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Salmo 58: contra os juízes injustos, explicação

Leia Salmo 58 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 58 é uma denúncia forte contra os juízes e poderosos que distorcem a justiça. O salmista os descreve como ímpios desde o ventre, venenosos como a serpente surda, e pede que Deus quebre o seu poder. As imagens são duras, mas a conclusão é clara: existe um Deus que julga a terra, e o justo não ficará sem recompensa.

Contexto do Salmo 58

O Salmo 58 corresponde ao Salmo 57 na numeração litúrgica. O título é parecido com o do anterior: indica a melodia “não destruas”, atribui o salmo a Davi e o chama de miktam. Não menciona nenhum episódio histórico.

Pelo gênero, é um salmo de denúncia profética e de súplica pela justiça, com trechos imprecatórios, isto é, que pedem a Deus o castigo dos maus. Lembra os profetas que acusam os juízes corruptos, como Isaías 1,23 e Miqueias 3,9-11. O hebraico de alguns versículos é muito difícil, e as traduções variam bastante. O título ocupa o versículo 1 na numeração da CNBB.

Explicação do Salmo 58

Versículos 2 e 3: a acusação contra os poderosos

O salmo começa com uma pergunta irônica: acaso falais de fato a justiça, ó poderosos? Julgais com retidão os filhos dos homens? A palavra hebraica traduzida como poderosos pode significar também “deuses”, e muitos entendem que se refere aos juízes, que recebiam de Deus a tarefa de julgar (como no Salmo 82). A resposta é negativa: no coração praticam a injustiça, e na terra as suas mãos pesam a violência.

A imagem da balança aparece de modo invertido. O juiz devia pesar o direito; eles pesam a violência. A justiça, que deveria proteger o fraco, virou instrumento de opressão.

Versículos 4 a 6: a serpente surda

O salmista descreve os ímpios com dureza. Desde o ventre se desviaram, desde o nascimento erram, dizendo mentiras. É uma forma poética de dizer que estão profundamente enraizados no mal, não uma doutrina sobre o destino das pessoas. O veneno deles é como veneno de serpente, de uma víbora surda que tapa os ouvidos para não ouvir a voz do encantador, por mais hábil que seja.

No Oriente antigo, havia encantadores de serpentes. A cobra que não responde ao encantador é imagem de quem fecha os ouvidos a qualquer apelo, a qualquer correção. O pior não é só fazer o mal, mas recusar-se a ouvir.

Versículos 7 a 10: quebra-lhes os dentes

Vem então a parte mais dura: ó Deus, quebra-lhes os dentes na boca, arranca os dentes dos leõezinhos, Senhor. O salmista acumula imagens de desaparecimento: que se dissolvam como água que escorre, que murchem como erva pisada, que passem como a lesma que se desfaz, como um aborto que não vê o sol. Que sejam levados pelo vento antes que as panelas sintam o calor dos espinhos.

São imagens da cultura da época, exageradas de propósito, como num grito. O salmista não age; pede que Deus aja. Ele quer que o poder dos injustos acabe, que os dentes com que devoram os pobres sejam quebrados. É o clamor das vítimas de uma justiça corrompida.

Versículos 11 e 12: existe um Deus que julga

O final fala da alegria do justo ao ver a justiça de Deus. A imagem de lavar os pés no sangue do ímpio é da linguagem de guerra do Oriente antigo, e exprime a vitória completa sobre o mal. É preciso lê-la como linguagem poética de uma época, e não como modelo de sentimento para o cristão.

O ponto central é a última frase: “Sim, há recompensa para o justo; sim, há um Deus que julga sobre a terra” (Sl 58,12). Quando os juízes humanos falham, existe um juiz que não falha. Essa é a esperança do salmo.

O que o Salmo 58 ensina para a fé católica?

Primeiro, a dignidade da justiça. A Igreja ensina que quem exerce autoridade, sobretudo a de julgar, a recebe de Deus e deve exercê-la a serviço do bem comum e dos mais fracos. A corrupção do poder é um pecado grave contra a sociedade.

Segundo, como ler os salmos imprecatórios. O Catecismo lembra que os salmos espelham as situações humanas mais diversas e que podem ser rezados por pessoas de qualquer condição (CIC n. 2588), e que a oração dos salmos tem consciência dos inimigos e das tentações que cercam o fiel (CIC n. 2589). O Salmo 58 dá voz à indignação de quem sofre injustiça e entrega a Deus o juízo. Jesus leva essa oração mais longe: manda amar os inimigos e rezar pelos que nos perseguem (Mt 5,44), e na cruz reza pelos que o crucificam (Lc 23,34).

Na oração cristã, o pedido de destruição se dirige sobretudo contra o mal e o pecado, e não contra a salvação das pessoas. Pedimos a Deus que quebre os dentes da injustiça, que acabe com a opressão, e esperamos o juízo final, quando Cristo julgará com justiça. Por isso, na reforma da Liturgia das Horas, a Igreja deixou o Salmo 58 fora do saltério distribuído nas quatro semanas, junto com os Salmos 83 e 109, por causa do seu forte tom imprecatório (Instrução Geral da Liturgia das Horas, n. 131). O salmo continua sendo Palavra de Deus e pode ser lido e meditado na leitura pessoal da Bíblia.

Reflexão para hoje

Quem já sofreu uma injustiça, num processo, numa repartição pública, num emprego, sabe como é sentir que a balança está viciada. O Salmo 58 dá palavras a essa revolta. A Bíblia não pede que finjamos que está tudo bem diante da corrupção.

Mas o salmo também nos ensina o que fazer com a raiva: levá-la a Deus. Quem entrega a causa a Deus não precisa fazer justiça com as próprias mãos. A revolta vira oração, e a oração nos protege de nos tornarmos iguais aos injustos.

E há uma pergunta para cada um: em que pequena ou grande autoridade eu sou juiz? Pais, chefes, professores, síndicos, todos julgamos algo. Somos justos com quem está abaixo de nós? Ouvimos as duas partes, ou somos como a serpente surda?

Para rezar com o Salmo 58

  • Que injustiças me revoltam hoje? Já as levei a Deus em oração?
  • Onde eu exerço autoridade, sou justo e atento aos mais fracos?
  • Como posso rezar por quem me fez mal, sem negar a injustiça que sofri?

Sugestão de oração:

Senhor, juiz justo da terra, ouve o clamor de quem sofre injustiça. Quebra o poder da corrupção e da mentira, converte os corações dos que oprimem e sustenta os que esperam em ti. Livra-me do ódio e faz-me justo onde tenho responsabilidade. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Instrução Geral da Liturgia das Horas.

Perguntas sobre Salmo 58

Por que o Salmo 58 é tão duro?

Porque é um grito contra a injustiça de quem deveria julgar com retidão e usa o poder para oprimir. As imagens fortes exprimem a indignação de quem sofre e o desejo de que Deus faça justiça. A vingança é entregue a Deus, não feita com as próprias mãos.

Um cristão pode rezar o Salmo 58?

Sim. O salmo é Palavra de Deus e o cristão pode meditá-lo pedindo o fim do mal e da injustiça, à luz do mandamento de Jesus de amar os inimigos. Pelo seu tom imprecatório, a Liturgia das Horas não o inclui no saltério das quatro semanas.

Quem são os “deuses” ou poderosos do versículo 2?

O hebraico é difícil. Muitas traduções entendem que o salmo se dirige aos poderosos ou juízes, que exerciam uma autoridade recebida de Deus. O salmo os acusa de julgar com injustiça.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.