O Salmo 56 é a súplica de alguém cercado de inimigos que o perseguem o dia inteiro. No meio do medo, o salmista repete um refrão de confiança: em Deus confio e não temerei. Ele tem a certeza de que Deus conhece as suas andanças e guarda cada lágrima sua, como num odre precioso.
Contexto do Salmo 56
O Salmo 56 é o Salmo 55 na numeração litúrgica. O título hebraico é longo: indica uma melodia (“a pomba dos terebintos distantes”, de sentido incerto), atribui o salmo a Davi, chama-o de miktam (termo de significado discutido) e o situa no momento em que os filisteus o prenderam em Gat.
O episódio é contado em 1 Samuel 21,11-16. Fugindo de Saul, Davi foi buscar refúgio em Gat, cidade filisteia, terra de Golias. Reconhecido pelos servos do rei Aquis, teve medo e fingiu-se de louco para ser deixado em paz. O Salmo 34 também é ligado a esse episódio. O salmo, porém, fala em termos gerais, e pode ser rezado por qualquer pessoa perseguida.
Pelo gênero, é uma súplica individual com forte acento de confiança, marcada por um refrão. O título ocupa o versículo 1 na numeração da CNBB.
Explicação do Salmo 56
Versículos 2 a 5: quando tenho medo, confio em ti
O salmo começa pedindo piedade, porque há gente que persegue o salmista, ataca e oprime o dia inteiro. Os inimigos são muitos e o pressionam com arrogância. A sensação é de estar sempre acuado.
Mas logo vem uma frase de enorme simplicidade: “No dia em que eu temer, confiarei em ti” (Sl 56,4). O salmista não diz que não tem medo. Diz o que faz quando tem medo. A confiança não é ausência de medo; é a decisão de se apoiar em Deus no meio dele.
Então surge o refrão: em Deus, cuja palavra eu louvo, em Deus eu confio e não temerei; que me pode fazer um mortal? A palavra “mortal” (literalmente “carne”) lembra a fragilidade humana diante de Deus.
Versículos 6 a 8: as tramas dos inimigos
O salmista descreve os inimigos. O dia todo distorcem as suas palavras, os pensamentos deles são só para o mal. Reúnem-se, ficam à espreita, observam os seus passos, esperando tirar-lhe a vida. É a experiência de quem se sente vigiado e mal interpretado em tudo.
Ele pede que Deus não deixe impune tanta maldade e que, na sua ira, abata os povos. É uma súplica pela justiça de Deus, comum nos salmos, feita por quem não tem como se defender sozinho.
Versículo 9: as lágrimas no odre de Deus
Aqui está o versículo mais tocante do salmo. Tu contaste os passos da minha vida errante; recolhe as minhas lágrimas no teu odre; não estão elas registradas no teu livro? O odre era uma bolsa de couro usada para guardar água, vinho ou leite. Deus é imaginado como alguém que recolhe cada lágrima, como algo de valor, e anota cada sofrimento.
A “vida errante” pode lembrar a fuga de Davi de lugar em lugar. Deus conta cada passo dessa fuga. Nada da dor humana se perde diante dele. O Apocalipse dirá que, no fim, Deus enxugará toda lágrima dos olhos (Ap 21,4).
Versículos 10 a 12: Deus está do meu lado
O salmista agora tem certeza: os inimigos recuarão no dia em que ele clamar, porque sabe que Deus está a seu favor. São Paulo fará uma pergunta parecida: se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós? (Rm 8,31).
O refrão volta, ampliado: em Deus, cuja palavra louvo, no Senhor, cuja palavra louvo, em Deus confio e não temerei; que me pode fazer um homem?
Versículos 13 e 14: caminhar na luz da vida
O salmo termina com ação de graças. O salmista lembra os votos que fez e promete cumpri-los com sacrifícios de louvor. O motivo é que Deus livrou a sua vida da morte e os seus pés da queda, para que caminhe diante de Deus na luz dos vivos. A salvação não é só escapar do perigo, mas viver de novo na presença de Deus.
O que o Salmo 56 ensina para a fé católica?
O Salmo 56 ensina que Deus conhece e valoriza cada sofrimento humano. Jesus dirá que até os cabelos da nossa cabeça estão contados (Mt 10,30). Nenhuma lágrima é inútil diante de Deus. A fé cristã acrescenta que, unido à cruz de Cristo, o sofrimento pode ter valor redentor.
Ensina também a relação entre confiança e palavra de Deus. O refrão insiste: em Deus, cuja palavra louvo. A confiança do salmista se apoia na palavra que Deus deu, nas suas promessas. A Igreja, ao ler e rezar a Escritura, alimenta essa confiança.
A tradição cristã leu os salmos do justo perseguido como oração de Cristo e também da Igreja perseguida. A Igreja reza este salmo na Liturgia das Horas, em comunhão com todos os que sofrem.
Reflexão para hoje
O versículo 4 é talvez uma das orações mais úteis da Bíblia: quando eu tiver medo, confiarei em ti. Ele não pede que sejamos heróis sem medo. Ensina o que fazer com o medo. Diante de um exame médico, de uma entrevista de emprego, de uma conversa difícil, podemos repetir esse versículo.
A imagem das lágrimas no odre também consola muito. Há sofrimentos que ninguém vê: a mãe que chora escondida, o pai desempregado que não conta para a família, quem enfrenta a depressão em silêncio. O salmo garante que Deus vê e guarda cada lágrima. Nenhuma se perde.
E o final nos lembra o objetivo: caminhar diante de Deus na luz da vida. Superada a crise, não basta voltar à rotina; podemos viver com mais gratidão e cumprir o que prometemos a Deus na hora da aflição.
Para rezar com o Salmo 56
- Qual é o medo que mais me aperta hoje? Consigo dizer a Deus: nele eu confio?
- Acredito que Deus conhece e guarda as minhas lágrimas?
- Fiz alguma promessa a Deus num momento difícil e ainda não cumpri?
Sugestão de oração:
Senhor, quando eu tiver medo, confiarei em ti. Tu conheces os meus passos e guardas cada lágrima minha. Dá-me a paz de quem sabe que estás do meu lado. Livra-me da queda e faz-me caminhar diante de ti na luz da vida. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 56
O que significa “recolhe as minhas lágrimas no teu odre”?
Qual é o refrão do Salmo 56?
Em que situação o Salmo 56 teria sido rezado?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.