O Salmo 70 é uma das orações mais curtas e urgentes do Saltério. Em poucos versículos, o salmista pede que Deus venha depressa socorrê-lo, deseja que os que o perseguem sejam confundidos e que os que buscam a Deus se alegrem. Termina com a confissão de quem é pobre e necessitado. Seu primeiro versículo deu origem à invocação que abre as horas da oração da Igreja.
Contexto do Salmo 70
Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 69. O título hebraico o atribui a Davi, para o mestre de canto, com uma indicação que significa algo como "para fazer lembrar". A mesma indicação aparece no Salmo 38. O sentido exato é discutido: pode ser um pedido para que Deus se lembre do orante, ou uma referência a um rito do culto.
É uma súplica individual muito breve. Seu texto é quase idêntico ao final do Salmo 40 (Sl 40,14-18), com pequenas diferenças, como o uso do nome de Deus. Os estudiosos pensam que essa oração circulava de modo independente e foi conservada em dois lugares do Saltério. Também se nota uma ligação com o Salmo 71, que vem logo depois e retoma o mesmo tom. Na Bíblia da CNBB o título é o versículo 1, e a oração vai do versículo 2 ao 6.
Explicação do Salmo 70
Versículo 2: socorro sem demora
O salmo começa sem introdução, como quem grita no meio do perigo: ó Deus, vem libertar-me; Senhor, apressa-te em socorrer-me. A palavra-chave é a pressa. O salmista não tem tempo para longos discursos. Ele precisa de ajuda agora.
Esse versículo tem uma história especial na oração cristã. Na sua forma latina, ele se tornou a abertura das horas da Liturgia das Horas, que em português se reza assim: Vinde, ó Deus, em meu auxílio; socorrei-me sem demora. Antes de louvar, a Igreja reconhece que precisa da ajuda de Deus até para rezar.
No século V, João Cassiano, nas suas Conferências, põe na boca do abade Isaac, monge do deserto do Egito, a recomendação de repetir este versículo em todas as situações, na tentação, no cansaço, na alegria e na tristeza, como oração breve e contínua (Conferências, X). É uma das raízes da tradição da oração breve repetida ao longo do dia.
Versículos 3 e 4: os que buscam a minha vida
O salmista pede que fiquem envergonhados e confundidos os que procuram tirar a sua vida, que recuem cobertos de vergonha os que desejam o seu mal. E que se retirem, envergonhados, os que zombam dele com expressões de escárnio, como quem diz "bem feito".
O pedido não é de destruição, mas de confusão: que os planos dos inimigos fracassem e que eles percebam que estavam errados. A vergonha, na Bíblia, é muitas vezes o início do reconhecimento do próprio erro.
Versículo 5: a alegria dos que buscam a Deus
Em contraste, o salmista pede que todos os que buscam a Deus se alegrem e exultem nele, e que os que amam a sua salvação digam sempre: Deus é grande. A oração pessoal se abre para a comunidade dos fiéis. O socorro de Deus a um pobre é motivo de alegria para todos os que esperam nele.
Note a expressão "os que amam a tua salvação". Não se trata só de querer ser salvo de um perigo, mas de amar a própria salvação que vem de Deus, ou seja, amar a Deus que salva.
Versículo 6: pobre e necessitado
O salmo termina como começou, com urgência. O salmista se apresenta como pobre e necessitado e pede que Deus se apresse em vir até ele. Deus é o seu auxílio e o seu libertador. A última súplica é: Senhor, não tardes.
A palavra pobre, nos salmos, não indica só a falta de dinheiro. Indica a pessoa que não tem outro apoio além de Deus. É a atitude que Jesus chama bem-aventurada: felizes os pobres em espírito (Mt 5,3).
O que o Salmo 70 ensina para a fé católica?
O Salmo 70 ensina que até a oração depende da graça. Ao começar cada hora do Ofício pedindo a ajuda de Deus, a Igreja confessa que não sabemos rezar como convém e que o Espírito vem em socorro da nossa fraqueza (Rm 8,26). O Catecismo lembra que o pedido é a forma mais espontânea da oração e já é um retorno a Deus (CIC n. 2629).
O salmo também ajuda a entender a Liturgia das Horas como oração de toda a Igreja. O Catecismo a chama de oração pública da Igreja, que santifica o curso do dia (CIC n. 1174). Cada vez que um padre, uma religiosa ou um leigo começa uma hora com o versículo deste salmo, une-se a milhões de pessoas no mundo inteiro.
A atitude do pobre que só conta com Deus é a mesma de Maria, que no Magnificat se alegra porque Deus olhou para a humildade da sua serva (Lc 1,48). Ela é modelo dos que amam a salvação de Deus.
Reflexão para hoje
Às vezes não temos tempo nem cabeça para longas orações. Um susto no trânsito, uma notícia ruim no telefone, uma discussão que começa a esquentar em casa. O Salmo 70 oferece uma oração para esses momentos: Vinde, ó Deus, em meu auxílio; socorrei-me sem demora. Cabe numa respiração.
Os monges antigos sabiam disso. Repetir esse versículo ao longo do dia, ao começar o trabalho, antes de uma conversa difícil, ao sentir uma tentação, é uma forma simples de manter o coração voltado para Deus. Não é fórmula mágica, mas um modo de lembrar que não estamos sozinhos.
O salmo também ensina humildade. Dizer "sou pobre e necessitado" não é fácil num mundo que valoriza a autossuficiência. Mas é a verdade sobre nós diante de Deus, e é dessa verdade que nasce a confiança. Quem quiser começar o dia assim pode experimentar a oração das Laudes.
Para rezar com o Salmo 70
- Em que situações do meu dia eu poderia repetir: socorrei-me sem demora?
- Consigo reconhecer diante de Deus que sou pobre e necessitado?
- Eu amo a salvação de Deus, ou só peço socorro quando estou em perigo?
Sugestão de oração:
Vinde, ó Deus, em meu auxílio; Senhor, socorrei-me sem demora. Eu sou pobre e necessitado, e só em vós encontro apoio. Desfazei os planos do mal e alegrai todos os que vos procuram. Não tardeis, Senhor, porque sois o meu auxílio e o meu libertador. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1174 e 2629; João Cassiano, Conferências, X; Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 70
Por que o Salmo 70 é tão parecido com o Salmo 40?
O Salmo 70 tem relação com a Liturgia das Horas?
O que significa o título 'para fazer lembrar'?
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