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Salmo 73: a prosperidade dos maus e o bem de estar com Deus

Leia Salmo 73 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 73 é a confissão sincera de uma crise de fé. O salmista quase escorregou ao ver os maus prosperando, sem sofrimentos e cheios de arrogância, enquanto ele, que procurava ser justo, era castigado todos os dias. A resposta veio quando entrou no santuário de Deus: ali entendeu o fim dos ímpios e descobriu que o seu bem é estar junto de Deus.

Contexto do Salmo 73

Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 72. O título hebraico diz "Salmo de Asaf". Asaf aparece nas Crônicas como um dos chefes dos cantores levitas no tempo de Davi (1Cr 16,4-5). Os salmos que levam o seu nome (o Salmo 50 e os Salmos 73 a 83) devem vir de um grupo de cantores ligado a ele. A atribuição é tradicional.

O Salmo 73 abre o terceiro livro do Saltério (Salmos 73 a 89). É um salmo sapiencial, que trata de um problema que também aparece em Jó, no Eclesiastes e no Salmo 37: por que o justo sofre e o ímpio prospera? Na Bíblia da CNBB o título está no versículo 1, junto com o início do texto, que vai até o versículo 28.

Explicação do Salmo 73

Versículos 1 a 3: quase escorreguei

O salmo começa com a conclusão a que o salmista chegou: Deus é bom para Israel, para os puros de coração. Mas logo confessa que nem sempre pensou assim. Seus pés quase vacilaram, por pouco não escorregou. O motivo foi a inveja dos arrogantes ao ver a prosperidade dos ímpios.

É uma honestidade rara. O salmista não esconde a crise; conta-a para ajudar outros que passam pelo mesmo.

Versículos 4 a 12: o retrato dos ímpios

O salmista descreve os maus como os via. Não têm sofrimentos, seus corpos são saudáveis e bem nutridos. Não passam pelas dificuldades dos outros nem são atingidos como os demais. Por isso usam o orgulho como colar e a violência como roupa.

Seus olhos saltam da gordura, e o coração transborda de maus pensamentos. Zombam, falam com maldade, ameaçam de cima. Levantam a boca contra o céu, e a língua percorre a terra. E dizem: como Deus pode saber? Há conhecimento no Altíssimo? Muitos do povo se voltam para eles e bebem as suas palavras. Assim são os ímpios: sempre tranquilos, aumentando a riqueza.

O retrato é exagerado de propósito, como a impressão de quem olha com inveja. Mas expressa uma experiência real: muitas vezes quem não se importa com Deus parece viver melhor.

Versículos 13 a 16: valeu a pena?

Aqui está o ponto mais baixo da crise. O salmista se pergunta se foi inútil conservar puro o coração e lavar as mãos na inocência, já que é atingido o dia inteiro e castigado toda manhã.

Mas ele percebe um limite. Se falasse assim abertamente, trairia a geração dos filhos de Deus. Não quer escandalizar os outros fiéis. Tentou então entender, mas foi um trabalho penoso aos seus olhos.

Versículos 17 a 20: a luz do santuário

A virada acontece no versículo 17: até que entrou no santuário de Deus e compreendeu o fim dos ímpios. O salmo não diz exatamente o que aconteceu ali. Pode ter sido a participação no culto, a escuta da Palavra, um momento de oração. O importante é que a resposta não veio do raciocínio solitário, mas da presença de Deus.

Então o salmista vê os maus de outro modo: estão em terreno escorregadio, Deus os faz cair na ruína. Num instante são destruídos, consumidos pelo terror. São como um sonho ao despertar: quando Deus se levanta, desprezam-se as suas imagens. A prosperidade que parecia tão sólida é passageira.

Versículos 21 a 24: tu me seguras pela mão

O salmista olha para trás e se envergonha. Quando o coração estava amargo e os rins feridos, ele era insensato, sem entendimento, como um animal diante de Deus. Mas, apesar disso, nunca deixou de estar com Deus.

Vem então uma das frases mais ternas dos salmos: Deus o segura pela mão direita, guia-o com o seu conselho e depois o recebe na glória. A última expressão é discutida pelos estudiosos. Muitos veem nela uma abertura para a esperança de comunhão com Deus além da morte, ainda que de forma inicial.

Versículos 25 a 28: Deus é a minha porção

O salmo atinge o seu ponto mais alto: quem o salmista tem no céu além de Deus? E, estando com Deus, nada deseja sobre a terra. Mesmo que a carne e o coração desfaleçam, Deus é a rocha do seu coração e a sua porção para sempre.

A palavra porção lembra a partilha da terra prometida. A tribo de Levi, dos sacerdotes, não recebeu território, porque o Senhor era a sua herança (Nm 18,20). O salmista se sente como um levita: sua herança é o próprio Deus.

Os que se afastam de Deus se perdem. Mas, para o salmista, o bem é estar junto de Deus. Ele colocou no Senhor o seu refúgio e quer contar todas as suas obras.

O que o Salmo 73 ensina para a fé católica?

O Salmo 73 mostra que a dúvida e a crise podem fazer parte do caminho da fé, desde que sejam vividas diante de Deus. O salmista não abandonou a oração no meio da crise; foi justamente no santuário que encontrou a luz. A Igreja ensina que a liturgia e a oração são lugares onde Deus ilumina o coração.

A afirmação de que Deus recebe o justo na glória e é a sua porção para sempre prepara a fé na vida eterna, que o Novo Testamento revela plenamente na ressurreição de Cristo. O verdadeiro bem não é a prosperidade passageira, mas a comunhão com Deus, que começa já agora e não acaba. Jesus ensina o mesmo: de que adianta ganhar o mundo inteiro e perder a própria vida (Mc 8,36)?

O Catecismo apresenta as meditações sapienciais entre as formas dos salmos e destaca, como traços comuns, o desejo de Deus e a confiança no seu amor (CIC n. 2588 e 2589). O Salmo 73 une os dois: termina na alegria simples de estar perto de Deus. A Igreja o reza na Liturgia das Horas.

Reflexão para hoje

Quem nunca sentiu inveja de alguém que trapaceia e se dá bem? O colega que mente e é promovido, o vizinho desonesto que enriquece, a pessoa que despreza a fé e parece mais feliz. O Salmo 73 dá permissão para admitir esse sentimento e mostra o que fazer com ele: levá-lo ao santuário.

Na prática, isso pode significar não ruminar sozinho a revolta, mas ir à Missa, fazer um momento de adoração ao Santíssimo, abrir a Bíblia. Muitas vezes a perspectiva muda quando nos colocamos diante de Deus. O que parecia tão desejável aparece como sonho que passa.

E o salmo termina com uma frase que pode virar programa de vida: o meu bem é estar junto de Deus. Não se trata de desprezar as coisas boas da vida, mas de saber qual é a maior. Quem tem Deus como porção não precisa invejar ninguém.

Para rezar com o Salmo 73

  • De quem eu sinto inveja, e o que essa inveja revela sobre o que eu valorizo?
  • Onde costumo buscar luz quando a vida parece injusta?
  • Posso dizer com sinceridade que o meu bem é estar junto de Deus?

Sugestão de oração:

Senhor, quando meus pés quase escorregam e a inveja aperta o coração, segura-me pela mão. Leva-me ao teu santuário e faz-me ver as coisas como tu vês. Quem tenho eu no céu além de ti? Tu és a minha porção para sempre. O meu bem é estar junto de ti. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588 e 2589.

Perguntas sobre Salmo 73

Qual é o tema do Salmo 73?

É a crise de um fiel que vê os maus prosperando e se pergunta se vale a pena ser justo. No santuário de Deus ele compreende o destino dos ímpios e descobre que o maior bem é estar sempre com Deus.

Por que os maus prosperam, segundo o Salmo 73?

O salmo não dá uma explicação teórica. Mostra que a prosperidade dos maus é passageira, como um sonho ao despertar, e que a verdadeira riqueza do justo é a comunhão com Deus, que nada pode tirar.

O que significa 'Deus é a minha porção para sempre'?

Na partilha da terra prometida, a tribo de Levi não recebeu território, porque o Senhor era a sua herança (Nm 18,20). O salmista usa essa imagem para dizer que Deus é o seu bem maior, mais do que qualquer posse.

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