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Salmo 72: o rei justo e os reis que trazem presentes

Leia Salmo 72 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 72 é uma oração pelo rei. O povo pede que Deus conceda ao rei a sua justiça, para que ele defenda os pobres, liberte os oprimidos e traga paz e fartura. O desejo cresce até imaginar um reino de mar a mar, com reis de terras distantes trazendo presentes. A Igreja lê este salmo como anúncio de Cristo, o Rei a quem os magos ofereceram ouro, incenso e mirra.

Contexto do Salmo 72

Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 71. O título hebraico diz "De Salomão". A expressão pode indicar que o salmo foi composto por Salomão, para Salomão ou em seu nome; as interpretações variam. Salomão era lembrado como o rei sábio que pediu a Deus discernimento para governar com justiça (1Rs 3,9), e o salmo combina bem com essa imagem.

É um salmo real. Provavelmente era rezado na coroação ou em celebrações ligadas ao rei da dinastia de Davi. Ele encerra o segundo livro do Saltério (Salmos 42 a 72), com uma doxologia, isto é, uma fórmula de louvor, e uma nota final sobre o fim das orações de Davi. Na Bíblia da CNBB o título está no versículo 1, junto com o início da oração, e o texto vai até o versículo 20.

Explicação do Salmo 72

Versículos 1 a 4: justiça para os pobres

O salmo começa com um pedido: que Deus dê ao rei o seu julgamento e ao filho do rei a sua justiça. O rei não é fonte da justiça; ele a recebe de Deus. Assim poderá governar o povo com retidão e os pobres com equidade.

Os montes e as colinas trarão paz ao povo, pela justiça. O rei defenderá os humildes, salvará os filhos dos pobres e esmagará o opressor. No antigo Oriente, o bom rei era avaliado pelo modo como tratava os mais fracos. O salmo insiste nisso: a grandeza do rei se mede pela proteção aos pobres.

Versículos 5 a 7: como a chuva sobre a relva

O povo deseja que o rei dure enquanto houver sol e lua, de geração em geração. Ele será como a chuva que cai sobre a relva cortada, como os aguaceiros que regam a terra. A imagem é bonita: um governo justo faz a vida renascer, como a chuva faz brotar o campo depois da ceifa. Nos seus dias florescerá a justiça e haverá grande paz até que a lua deixe de existir.

Versículos 8 a 11: o reino de mar a mar

O reino do rei se estenderá de mar a mar, do Rio até os confins da terra. O Rio, na Bíblia, costuma ser o Eufrates. Os habitantes do deserto se curvarão diante dele, e os inimigos lamberão o pó, sinal de submissão total.

Então vem a imagem mais conhecida do salmo: os reis de Társis e das ilhas trarão ofertas, os reis de Sabá e de Seba pagarão tributo. Társis era uma terra distante a oeste, ligada ao comércio pelo mar. Sabá ficava ao sul da Arábia, famosa pelo ouro e pelo incenso, de onde veio a rainha que visitou Salomão (1Rs 10,1-10). Todos os reis se prostrarão diante dele, e todas as nações o servirão.

Versículos 12 a 14: o sangue do pobre é precioso

O salmo explica por que o rei merece essa honra: ele liberta o pobre que clama e o humilde que não tem quem o ajude. Tem compaixão do fraco e do pobre e salva a vida dos necessitados. Ele os resgata da opressão e da violência, porque o sangue deles é precioso a seus olhos.

É uma frase forte. A vida do pobre, que muitos consideravam sem valor, é preciosa para o rei justo. A universalidade do reino não nasce da força militar, mas da justiça para os pequenos.

Versículos 15 a 17: bênção para todas as nações

O povo deseja longa vida ao rei e que lhe deem ouro de Sabá. Que se reze por ele continuamente e se bendiga o seu nome todos os dias. A terra terá fartura de trigo, até no alto dos montes, e as espigas se agitarão como as árvores do Líbano. As cidades florescerão como a erva do campo.

O versículo 17 deseja que o nome do rei permaneça para sempre e que nele sejam abençoadas todas as nações, que o proclamarão feliz. É um eco da promessa a Abraão: nele seriam abençoadas todas as famílias da terra (Gn 12,3). O rei se torna o canal da bênção prometida aos patriarcas.

Versículos 18 a 20: a doxologia e o fim das orações de Davi

Os versículos 18 e 19 são uma doxologia que fecha o segundo livro dos Salmos: bendito seja o Senhor, Deus de Israel, o único que faz maravilhas; bendito seja para sempre o seu nome glorioso, e que a sua glória encha toda a terra. Amém, amém. Os outros livros do Saltério também terminam com uma fórmula parecida (Sl 41,14; 89,53; 106,48); o quinto livro se encerra com o Salmo 150 inteiro, que é todo um louvor.

O versículo 20 é uma nota de quem organizou o livro: terminam as orações de Davi, filho de Jessé. Ela indica o fim de uma coleção antiga, embora outros salmos atribuídos a Davi apareçam mais adiante.

O que o Salmo 72 ensina para a fé católica?

Nenhum rei de Israel cumpriu tudo o que este salmo deseja: justiça perfeita, paz sem fim, reinado eterno e universal. Por isso a tradição judaica e a cristã leram o salmo como anúncio do Messias. A Igreja vê o seu cumprimento em Jesus Cristo, o Filho de Davi, cujo reino não terá fim (Lc 1,32-33).

A visita dos magos, que trazem ouro, incenso e mirra ao Menino (Mt 2,11), é lida à luz deste salmo e de Isaías 60. Por isso o Salmo 72 é o salmo responsorial da Solenidade da Epifania do Senhor, quando a Igreja celebra a manifestação de Cristo a todos os povos. A festa de Cristo Rei também ajuda a entender o tipo de realeza que o salmo anuncia: um reino de justiça, de amor e de paz.

O salmo tem ainda uma dimensão social clara. A justiça para os pobres não é um detalhe do reino, mas o seu centro. O Catecismo apresenta os salmos reais entre as formas de oração do Saltério (CIC n. 2588). Rezar o Salmo 72 é também rezar pelos governantes, para que sirvam ao bem comum e protejam os mais fracos.

Reflexão para hoje

O Salmo 72 propõe um critério simples para avaliar qualquer poder: como ele trata os pobres? Isso vale para presidentes e prefeitos, mas também para chefes, pais de família e líderes de comunidade. Cada um de nós tem alguma autoridade sobre alguém. O salmo pergunta: essa autoridade tem sido como chuva que faz brotar ou como seca que mata?

A frase sobre o sangue do pobre ser precioso desafia nossa indiferença. Um morador de rua, um imigrante, um idoso esquecido num asilo: aos olhos de Cristo Rei, a vida deles é preciosa. Quem se aproxima do pobre se aproxima do reino.

E o salmo convida à adoração. Como os magos, somos chamados a levar os nossos presentes a Cristo: o ouro do que temos, o incenso da oração, a mirra dos sofrimentos oferecidos. Não é preciso vir de Társis ou de Sabá; basta reconhecer nele o Rei.

Para rezar com o Salmo 72

  • Sobre quem eu exerço alguma autoridade? Como tenho tratado os mais fracos?
  • O que posso oferecer a Cristo Rei hoje, como os magos ofereceram seus presentes?
  • Tenho rezado pelos governantes, para que façam justiça aos pobres?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, Rei da justiça e da paz, que o teu reino chegue a toda a terra. Dá aos que governam um coração atento aos pobres. Faz que eu veja a vida de cada necessitado como preciosa aos teus olhos. Recebe o pouco que eu tenho, a minha oração e os meus sofrimentos, como os magos te ofereceram os seus presentes. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588; Lecionário Dominical (Solenidade da Epifania do Senhor).

Perguntas sobre Salmo 72

Por que o Salmo 72 é rezado na Epifania?

Porque ele fala dos reis de Társis, das ilhas, de Sabá e de Seba trazendo presentes e de todas as nações servindo ao rei. A Igreja vê nessa imagem um anúncio dos magos que vieram adorar Jesus (Mt 2,11) e usa este salmo como responsorial na Solenidade da Epifania.

Quem é o rei do Salmo 72?

O título liga o salmo a Salomão, e ele foi rezado pelos reis da dinastia de Davi. Mas os desejos de um reinado eterno, universal e totalmente justo ultrapassam qualquer rei humano, e por isso a tradição judaica e cristã o leu como anúncio do Messias.

O que significa o fim das orações de Davi no Salmo 72?

O último versículo é uma nota editorial que fecha o segundo livro dos Salmos (Salmos 42 a 72). Ele indica que ali terminava uma antiga coleção de orações atribuídas a Davi, embora outros salmos de Davi apareçam depois.

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