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Salmo 55: lança sobre o Senhor o teu fardo

Leia Salmo 55 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 55 é a oração de alguém em profunda angústia: cercado de violência na cidade e, o que é pior, traído por um amigo íntimo. O salmista deseja ter asas de pomba para fugir para longe. Mas, no fim, encontra outro caminho: lançar sobre o Senhor o seu fardo, confiando que Deus o sustentará.

Contexto do Salmo 55

O Salmo 55 corresponde ao Salmo 54 na numeração litúrgica. O título o atribui a Davi, o chama de maskil e indica acompanhamento de instrumentos de corda. Ele não liga o salmo a nenhum episódio. Alguns leitores pensam na revolta de Absalão e na traição de Aitofel, conselheiro de Davi (2Sm 15,12.31), mas é só uma sugestão.

Pelo gênero, é uma súplica individual, com lamento, denúncia e confiança. O texto é agitado, passa da dor à acusação e da acusação à confiança, como acontece com quem reza em meio a uma crise. Alguns trechos do hebraico são difíceis, e as traduções variam. O título ocupa o versículo 1 na numeração da CNBB.

Explicação do Salmo 55

Versículos 2 a 9: quem me dera asas de pomba

O salmo começa com um pedido para que Deus não se esconda da súplica. O salmista está agitado, gemendo, perturbado pela voz do inimigo e pela pressão dos maus. O coração se contorce no peito, os terrores da morte caem sobre ele, medo e tremor o invadem.

Então vem o desejo mais humano do salmo: “Quem me dera ter asas como a pomba, para voar e encontrar repouso!” (Sl 55,7). Ele queria fugir para longe, morar no deserto, encontrar abrigo contra a tempestade. Quem já passou por uma grande crise conhece essa vontade de sumir. A Bíblia não esconde esse sentimento; ela o coloca na boca de quem reza.

Versículos 10 a 12: a violência na cidade

O salmista pede que Deus confunda e divida a língua dos maus, lembrando a confusão das línguas em Babel (Gn 11,7-9). Ele vê violência e discórdia na cidade. Dia e noite, elas rondam as muralhas; dentro da cidade há maldade, opressão e fraude, que não se afastam das praças. A cidade, que deveria ser lugar de segurança e justiça, tornou-se lugar de medo.

Versículos 13 a 15: o amigo que traiu

Aqui está o centro da dor. Se fosse um inimigo que me insultasse, eu suportaria; se fosse um adversário, eu me esconderia. Mas és tu, meu companheiro, meu amigo íntimo, com quem eu partilhava doces conversas e com quem caminhava na multidão para a casa de Deus.

A traição de um amigo dói mais do que o ataque de um inimigo, porque nasce de uma confiança. E aqui o amigo era também companheiro de fé. A tradição cristã, ao rezar esse trecho, sempre pensou em Judas, que comeu com Jesus e o entregou. O Evangelho de João aplica a Judas outro salmo, o 41,10 (Jo 13,18), mas a experiência descrita aqui é muito próxima.

Versículos 16 a 22: a oração de tarde, de manhã e ao meio-dia

O salmista pede que a morte surpreenda os traidores e que desçam vivos ao Sheol, lembrando o castigo dos rebeldes Coré, Datã e Abiram (Nm 16,31-33). É uma linguagem dura, típica dos salmos de lamento, que entrega a Deus a justiça.

Depois, a confiança: eu clamo a Deus, e o Senhor me salva. À tarde, de manhã e ao meio-dia eu me queixo e gemo, e Ele ouve a minha voz. Esse ritmo de oração ao longo do dia lembra Daniel, que rezava três vezes por dia (Dn 6,11). Deus resgata a vida do salmista em paz, embora muitos estejam contra ele.

O salmista volta a falar do traidor: ele estendeu a mão contra os amigos e violou a aliança. Sua boca é mais suave do que a manteiga, mas no coração há guerra; suas palavras são mais macias que o azeite, mas são espadas desembainhadas.

Versículos 23 e 24: lança o teu fardo

Então vem o grande conselho do salmo: “Lança sobre o Senhor o teu fardo, e ele te sustentará” (Sl 55,23). Deus não deixará o justo vacilar para sempre. O desejo de fugir com asas de pomba se transforma em entrega confiante. Não é preciso fugir para o deserto; é possível entregar o peso a Deus.

O salmo termina com a certeza de que os violentos e enganadores não chegarão à metade dos seus dias, e com a frase decisiva do salmista: eu, porém, confio em ti.

O que o Salmo 55 ensina para a fé católica?

O Salmo 55 ensina que podemos levar a Deus os sentimentos mais fortes: medo, vontade de fugir, indignação diante da traição. O Catecismo diz que nos salmos se exprimem as situações humanas mais diversas, e que eles podem ser rezados por pessoas de qualquer condição e época (CIC n. 2588).

Ensina também a confiança como resposta ao sofrimento. São Pedro retoma o conselho do salmo quando escreve que devemos lançar sobre Deus toda a nossa preocupação, porque Ele cuida de nós (1Pd 5,7). E Jesus, traído por um amigo, entrega-se nas mãos do Pai, mostrando o sentido pleno dessa confiança.

O ritmo da oração “de tarde, de manhã e ao meio-dia” recorda a santificação das horas do dia que a Igreja vive na Liturgia das Horas, com as Laudes, a Hora Média e as Vésperas. Sobre isso, veja a Hora Média, santificando o trabalho.

Reflexão para hoje

Quase todo mundo, em algum momento, desejou ter asas de pomba para fugir: de um problema no casamento, de uma dívida, de um ambiente de trabalho tóxico. O salmo não nos julga por isso. Ele nos mostra que esse desejo pode virar oração.

A traição de um amigo é uma ferida difícil. Pode levar ao fechamento, à desconfiança de todos, ao desejo de vingança. O salmista conta a sua dor a Deus com toda a franqueza, mas termina dizendo: eu confio em ti. Contar a Deus é o primeiro passo para não deixar a ferida virar amargura.

O versículo 23 pode ser um exercício diário. Ao acordar ou antes de dormir, nomear o fardo do dia e entregá-lo ao Senhor. Ele não promete tirar todo o peso de uma vez, mas promete sustentar quem o entrega. Pode ajudar também esta oração em momentos de dificuldade e sofrimento.

Para rezar com o Salmo 55

  • Qual é o fardo que estou carregando sozinho e preciso lançar sobre o Senhor?
  • Existe alguma traição que ainda me fere? Já a entreguei a Deus?
  • Em que momentos do dia eu posso parar para rezar, como o salmista?

Sugestão de oração:

Senhor, às vezes eu queria ter asas para fugir de tudo. Tu conheces a minha angústia e as feridas que os outros me causaram. Eu lanço sobre ti o meu fardo; sustenta-me. Cura o meu coração da amargura e ensina-me a confiar em ti, como Jesus confiou no Pai. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica; Liturgia das Horas.

Perguntas sobre Salmo 55

O que significa “lança sobre o Senhor o teu fardo”?

É o conselho do versículo 23: entregar a Deus o peso das preocupações e dos sofrimentos, confiando que Ele sustenta quem é justo. São Pedro retoma essa ideia ao dizer para lançarmos sobre Deus toda a nossa preocupação, porque Ele cuida de nós (1Pd 5,7).

Por que o salmista quer “asas de pomba”?

Porque está tão angustiado que deseja fugir para longe, para o deserto, e encontrar descanso. É uma imagem muito humana do desejo de escapar dos problemas, que o salmo acaba transformando em confiança em Deus.

De quem é a traição descrita no Salmo 55?

O salmo fala de um companheiro íntimo, alguém com quem o salmista ia à casa de Deus. O título não identifica a pessoa. Muitos cristãos, ao rezá-lo, pensam na traição de Judas contra Jesus.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.