por desastres, guerras ou injustiças, Deus continua sustentando o mundo.
Versículos 5 e 6: não levanteis o chifre
Deus adverte os arrogantes: não sejam orgulhosos. E aos ímpios: não levantem o chifre. O chifre, na Bíblia, é símbolo de força e de poder. Levantá-lo é exibir-se com arrogância, como um animal que se prepara para atacar. Deus pede que ninguém levante o chifre para o alto nem fale com insolência.
Versículos 7 e 8: Deus é o juiz
Agora fala novamente o salmista, explicando a palavra de Deus. A exaltação não vem do oriente nem do ocidente, nem do deserto. Os pontos cardeais indicam que nenhuma força humana, venha de onde vier, pode dar a verdadeira grandeza. O deserto ficava ao sul. O fim do versículo é de leitura difícil no hebraico, mas o sentido geral é claro: de nenhuma direção vem a grandeza, só de Deus.
A afirmação central é: Deus é o juiz. Ele rebaixa um e exalta outro. Esse tema atravessa a Bíblia: está no cântico de Ana (1Sm 2,7-8) e no Magnificat de Maria, que canta o Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e exalta os humildes (Lc 1,52).
Versículo 9: a taça na mão do Senhor
O salmista usa uma imagem forte: na mão do Senhor há uma taça com vinho espumante, cheio de mistura. Ele o derrama, e todos os ímpios da terra terão de beber até a borra. A taça é uma imagem frequente dos profetas para o julgamento de Deus (Is 51,17; Jr 25,15). Quem praticou o mal terá de beber as consequências até o fim.
No Getsêmani, Jesus pede que, se possível, o Pai afaste dele o cálice (Mt 26,39). A tradição cristã viu ali o Filho assumindo sobre si o cálice do juízo, por amor aos pecadores. O Apocalipse retoma a imagem da taça da ira para o julgamento final (Ap 14,10).
Versículos 10 e 11: o louvor sem fim
O salmo termina com um compromisso pessoal: o salmista vai anunciar para sempre e cantar ao Deus de Jacó. O versículo final volta à imagem do chifre: Deus quebrará todos os chifres dos ímpios, mas os chifres do justo serão levantados. A força verdadeira do justo vem de Deus, não do orgulho.
O que o Salmo 75 ensina para a fé católica?
O Salmo 75 ensina que Deus é o senhor da história e o juiz justo. A Igreja professa no Credo que Cristo virá para julgar os vivos e os mortos. Esse juízo não é motivo de medo para os humildes, mas de esperança: a injustiça não terá a última palavra.
O tema de Deus que humilha os orgulhosos e exalta os humildes está no coração do Evangelho. Jesus diz que quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado (Lc 14,11). Maria, no Magnificat, canta o mesmo Deus do Salmo 75. A Igreja reza o Magnificat todos os dias nas Vésperas, e por isso a mensagem deste salmo ressoa diariamente na sua oração.
O salmo começa e termina com ação de graças. O Catecismo lembra que a ação de graças caracteriza a oração da Igreja e que todo acontecimento pode tornar-se motivo de agradecimento (CIC n. 2637 e 2638). Mesmo diante do juízo, a atitude do fiel é agradecer, porque Deus sustenta o mundo e faz justiça. A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas.
Reflexão para hoje
Vivemos numa cultura que incentiva a levantar o chifre: mostrar sucesso, competir, se impor. O Salmo 75 lembra que a verdadeira grandeza não vem do oriente nem do ocidente, nem dos seguidores nas redes sociais, nem do cargo. Vem de Deus. Isso liberta: não precisamos provar o tempo todo que somos importantes.
O salmo também consola quem sofre injustiça e não vê solução. Deus diz que julgará no tempo que ele fixar. O tempo de Deus nem sempre é o nosso, mas ele não esquece. Enquanto isso, ele sustenta as colunas da terra. Quando a vida treme, Deus segura.
Por fim, o salmo é um bom exame para o coração. Em que eu tenho me orgulhado? Em que tenho confiado na minha própria força? A Ladainha da Humildade pode ser uma boa companheira para rezar com este salmo.
Para rezar com o Salmo 75
- Em que situações eu levanto o chifre, confiando na minha própria força?
- Consigo esperar o tempo de Deus diante das injustiças que vejo?
- Pelo que posso dar graças a Deus hoje, mesmo no meio das dificuldades?
Sugestão de oração:
Senhor, nós te damos graças, porque o teu nome está perto. Quando a terra treme, tu sustentas as suas colunas. Livra-me do orgulho e da vontade de me impor. Tu humilhas os soberbos e exaltas os humildes: dá-me um coração simples, que espere o teu tempo e cante para sempre o teu louvor. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2637 e 2638.
Perguntas sobre Salmo 75
Qual a mensagem do Salmo 75?
O que significa levantar o chifre no Salmo 75?
O que é a taça na mão do Senhor?
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