O Salmo 57 é a oração de alguém em grave perigo que se esconde à sombra das asas de Deus até que passe a desgraça. Cercado por inimigos comparados a leões, o salmista declara que o seu coração está firme e promete acordar a aurora com o seu canto. É um salmo que vai da noite da angústia à manhã do louvor.
Contexto do Salmo 57
O Salmo 57 corresponde ao Salmo 56 na numeração litúrgica. O título hebraico traz a indicação musical “não destruas”, talvez o nome de uma melodia, atribui o salmo a Davi, chama-o de miktam e o situa no momento em que Davi fugiu de Saul e se escondeu na caverna.
A Bíblia fala de duas cavernas na história de Davi: a de Adulam (1Sm 22,1) e a de En-Gadi, onde Davi poupou a vida de Saul (1Sm 24). O título não especifica qual. A caverna é um bom símbolo do salmo: escuridão, esconderijo, espera.
Pelo gênero, é uma súplica individual que se transforma em ação de graças. O refrão aparece nos versículos 6 e 12: eleva-te, ó Deus, acima dos céus, e sobre toda a terra brilhe a tua glória. Na numeração da CNBB, o título ocupa o versículo 1.
Explicação do Salmo 57
Versículos 2 a 4: à sombra das tuas asas
O salmo começa com um pedido duplo: tem piedade de mim, ó Deus, tem piedade, pois em ti se refugia a minha alma. E logo a imagem central: “à sombra das tuas asas me abrigo, até que passe a desgraça” (Sl 57,2). A imagem pode vir da ave que protege os filhotes, como Jesus usa ao falar da galinha que reúne os pintinhos (Mt 23,37). Pode lembrar também as asas dos querubins sobre a arca no Templo, sinal da presença de Deus.
O salmista clama ao Deus Altíssimo, que faz tudo por ele. Ele espera que Deus envie do céu a sua salvação, envergonhando quem o persegue. Deus enviará o seu amor e a sua fidelidade, apresentados quase como dois mensageiros que descem para socorrer.
Versículos 5 a 7: no meio dos leões
A situação é descrita com imagens fortes. O salmista está deitado no meio de leões que devoram homens. Os dentes deles são lanças e flechas, a língua é espada afiada. De novo, a arma principal dos inimigos é a palavra: calúnia, mentira, acusação.
No meio disso, o refrão: eleva-te, ó Deus, acima dos céus, e sobre toda a terra brilhe a tua glória. Em vez de pedir só pela própria salvação, o salmista pede que Deus seja glorificado. Ele sabe que a salvação dele será manifestação da glória de Deus.
Depois, uma imagem de justiça: os inimigos armaram uma rede para os seus pés e cavaram uma cova diante dele, mas caíram nela. O mal se volta contra quem o pratica, tema frequente nos salmos e nos Provérbios (Pr 26,27).
Versículos 8 a 12: desperta, aurora
Aqui o salmo muda de tom e se torna um canto de vitória. Firme está o meu coração, ó Deus, firme está o meu coração; vou cantar e tocar. O coração firme é o coração que não vacila, porque se apoia em Deus.
E vem a imagem mais bela: desperta, minha alma, despertai, harpa e cítara, “despertarei a aurora” (Sl 57,9). O salmista quer louvar tão cedo que ele mesmo acorda o dia. Depois de uma noite na caverna, entre leões, o louvor inaugura a manhã.
O louvor se abre para o mundo: eu te louvarei entre os povos, Senhor, e cantarei entre as nações, porque o teu amor é grande até os céus e a tua fidelidade até as nuvens. O salmo fecha com o refrão. Esses versículos são retomados no Salmo 108,2-6.
O que o Salmo 57 ensina para a fé católica?
O Salmo 57 ensina a confiança que se refugia em Deus enquanto a provação não passa. A fé não suprime a noite, mas ensina a esperar a manhã debaixo da proteção de Deus. A expressão “até que passe a desgraça” mostra que a crise tem fim.
A tradição cristã leu o despertar da aurora como imagem da Ressurreição. Cristo, como o salmista, desceu à escuridão da morte e despertou na madrugada da Páscoa. Por isso os salmos da manhã têm lugar especial na oração da Igreja, que nas Laudes celebra a luz do Ressuscitado. Para conhecer essa oração, veja como rezar as Laudes.
Ensina também que a oração pessoal se abre ao louvor universal. O salmista, salvo, quer cantar entre as nações. O Catecismo lembra que a oração dos salmos é sempre animada pelo louvor (CIC n. 2589).
Reflexão para hoje
Há momentos em que a vida parece uma caverna: escura, apertada, sem saída visível. O Salmo 57 não diz que basta sair correndo. Ele ensina a ficar à sombra das asas de Deus até que a tempestade passe. Às vezes a fé é exatamente isso: esperar com Deus, sem ver ainda a luz.
O salmo também tem um conselho prático para as manhãs. Muitos acordam e pegam o celular antes de qualquer coisa, e o dia começa com notícias, cobranças e ansiedade. O salmista acorda a aurora com louvor. Uma oração curta ao levantar, um sinal da cruz, um obrigado a Deus mudam o tom do dia.
E o coração firme não é um coração que nunca sente medo. É um coração que decidiu onde se apoiar. Essa firmeza se constrói no dia a dia, com pequenos atos de confiança.
Para rezar com o Salmo 57
- Qual é a “caverna” em que me encontro hoje?
- Como costumo começar o meu dia? Há lugar para o louvor?
- O meu coração está firme em Deus, ou se apoia em outras coisas?
Sugestão de oração:
Tem piedade de mim, ó Deus, pois em ti me refugio. À sombra das tuas asas espero até que passe a desgraça. Firma o meu coração, para que, ao amanhecer, eu desperte a aurora com o teu louvor. Que a tua glória brilhe sobre toda a terra. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 57
O que significa “à sombra das tuas asas”?
O que quer dizer “despertarei a aurora”?
O Salmo 57 aparece em outro lugar da Bíblia?
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