O Salmo 59 é a súplica de alguém cercado por inimigos que o espreitam como cães famintos rondando a cidade à noite. O salmista se declara inocente, pede a Deus que se levante para salvá-lo e termina cantando, de manhã, o amor de Deus, a sua fortaleza e o seu refúgio no dia da angústia.
Contexto do Salmo 59
O Salmo 59 corresponde ao Salmo 58 na numeração litúrgica. O título indica a melodia “não destruas”, atribui o salmo a Davi, chama-o de miktam e o situa quando Saul mandou vigiar a casa de Davi para matá-lo.
O episódio está em 1 Samuel 19,11-17. Saul, com inveja de Davi, enviou mensageiros para vigiar a casa e matá-lo de manhã. Mical, filha de Saul e esposa de Davi, o avisou e o fez descer pela janela durante a noite. A imagem dos inimigos que rondam à noite combina com essa cena. O salmo, porém, fala também de “nações”, o que leva muitos estudiosos a pensar que foi adaptado ao uso da comunidade.
Pelo gênero, é uma súplica individual com elementos de confiança e louvor. Tem dois refrões que se repetem: o dos cães que voltam à tarde (vv. 7 e 15) e o de Deus, minha fortaleza (vv. 10 e 18). O título ocupa o versículo 1 na numeração da CNBB.
Explicação do Salmo 59
Versículos 2 a 6: livra-me dos meus inimigos
O salmista pede: livra-me dos meus inimigos, ó meu Deus, protege-me dos que se levantam contra mim, livra-me dos malfeitores e salva-me dos homens sanguinários. Eles armam emboscadas e se reúnem contra ele.
Ele insiste na sua inocência: não por culpa ou pecado meu, Senhor; sem falta minha eles correm e se preparam. A história de Davi confirma isso: ele servia fielmente a Saul, e foi perseguido por inveja. Por isso o salmista pede que Deus desperte, venha ao seu encontro e veja. Ele chama Deus de Senhor dos exércitos, Deus de Israel, e pede que castigue as nações e não tenha piedade dos traidores.
Versículos 7 a 11: os cães e a fortaleza
Primeiro refrão: voltam à tarde, uivam como cães e rondam a cidade. Nas cidades antigas, cães sem dono andavam em bandos à noite, procurando restos de comida. A imagem é de inimigos insistentes, barulhentos, que não dão descanso. Da boca deles saem espadas; eles pensam: quem nos ouve?
Mas o Senhor ri deles e zomba de todas as nações. A imagem do riso de Deus aparece também no Salmo 2,4: a arrogância humana é pequena diante dele. Então vem o segundo refrão: “Ó minha força, a ti eu volto o olhar, pois Deus é a minha fortaleza” (Sl 59,10). O meu Deus vem ao meu encontro com o seu amor, e me fará ver a derrota dos meus inimigos.
Versículos 12 a 14: que aprendam a lição
O salmista faz um pedido curioso: não os mates, para que o meu povo não esqueça; dispersa-os com o teu poder e derruba-os, Senhor, nosso escudo. Ele quer que a queda dos inimigos seja lenta e visível, como lição para todos. Pelo pecado da boca, pelas palavras dos seus lábios, que fiquem presos na própria soberba.
Depois pede que Deus os consuma, para que se saiba até os confins da terra que Deus governa em Jacó. O objetivo final não é a vingança, mas que todos reconheçam que Deus reina.
Versículos 15 a 18: de manhã cantarei o teu amor
O refrão dos cães volta: à tarde eles voltam, uivam e rondam, vagueiam em busca de comida e rosnam se não se fartam. Mas agora o contraste é com a manhã. Eu cantarei a tua força e, de manhã, celebrarei o teu amor, porque foste a minha fortaleza e o meu refúgio no dia da angústia.
A noite é dos cães; a manhã é do louvor. Como no Salmo 57, a manhã é o tempo da salvação. O salmo termina com o segundo refrão ampliado: ó minha força, a ti cantarei, pois Deus é a minha fortaleza, o Deus do meu amor.
O que o Salmo 59 ensina para a fé católica?
O Salmo 59 ensina a oração do inocente perseguido. A tradição cristã sempre viu nesses salmos uma prefiguração de Cristo, o justo perseguido sem culpa, que nada fez de mal e foi cercado por inimigos. Jesus mesmo disse que o odiaram sem motivo (Jo 15,25, citando os salmos).
Ensina também que Deus é fortaleza e refúgio. O Catecismo, ao falar dos salmos, destaca a confiança na fidelidade de Deus em meio aos inimigos e às tentações (CIC n. 2589). A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas, e o tema da passagem da noite para a manhã ecoa na oração das Laudes, que celebra a vitória da luz.
Por fim, o pedido para que os inimigos não sejam mortos logo, mas sirvam de lição, pode ser lido à luz da paciência de Deus, que dá tempo para a conversão (2Pd 3,9). O cristão pede que o mal seja derrotado de forma que todos reconheçam Deus e se convertam.
Reflexão para hoje
Há problemas que voltam toda noite, como os cães do salmo. Uma preocupação financeira, uma doença, uma briga que não se resolve, um pensamento que não nos deixa dormir. De dia parecem controlados; à noite voltam a uivar. O salmo conhece essa experiência.
A resposta do salmista é voltar o olhar para Deus. Ó minha força, a ti eu volto o olhar. Antes de dormir, pode ser útil fazer exatamente isso: entregar a Deus o que nos inquieta, como em uma oração da noite antes de dormir. E, de manhã, começar o dia com louvor, lembrando que Deus foi refúgio na noite.
O salmo também consola quem é perseguido sem motivo. Ser inocente e sofrer parece injusto, e é. Mas Deus vê a inocência e vem ao encontro com o seu amor. A última palavra do salmo é “o Deus do meu amor”.
Para rezar com o Salmo 59
- Quais são os “cães” que voltam a uivar nas minhas noites?
- Para onde eu volto o meu olhar quando a angústia aperta?
- Começo o dia lembrando o amor de Deus?
Sugestão de oração:
Ó minha força, a ti eu volto o olhar. Tu és a minha fortaleza e o meu refúgio no dia da angústia. Quando as preocupações rondarem a minha noite, guarda-me. E, de manhã, que eu cante o teu amor, ó Deus da minha vida. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 59
Qual é a situação do Salmo 59?
O que significam os cães que rondam a cidade?
Por que o salmista pede que Deus não mate logo os inimigos?
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