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Salmo 71: não me abandones na velhice explicado

Leia Salmo 71 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 71 é a oração de alguém que envelheceu confiando em Deus. Ele lembra que o Senhor é seu apoio desde o ventre materno e sua esperança desde a juventude, e pede: não me rejeites no tempo da velhice. Mesmo cercado de adversários, o salmista promete louvar a Deus a vida inteira e anunciar suas obras às gerações futuras.

Contexto do Salmo 71

Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 70. Diferente da maior parte dos salmos vizinhos, ele não tem título no texto hebraico. Por isso não há atribuição de autor. Alguns estudiosos o leem como continuação do Salmo 70, com o qual tem afinidade de tom, e certos manuscritos hebraicos chegam a juntar os dois. Os versículos iniciais são muito parecidos com o começo do Salmo 31 (Sl 31,2-4).

É uma súplica individual com muita confiança e louvor. O traço mais marcante é que o próprio orante fala da sua idade: juventude, velhice e cabelos brancos aparecem no texto. Por isso costuma ser chamado de oração do idoso. O salmo é construído com muitas expressões tomadas de outros salmos, como quem passou a vida rezando e agora reza com a memória cheia de palavras da Escritura. Sem título, a numeração dos versículos na Bíblia da CNBB vai do 1 ao 24.

Explicação do Salmo 71

Versículos 1 a 4: refúgio e rocha

O salmo começa com uma declaração de confiança: em Deus o salmista se refugia, e pede para nunca ser envergonhado. Pela justiça de Deus, isto é, pela sua fidelidade, pede que seja libertado e salvo. Deus é chamado de rocha de refúgio, casa fortificada, rochedo e fortaleza.

Ele pede também que Deus o livre da mão do ímpio, do injusto e do violento. Desde o início, o salmo mistura confiança e perigo: a vida do salmista não está livre de ameaças.

Versículos 5 a 8: desde o ventre materno

Aqui aparece um dos temas centrais: o Senhor é a esperança do salmista desde a juventude. E mais: desde o ventre materno ele se apoia em Deus, e foi Deus quem o tirou do seio da mãe. Por isso o louvor é contínuo.

O versículo 7 diz que ele se tornou um prodígio, ou um sinal, para muitos. Pode significar que a sua vida, cheia de provações e de socorros de Deus, chama a atenção dos outros. Por isso a sua boca está cheia de louvor o dia inteiro.

Versículos 9 a 13: não me rejeites na velhice

O coração do salmo está no versículo 9, o pedido de não ser rejeitado no tempo da velhice. Quando as forças diminuem, o salmista pede que Deus não o abandone. É um pedido muito humano. A velhice pode trazer fragilidade, dependência e o medo de ser deixado de lado.

Os inimigos se aproveitam dessa fraqueza. Falam contra ele e espreitam a sua vida, dizendo que Deus o abandonou e que ninguém virá salvá-lo. É a tentação mais dolorosa: pensar que Deus se esqueceu. O salmista responde com oração: ó Deus, não fiques longe de mim, vem depressa em meu socorro. E pede que os acusadores fiquem envergonhados.

Versículos 14 a 16: esperar sempre

O tom muda para a confiança decidida. O salmista diz que continuará esperando sempre e que vai louvar a Deus cada vez mais. Sua boca anunciará a justiça e a salvação de Deus o dia inteiro, embora não saiba contar todas. Ele entrará na celebração das grandes obras do Senhor e lembrará somente a justiça de Deus.

Versículos 17 e 18: até os cabelos brancos

Deus ensinou o salmista desde a juventude, e até hoje ele anuncia as suas maravilhas. Agora, na velhice e com cabelos brancos, pede que Deus não o abandone até que possa anunciar o seu poder à geração que vem. A velhice ganha um sentido: é o tempo de transmitir a fé. O idoso é guardião da memória das obras de Deus.

Versículos 19 a 21: das profundezas da terra

A justiça de Deus chega até as alturas, e ele fez grandes coisas. Ninguém é como ele. O salmista reconhece que Deus o fez passar por muitas angústias e males, mas confia que Deus voltará a dar-lhe vida e o fará subir das profundezas da terra. A expressão indica o perigo de morte. Para o leitor cristão, ela lembra a esperança da ressurreição. O salmista confia que Deus aumentará a sua dignidade e voltará a consolá-lo.

Versículos 22 a 24: o louvor com a harpa

O salmo termina com música. O salmista promete louvar a fidelidade de Deus com a harpa e cantar com a cítara ao Santo de Israel, título de Deus muito usado pelo profeta Isaías. Seus lábios e a sua alma resgatada vão exultar, e a sua língua falará o dia inteiro da justiça de Deus, porque os que buscavam o seu mal foram confundidos.

O que o Salmo 71 ensina para a fé católica?

O Salmo 71 ensina que toda a vida humana, do ventre materno à velhice, está nas mãos de Deus. A Igreja defende a dignidade da vida em todas as suas fases, inclusive no começo e no fim, porque cada pessoa é amada e sustentada por Deus desde o seio da mãe (Sl 139,13; Jr 1,5).

Também mostra o valor dos idosos na comunidade de fé. Eles não são um peso, mas testemunhas que transmitem às novas gerações o que Deus fez. O Catecismo lembra que os salmos são pessoais e comunitários ao mesmo tempo e se estendem a todas as dimensões da história (CIC n. 2586). Aqui, a história de uma vida inteira se torna louvor para os que vêm depois.

A tentação de pensar que Deus abandonou é vencida pela oração perseverante. A esperança do salmista, que confia ser levantado das profundezas da terra, encontra em Cristo ressuscitado a sua resposta plena. A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas, e muitos idosos o encontram como companheiro de oração.

Reflexão para hoje

O Salmo 71 é um presente para quem está envelhecendo e para quem cuida de alguém que envelhece. Para o idoso, ele dá palavras ao medo de ser esquecido e lembra que Deus não aposenta ninguém. Rezar, aconselhar, contar histórias de fé aos netos é uma missão real.

Para os filhos e netos, o salmo é um convite a escutar. Quantas histórias de fé se perdem porque não temos paciência de ouvir os avós? Perguntar a eles como conheceram Deus, como rezavam, o que viveram, é uma forma de receber a herança que o salmo descreve.

E para todos, o salmo sugere olhar a própria vida como uma história acompanhada por Deus desde o começo. Mesmo as angústias por que passamos podem, um dia, virar motivo de louvor, quando percebemos que Deus nos fez subir das profundezas. Uma ideia simples é rezar o terço em família, deixando que os mais velhos conduzam.

Para rezar com o Salmo 71

  • Em que momentos da minha vida percebo que Deus me sustentou desde o começo?
  • O que eu gostaria de transmitir às gerações mais novas sobre Deus?
  • Há algum idoso na minha família ou comunidade que precisa da minha presença?

Sugestão de oração:

Senhor, desde o ventre materno tu és o meu apoio e desde a juventude a minha esperança. Não me abandones quando as forças diminuírem. Fica perto de mim e dá-me vida para anunciar as tuas maravilhas aos que vêm depois. Abençoa os idosos da minha família e ensina-me a cuidar deles com amor. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2586.

Perguntas sobre Salmo 71

O Salmo 71 é a oração de um idoso?

Sim, o próprio texto diz isso. O salmista fala da juventude, dos cabelos brancos e da velhice, e pede que Deus não o abandone quando as forças diminuírem. É uma das orações mais bonitas da Bíblia para quem envelhece.

O que significa 'desde o ventre materno tu és meu apoio'?

É a certeza de que Deus acompanha a pessoa desde antes de ela ter consciência disso. Toda a história de vida, do nascimento à velhice, é vista como cuidado contínuo de Deus.

Por que o Salmo 71 fala de anunciar às gerações futuras?

Porque o idoso tem uma missão: contar aos mais jovens o que Deus fez. O salmista pede para viver o suficiente para transmitir a fé e a memória das obras de Deus à geração seguinte.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.