O Salmo 74 é o lamento de um povo que viu o santuário de Deus destruído. Inimigos entraram, quebraram tudo a machado e puseram fogo na casa do Senhor. Já não há sinais nem profetas, e ninguém sabe até quando. No meio da dor, o povo recorda que Deus é rei desde sempre, criador do dia e da noite, e pede que ele se lembre da sua aliança.
Contexto do Salmo 74
Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 73. O título hebraico o apresenta como poema de Asaf. Asaf era chefe de um grupo de cantores levitas (1Cr 16,4-5), e os salmos com seu nome provavelmente vêm desse grupo de cantores e de seus sucessores. Na Bíblia da CNBB o título está no versículo 1, junto com o início do texto, que vai até o versículo 23.
É uma lamentação coletiva. O título não indica a situação histórica. Pela descrição, muitos estudiosos pensam na destruição do Templo de Jerusalém pelos babilônios em 587 a.C. (2Rs 25,8-9). Outros pensam em profanações posteriores. Não há certeza, e o salmo acabou servindo para rezar todas as grandes crises do povo de Deus. Ele tem muita semelhança com o Salmo 79 e com o livro das Lamentações.
Explicação do Salmo 74
Versículos 1 a 3: por que, ó Deus?
O salmo começa com uma pergunta dolorosa: por que Deus rejeitou o seu povo para sempre? Por que a sua ira arde contra as ovelhas do seu rebanho? A imagem do rebanho lembra que o povo pertence a Deus como o rebanho ao pastor.
O povo pede que Deus se lembre da comunidade que adquiriu desde o princípio, da tribo que resgatou como herança, do monte Sião onde fez sua morada. E convida o Senhor a dirigir os passos até as ruínas sem fim: o inimigo devastou tudo no santuário.
Versículos 4 a 8: o santuário incendiado
Esta parte descreve a destruição com detalhes vivos. Os adversários rugiram no meio do lugar das assembleias e colocaram ali os seus próprios estandartes. Parecem lenhadores erguendo o machado numa mata fechada: com machados e martelos quebraram os entalhes do santuário. Puseram fogo no santuário de Deus, profanaram até o chão a morada do seu nome. Disseram no coração: vamos destruí-los todos. E queimaram na terra todos os lugares de encontro com Deus.
A dor não é só pela perda de um edifício. O Templo era o sinal visível da presença de Deus no meio do povo. Ver o santuário em chamas parecia significar que Deus os tinha abandonado.
Versículos 9 a 11: até quando?
Aqui está um dos aspectos mais duros: já não se veem os sinais de Deus, não há mais profeta, e ninguém sabe até quando vai durar essa situação. O silêncio de Deus pesa tanto quanto a destruição.
O povo pergunta até quando o adversário vai insultar e o inimigo vai desprezar o nome de Deus para sempre. Por que Deus retira a mão, por que esconde a direita no peito? A mão direita é sinal do poder de Deus que age. O pedido é que ele a tire do peito e aja.
Versículos 12 a 17: Deus, rei desde o princípio
No centro do salmo, a lamentação dá lugar a um hino. Deus é rei desde o princípio e realiza a salvação no meio da terra. O povo recorda as suas obras: com o seu poder dividiu o mar, quebrou as cabeças dos monstros das águas, esmagou as cabeças do Leviatã e o deu como alimento aos animais do deserto.
O Leviatã e os monstros marinhos eram, nas culturas antigas, figuras do caos que ameaçava a vida. A Bíblia usa essas imagens de modo poético para dizer que só o Senhor domina todas as forças do mal (Is 27,1; Jó 40,25). A divisão do mar lembra também a travessia do mar Vermelho no Êxodo.
Deus fez brotar fontes e torrentes e secou rios perenes. Dele são o dia e a noite; ele firmou a luz e o sol. Ele fixou os limites da terra e fez o verão e o inverno. Recordar a criação é lembrar que o Deus que parece ausente é o mesmo que governa o universo.
Versículos 18 a 23: lembra-te da aliança
Com essa memória, o povo volta a pedir. Que Deus se lembre do insulto do inimigo e do povo insensato que despreza o seu nome. Que não entregue às feras a vida da sua rola, nem esqueça para sempre a vida dos seus pobres. A rola, uma pomba pequena e indefesa, é imagem do povo frágil diante dos inimigos.
O pedido central é: olha para a aliança. Os recantos escuros da terra estão cheios de violência. Que o oprimido não volte envergonhado, que o pobre e o necessitado louvem o nome de Deus. O salmo termina com um apelo forte: levanta-te, ó Deus, defende a tua causa; lembra-te do insulto que o insensato te faz o dia inteiro; não esqueças o grito dos teus adversários, cujo tumulto cresce sem parar.
O salmo não termina com uma resposta. Termina com o pedido em aberto. É uma oração de quem continua a esperar, mesmo sem ver a solução.
O que o Salmo 74 ensina para a fé católica?
O Salmo 74 ensina que a fé pode atravessar a experiência do aparente silêncio de Deus. Quando não há sinais nem profetas, o povo continua rezando, recordando as obras de Deus e confiando na aliança. Essa memória é uma das bases da oração bíblica e da liturgia da Igreja, que sempre faz memória das maravilhas de Deus.
Para o cristão, o templo destruído ganha um novo sentido. Jesus fala do seu próprio corpo como o templo que seria destruído e reconstruído em três dias (Jo 2,19-21). A aliança que o salmo pede que Deus recorde é renovada em Cristo, na nova e eterna aliança do seu sangue (Lc 22,20).
O Catecismo lembra que os salmos refletem as obras de Deus na história e as experiências do seu povo, e podem ser rezados em todas as épocas (CIC n. 2588). Ao longo dos séculos, a Igreja viveu igrejas destruídas, perseguições e profanações. Rezar este salmo é unir-se aos cristãos que hoje sofrem por sua fé, e a Igreja o reza na Liturgia das Horas.
Reflexão para hoje
O Salmo 74 é uma oração para tempos de crise na comunidade. Pode ser uma igreja incendiada em algum país onde os cristãos são perseguidos, uma paróquia dividida, um escândalo que fere a confiança dos fiéis. Em vez de fingir que está tudo bem, o salmo ensina a lamentar diante de Deus.
Ele também ensina a não deixar o lamento virar desespero. No meio da dor, o povo lembra quem Deus é: o criador do dia e da noite, o vencedor do caos. Lembrar o que Deus já fez na nossa história, pessoal e da Igreja, ajuda a esperar o que ele ainda vai fazer.
E há a imagem da rola indefesa. Deus cuida dos pequenos. Quem se sente frágil diante das forças do mundo pode rezar: não entregues às feras a vida da tua rola. É uma oração que Deus não despreza.
Para rezar com o Salmo 74
- Quais crises da Igreja ou da minha comunidade eu poderia apresentar a Deus com este salmo?
- Em momentos de silêncio de Deus, de que obras dele eu me lembro?
- Rezo pelos cristãos perseguidos no mundo?
Sugestão de oração:
Senhor, quando os sinais da tua presença parecem apagados, lembra-te do teu povo. Tu és rei desde o princípio e venceste as forças do caos. Não entregues às feras a vida da tua rola. Protege os cristãos perseguidos, reconstrói o que foi destruído e lembra-te da aliança selada no sangue do teu Filho. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588.
Perguntas sobre Salmo 74
Qual destruição o Salmo 74 descreve?
O que é o Leviatã do Salmo 74?
Como rezar o Salmo 74 hoje?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.