O Salmo 60 é um lamento do povo depois de uma derrota. A comunidade sente que Deus a rejeitou e que a terra treme, como depois de um terremoto. No meio do salmo, Deus fala e reafirma o seu domínio sobre Israel e sobre as nações vizinhas. O salmo termina com uma certeza: com Deus faremos proezas, porque é Ele quem vence.
Contexto do Salmo 60
O Salmo 60 corresponde ao Salmo 59 na numeração litúrgica. O título é o mais longo desta série: indica uma melodia (“o lírio do testemunho”), atribui o salmo a Davi, chama-o de miktam “para ensinar” e o liga às guerras de Davi contra os arameus de Aram-Naaraim e Aram-Soba, quando Joab voltou e derrotou doze mil edomitas no Vale do Sal.
Essas guerras são contadas em 2 Samuel 8 e 1 Crônicas 18. Os números e os nomes variam entre os textos: 2Sm 8,13 atribui a Davi uma vitória sobre dezoito mil homens no Vale do Sal; 1Cr 18,12 atribui a Abisai, irmão de Joab, a derrota de dezoito mil edomitas no mesmo vale; e o título do salmo fala de Joab e de doze mil. Curiosamente, o título fala de vitória, mas o salmo começa com derrota. Uma explicação possível é que, enquanto Davi lutava no norte, Edom atacou pelo sul, e o salmo reza nesse momento de crise antes da vitória.
Pelo gênero, é um lamento coletivo com um oráculo divino no centro. Os versículos 7 a 14 reaparecem no Salmo 108. Na numeração da CNBB, o título ocupa os versículos 1 e 2.
Explicação do Salmo 60
Versículos 3 a 7: tu nos rejeitaste
O salmo começa com uma queixa direta: ó Deus, tu nos rejeitaste, rompeste as nossas defesas, te irritaste; restaura-nos! A derrota é vista como sinal de que Deus se afastou. O povo não esconde a dor, mas também não se afasta de Deus: é a Ele que se queixa e é a Ele que pede restauração.
A imagem seguinte é de terremoto: fizeste tremer a terra, abriste fendas nela; repara as suas brechas, porque ela vacila. O país parece rachado. E mais: fizeste o teu povo provar coisas duras, deste-nos a beber um vinho que atordoa. A taça de vinho que faz cambalear é imagem bíblica do juízo de Deus (Is 51,17; Jr 25,15).
Mas há esperança: deste aos que te temem uma bandeira para se reunirem diante do arco. A bandeira era o ponto de reunião do exército. O povo pede: para que os teus amados sejam libertos, salva-nos com a tua direita e responde-nos.
Versículos 8 a 10: o oráculo de Deus
Então Deus fala no seu santuário, provavelmente pela boca de um sacerdote ou profeta. Ele fala como um guerreiro vitorioso que reparte a terra. Siquém e o vale de Sucot, Galaad e Manassés, regiões dos dois lados do Jordão, pertencem a Deus. Efraim, a tribo mais forte do norte, é o capacete da sua cabeça; Judá, a tribo de Davi, é o seu cetro.
Depois Deus fala dos vizinhos inimigos com imagens de desprezo e de domínio. Moab é a bacia em que Ele se lava, utensílio humilde de lavar os pés. Sobre Edom Ele lança a sua sandália, gesto de tomar posse de uma terra (comparar com Rt 4,7). Sobre a Filisteia Ele grita vitória. Todo o território, de Israel e das nações, está sob o senhorio de Deus.
Versículos 11 a 14: com Deus faremos proezas
Depois do oráculo, o povo, ou o rei, pergunta: quem me levará à cidade fortificada? Quem me conduzirá até Edom? A cidade fortificada pode ser Bosra ou Petra, cidades de Edom em lugares de difícil acesso. Não foste tu, ó Deus, que nos rejeitaste, e já não sais com os nossos exércitos? A pergunta é sincera: o povo sabe que só Deus pode dar a vitória, mas sente a sua ausência.
Então o pedido final: dá-nos socorro contra o inimigo, porque vão é o socorro do homem. E a conclusão confiante: “Com Deus faremos proezas, e ele calcará os nossos inimigos” (Sl 60,14). A força não vem dos exércitos, mas de Deus.
O que o Salmo 60 ensina para a fé católica?
O Salmo 60 ensina que o povo de Deus pode rezar também as suas derrotas. A Bíblia não esconde que Israel passou por crises e sentiu Deus distante. Os lamentos coletivos mostram que a fé não se mede pelo sucesso, mas pela fidelidade em voltar-se para Deus em qualquer situação.
Ensina também que a salvação vem de Deus e não da força humana. A frase vão é o socorro do homem ecoa em toda a Escritura. Jesus dirá que sem Ele nada podemos fazer (Jo 15,5), e São Paulo, que tudo pode naquele que o fortalece (Fl 4,13).
Na leitura cristã, as batalhas dos salmos ganham sentido espiritual: a luta do cristão é contra o pecado e o mal (Ef 6,12). A Igreja, que também atravessa tempos de crise, reza estes salmos na Liturgia das Horas, pedindo a Deus que repare as suas brechas e lhe dê a vitória do amor.
Reflexão para hoje
Há momentos em que uma família, uma paróquia ou uma comunidade inteira sente que tudo desabou. Um escândalo, uma perda, uma crise que divide as pessoas. O Salmo 60 dá palavras para rezar juntos nesses momentos: reconhecer a dor, pedir que Deus repare as brechas e não perder a esperança.
O salmo também nos lembra que, quando tudo vai bem, é fácil esquecer de onde vem a força. Quando as coisas dão errado, descobrimos que vão é o socorro do homem. A crise pode ser o lugar onde reaprendemos a contar com Deus.
E a última frase é um bom lema para os dias difíceis: com Deus faremos proezas. Não sozinhos, não pela nossa esperteza, mas com Deus. Essa confiança não tira o esforço; dá sentido a ele.
Para rezar com o Salmo 60
- Que “brechas” na minha família ou comunidade precisam ser reparadas por Deus?
- Nos momentos de derrota, eu me afasto de Deus ou me queixo a Ele?
- Em que eu ainda coloco a minha confiança no socorro dos homens?
Sugestão de oração:
Ó Deus, quando parece que nos rejeitaste e a terra treme debaixo dos nossos pés, restaura-nos. Repara as brechas da nossa família e da tua Igreja. Vão é o socorro do homem; dá-nos o teu auxílio. Contigo faremos proezas, porque és tu que vences o mal. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Liturgia das Horas.
Perguntas sobre Salmo 60
Qual é a situação do Salmo 60?
O que significa “Moab é a bacia em que me lavo” e “sobre Edom lanço a minha sandália”?
O Salmo 60 se repete em outro salmo?
Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.