O Salmo 68 é um hino grandioso à vitória de Deus. Ele descreve o Senhor que se levanta e dispersa os inimigos, que é pai dos órfãos e defensor das viúvas, que caminhou com o povo pelo deserto e subiu ao seu santuário em Sião. Termina convidando todos os reinos da terra a cantar ao Deus de Israel. É um dos salmos mais difíceis e mais ricos do Saltério.
Contexto do Salmo 68
Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 67. O título hebraico o atribui a Davi, um salmo, um cântico, para o mestre de canto. A atribuição é tradicional, e o título não descreve nenhuma situação histórica.
Os estudiosos concordam que este é um dos textos mais complexos dos salmos. Tem muitas palavras que aparecem só aqui, mudanças bruscas de cena e versículos de tradução incerta. Há várias hipóteses sobre sua origem: alguns pensam numa coleção de cantos antigos reunidos, outros numa liturgia de procissão até o Templo. Não há consenso, e as traduções variam bastante em alguns versículos.
Mesmo assim, o fio condutor é claro: a marcha triunfal de Deus, do Sinai ao santuário de Jerusalém, com o povo em procissão. O gênero é o de um hino de vitória. Na Bíblia da CNBB o título é o versículo 1, e o texto vai do versículo 2 ao 36.
Explicação do Salmo 68
Versículos 2 a 4: Deus se levanta
O salmo abre com uma frase que lembra o grito de Moisés quando a arca da aliança partia no deserto: levanta-te, Senhor, e sejam dispersos os teus inimigos (Nm 10,35). Os inimigos se dissipam como fumaça e se derretem como cera diante do fogo. Os justos, ao contrário, se alegram e exultam diante de Deus.
Versículos 5 a 7: o Deus dos fracos
O convite é cantar a Deus, aquele que cavalga sobre as nuvens. A imagem, conhecida também de povos vizinhos, é usada aqui para afirmar que só o Senhor domina o céu. Logo em seguida o salmo apresenta outro lado desse Deus poderoso: ele é pai dos órfãos e defensor das viúvas na sua santa morada.
Deus dá uma casa aos que estão sozinhos e liberta os prisioneiros, levando-os à prosperidade, enquanto os rebeldes ficam na terra seca. O poder de Deus está a serviço dos pequenos. Esse traço atravessa toda a Bíblia (Dt 10,18; Tg 1,27).
Versículos 8 a 11: a marcha no deserto
O salmo recorda o Êxodo. Quando Deus saiu à frente do seu povo e marchou pelo deserto, a terra tremeu e os céus derramaram chuva diante dele, o Deus do Sinai. São imagens da manifestação de Deus no monte, com trovões e tremores (Ex 19,16-18).
Deus fez cair uma chuva generosa sobre a sua herança cansada e a restaurou. O seu povo, comparado a um rebanho, encontrou morada, e Deus, na sua bondade, preparou-a para o pobre.
Versículos 12 a 15: a vitória anunciada
O Senhor dá uma palavra, e as mensageiras da boa notícia são uma grande multidão. Em Israel, as mulheres costumavam celebrar as vitórias com canto e dança, como Miriam após a travessia do mar (Ex 15,20-21). Os reis inimigos fogem, e quem ficou em casa reparte os despojos.
Os versículos 14 e 15 estão entre os mais obscuros de todo o Saltério, e as traduções diferem bastante. O versículo 14 parece falar de quem ficou descansando entre os currais, talvez uma alusão às tribos que não foram à guerra no cântico de Débora (Jz 5,16), e menciona asas de pomba cobertas de prata, com penas de ouro reluzente. Alguns veem na pomba uma imagem de Israel; outros, um objeto precioso tomado como despojo. O versículo 15 diz que, quando o Todo-poderoso dispersou os reis, caiu neve sobre o Salmon. O Salmon pode ser o monte perto de Siquém citado em Jz 9,48, ou uma elevação na região de Basã; não há certeza. A ideia geral parece ser o brilho da vitória e os reis espalhados como flocos de neve, mas é honesto dizer que o sentido exato não é seguro.
Versículos 16 a 19: o monte que Deus escolheu
Aparece então uma cena poética: o monte de Basã, alto e de muitos picos, olha com inveja para o monte que Deus escolheu para morar. Basã era uma região alta a nordeste, do outro lado do Jordão, conhecida pelas pastagens férteis e pelo gado forte (Am 4,1). Mas Deus não escolheu o monte mais alto; escolheu Sião, uma colina modesta.
Os carros de Deus são milhares, e o Senhor vem do Sinai ao santuário. O versículo 19 diz que Deus subiu ao alto, levou cativos e recebeu dons dos homens. É a imagem do rei vitorioso que sobe ao trono com os prisioneiros de guerra. São Paulo cita esse versículo e o aplica a Cristo, que subiu ao céu e, em vez de receber, distribuiu dons aos homens (Ef 4,8-10).
Versículos 20 a 24: o Deus que carrega o nosso fardo
Em meio à linguagem de guerra, surge um versículo de grande ternura: bendito seja o Senhor, dia após dia, que carrega o nosso fardo; ele é o Deus da nossa salvação. Deus é o Deus que salva e que tem os caminhos para escapar da morte.
Os versículos seguintes voltam à linguagem dura de batalha: Deus esmaga a cabeça dos inimigos e promete trazê-los de volta de Basã e das profundezas do mar, para que o pé do povo se banhe no seu sangue. São imagens próprias da poesia de guerra do antigo Oriente. Expressam a certeza de que nenhum inimigo escapa ao domínio de Deus, e não devem ser lidas como incentivo à violência. A leitura cristã as entende como a vitória definitiva de Deus sobre o mal.
Versículos 25 a 28: a procissão
Agora se vê a procissão de Deus entrando no santuário. À frente vão os cantores, atrás os músicos, e no meio as moças tocando tamborins. O povo é convidado a bendizer a Deus nas assembleias. Estão lá as tribos: o pequeno Benjamim à frente, os príncipes de Judá, os chefes de Zabulon e de Neftali. O sul e o norte de Israel aparecem unidos no louvor.
Versículos 29 a 32: as nações trazem presentes
O povo pede que Deus mostre de novo a sua força. Por causa do Templo em Jerusalém, os reis trarão presentes. A fera do caniçal, talvez uma imagem do Egito, com seus pântanos do Nilo, é repreendida. Do Egito virão os nobres, e a Etiópia estenderá as mãos para Deus. É uma visão em que até os antigos opressores reconhecem o Deus de Israel.
Versículos 33 a 36: cantai, reinos da terra
O salmo termina com um convite universal: reinos da terra, cantai a Deus. Ele cavalga os céus antigos e faz ouvir a sua voz cheia de força. Seu poder está sobre Israel, e a sua força nas nuvens. Deus é temível no seu santuário e dá força e poder ao seu povo. A última palavra é um grito de louvor: bendito seja Deus.
O que o Salmo 68 ensina para a fé católica?
A tradição cristã leu o Salmo 68 à luz da Páscoa de Cristo. O versículo que fala de Deus que sobe ao alto levando cativos é aplicado por São Paulo à Ascensão do Senhor (Ef 4,8). Cristo vence o pecado e a morte, sobe ao Pai e derrama dons sobre a Igreja: apóstolos, profetas, evangelizadores, pastores e mestres (Ef 4,11).
O salmo também revela algo essencial sobre Deus: o mesmo Senhor que domina o céu é pai dos órfãos e defensor das viúvas. A Igreja recebe esse traço como missão. O cuidado com os pobres, os sozinhos e os presos não é um detalhe, mas parte do rosto de Deus que ela anuncia.
O Catecismo lembra que os salmos refletem as obras de Deus na história e as experiências humanas, e que podem ser rezados por homens de todas as épocas (CIC n. 2588). Até os versículos guerreiros, lidos à luz de Cristo, se tornam oração pela vitória do bem sobre o mal. A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas.
Reflexão para hoje
O versículo 20 pode acompanhar qualquer dia de trabalho: bendito seja o Senhor, que carrega o nosso fardo dia após dia. Há cansaços que ninguém vê: o cuidado com um parente doente, as contas que não fecham, a preocupação com um filho. O salmo diz que Deus não só observa de longe, mas carrega conosco.
O salmo também desafia. Se Deus é pai dos órfãos e dá uma casa aos sozinhos, quem são os sozinhos ao meu redor? Um vizinho idoso, um colega recém-chegado à cidade, uma viúva da comunidade. Às vezes Deus quer usar as nossas mãos para cumprir o que promete.
E há a lição do monte de Basã. Deus não escolheu o monte mais alto. Não precisamos ser os maiores nem os mais brilhantes para que Deus habite em nós. Ele gosta de escolher o que é pequeno.
Para rezar com o Salmo 68
- Qual fardo eu preciso deixar que Deus carregue comigo hoje?
- Quem são os órfãos, as viúvas e os sozinhos da minha comunidade?
- Em que momentos da minha vida vi Deus abrir caminho onde parecia não haver saída?
Sugestão de oração:
Senhor, levanta-te e dispersa o mal que nos ameaça. Tu és pai dos órfãos e defensor das viúvas. Bendito sejas dia após dia, porque carregas o nosso fardo. Cristo subiu ao alto e nos deu os seus dons: faz que eu os use para servir aos pequenos. Bendito seja Deus. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588.
Perguntas sobre Salmo 68
Por que o Salmo 68 é considerado difícil?
O que significa 'pai dos órfãos e defensor das viúvas'?
Como São Paulo usa o Salmo 68?
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