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Salmo 69: o zelo por tua casa me devora explicado

Leia Salmo 69 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 69 é a súplica de alguém que se sente afundar em águas profundas, perseguido sem motivo justamente por ser fiel a Deus. Ele descreve o desprezo da família, a zombaria do povo e o fel e o vinagre que lhe deram. O Novo Testamento cita este salmo várias vezes ao falar da Paixão de Jesus. Termina com um louvor confiante: Deus ouve os pobres.

Contexto do Salmo 69

Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 68. O título hebraico o atribui a Davi, para o mestre de canto, segundo a melodia dos lírios. A atribuição é tradicional, e o título não indica uma situação histórica. A menção, no fim, da reconstrução das cidades de Judá leva alguns estudiosos a pensar num período posterior, talvez depois do exílio, mas há debate.

É uma súplica individual de um justo perseguido, com uma longa parte de imprecações e um final de louvor e esperança. Depois do Salmo 22, é provavelmente o salmo mais citado no Novo Testamento para falar dos sofrimentos de Cristo. Na Bíblia da CNBB o título é o versículo 1, e o texto vai do versículo 2 ao 37.

Explicação do Salmo 69

Versículos 2 a 5: as águas chegam ao pescoço

O salmo começa com um grito: salva-me, ó Deus, porque as águas me chegam ao pescoço. O salmista se sente afundar num lodo profundo, sem apoio para os pés, arrastado pela correnteza. A imagem da água que sufoca é típica dos salmos para falar de uma angústia mortal (Sl 18,5-6; Jn 2,4-6).

Ele está cansado de gritar, a garganta queima, os olhos se gastam de tanto esperar por Deus. Os que o odeiam sem motivo são mais numerosos que os cabelos da sua cabeça. Pedem que ele devolva o que não roubou. Jesus aplica a si a frase sobre o ódio sem motivo, quando fala do ódio do mundo contra ele e contra os discípulos (Jo 15,25).

Versículos 6 a 13: sofrer por causa de Deus

O salmista não se declara perfeito. Reconhece diante de Deus as suas faltas: Deus conhece a sua insensatez. Mas o motivo da perseguição é outro. Ele pede que os que esperam em Deus não sejam envergonhados por sua causa.

O centro desta parte é o versículo 10, a conhecida frase sobre o zelo pela casa de Deus que devora o salmista (Sl 69,10). Por amor à casa de Deus, ele carrega insultos, e os ultrajes dirigidos a Deus caem sobre ele. Tornou-se estranho para os irmãos, um desconhecido para os filhos da sua mãe. Quando jejua e se veste de saco em sinal de penitência, zombam dele. Os que se sentam à porta da cidade falam dele, e os bêbados fazem canções sobre ele.

O Evangelho de João lembra este versículo quando Jesus expulsa os vendedores do Templo: os discípulos recordam que está escrito que o zelo pela casa de Deus o devoraria (Jo 2,17). São Paulo cita a segunda parte, sobre os insultos que caem sobre o justo, para dizer que Cristo não buscou o que lhe agradava (Rm 15,3).

Versículos 14 a 19: o pedido de socorro

O salmista volta à oração. No tempo favorável, pede que Deus responda pela grandeza do seu amor e pela fidelidade da sua salvação. Retoma as imagens do lodo e das águas profundas: que não seja tragado pelo abismo, que o poço não feche a boca sobre ele. Pede que Deus não esconda a face do seu servo, que se aproxime e o resgate.

Versículos 20 a 22: o fel e o vinagre

Deus conhece a vergonha e a desonra que ele sofre. O insulto partiu seu coração. Esperou compaixão, mas não houve; procurou quem o consolasse e não encontrou. Em vez de alimento, deram-lhe fel; na sua sede, deram-lhe vinagre para beber.

Os Evangelhos contam que, na cruz, deram a Jesus vinho misturado com fel e, depois, uma esponja com vinagre (Mt 27,34.48). João relata que Jesus disse "Tenho sede" para que se cumprisse a Escritura, e então lhe ofereceram vinagre (Jo 19,28-30). A solidão do salmista, sem ninguém para consolá-lo, lembra também o abandono de Jesus pelos discípulos.

Versículos 23 a 29: as imprecações

Esta é a parte mais dura do salmo. O salmista pede que a mesa dos inimigos se torne armadilha, que seus olhos se escureçam, que a ira de Deus caia sobre eles, que o acampamento deles fique deserto, que culpa seja acrescentada à culpa e que sejam apagados do livro da vida.

É preciso ler esses versículos com seriedade, sem suavizá-los e sem se escandalizar. Eles nascem de um sofrimento extremo e expressam, na linguagem forte do Oriente antigo, o desejo de que Deus faça justiça. O salmista não se vinga com as próprias mãos: entrega a causa a Deus. O Novo Testamento usa estes versículos de modo profético: Paulo os aplica à cegueira de parte de Israel diante do Evangelho, que ele espera ser passageira (Rm 11,9-11), e Pedro aplica o versículo sobre o acampamento deserto a Judas (At 1,20).

O cristão reza estas palavras à luz de Cristo, que, sofrendo o que o salmo descreve, rezou pelos que o crucificavam (Lc 23,34) e ensinou a amar os inimigos (Mt 5,44). Elas se tornam um grito contra o mal e a injustiça, e não contra as pessoas.

Versículos 30 a 37: Deus ouve os pobres

O tom muda. O salmista diz que é pobre e sofredor, e pede que a salvação de Deus o proteja. Promete louvar o nome de Deus com cânticos e engrandecê-lo com ação de graças. Isso agrada mais a Deus do que um touro com chifres e cascos: o louvor sincero vale mais que o sacrifício de animais (Sl 50,14; Os 6,6).

Os humildes veem e se alegram, porque o Senhor ouve os pobres e não despreza os seus prisioneiros. Céus, terra e mares são convidados ao louvor. O salmo termina com uma esperança coletiva: Deus salvará Sião e reconstruirá as cidades de Judá, e os descendentes dos seus servos habitarão ali.

O que o Salmo 69 ensina para a fé católica?

A Igreja lê o Salmo 69 como uma profecia da Paixão. O justo que sofre por causa da casa de Deus, desprezado pelos seus e saciado com vinagre, é figura de Cristo. O Catecismo ensina que Cristo rezou os salmos e lhes deu pleno cumprimento (CIC n. 2586). Rezar este salmo diante do crucifixo é acompanhar Jesus nos seus sofrimentos.

O salmo também ilumina o sofrimento dos cristãos perseguidos. Quem sofre por ser fiel participa dos sofrimentos de Cristo (1Pd 4,13). E o final mostra que o sofrimento não é a última palavra: Deus ouve os pobres e reconstrói.

Quanto às imprecações, o Catecismo lembra que, entre os traços comuns dos salmos, está a luta do fiel contra os inimigos, vivida na confiança e na entrega à vontade de Deus (CIC n. 2589). A Igreja não arranca essas páginas da Bíblia: ela as reza unida a Cristo, que venceu o mal com o amor. Por motivos pastorais, a Liturgia das Horas deixa fora três salmos em que predomina a imprecação (os Salmos 58, 83 e 109) e omite alguns versículos desse tipo em outros salmos, como explica a Instrução Geral da Liturgia das Horas (n. 131). Essa escolha diz respeito à oração pública e não tira esses textos da Bíblia, que continuam sendo Palavra de Deus.

Reflexão para hoje

Há momentos em que a vida parece um lodo sem fundo. A depressão, uma traição, a incompreensão dos próprios familiares podem dar a sensação de que as águas chegam ao pescoço. O Salmo 69 dá palavras para essas horas. Ele não pede que finjamos estar bem.

O salmo também consola quem sofre por ser fiel: o jovem que é ridicularizado por ir à Missa, a pessoa que perde oportunidades por não aceitar uma desonestidade no trabalho. O salmista conheceu esse desprezo, e Jesus também. Não estamos sozinhos.

E as imprecações? Podem ser rezadas com honestidade. Às vezes sentimos raiva diante da injustiça. Melhor entregá-la a Deus do que guardá-la ou descarregá-la sobre os outros. Rezar a raiva diante do crucifixo é deixar que Deus a transforme, até que possamos rezar, como Jesus, pelos que nos fazem mal.

Para rezar com o Salmo 69

  • Em que situação eu sinto que as águas chegam ao meu pescoço?
  • Já sofri desprezo por ser fiel a Deus? Como reagi?
  • Há alguém contra quem guardo raiva que preciso entregar a Deus?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, tu conheceste o desprezo, a solidão e o vinagre na cruz. Quando eu me sentir afundar, estende a tua mão e tira-me do lodo. Faz justiça aos que sofrem sem motivo e ensina-me a entregar a ti a minha raiva. Tu ouves os pobres: ouve também a minha súplica. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Instrução Geral da Liturgia das Horas, n. 131; Catecismo da Igreja Católica, n. 2586 e 2589.

Perguntas sobre Salmo 69

Por que o Salmo 69 é ligado à Paixão de Jesus?

Porque o Novo Testamento o cita várias vezes falando de Cristo: o zelo pela casa de Deus (Jo 2,17), o ódio sem motivo (Jo 15,25), os insultos que caem sobre ele (Rm 15,3) e o vinagre oferecido na cruz (Mt 27,48). Depois do Salmo 22, é um dos salmos mais citados sobre a Paixão.

Como entender as maldições do Salmo 69?

Elas expressam, na linguagem forte da época, o desejo de que Deus faça justiça contra quem persegue o inocente. O cristão as reza deixando o juízo a Deus e seguindo Jesus, que na cruz pediu perdão para os que o crucificavam (Lc 23,34).

Qual é a esperança no final do Salmo 69?

O salmista afirma que Deus ouve os pobres e não despreza os seus prisioneiros. Promete louvar com cânticos, o que agrada a Deus mais que um touro oferecido em sacrifício, e anuncia que Deus salvará Sião e reconstruirá as cidades de Judá.

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