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Salmo 61: ouve, ó Deus, o meu clamor explicado

Leia Salmo 61 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 61 é a oração curta e intensa de alguém que se sente longe e sem forças, mas não deixa de clamar a Deus. Ele pede para ser levado a um lugar seguro, deseja morar na tenda do Senhor e termina com a promessa de louvá-lo todos os dias. No meio, uma prece pelo rei liga a oração pessoal ao destino de todo o povo.

Contexto do Salmo 61

Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, este é o Salmo 60. O título hebraico o apresenta como salmo de Davi, para o mestre de canto, com instrumentos de corda. Essa atribuição é dada pela tradição; o título não indica em que momento da vida de Davi ele teria sido composto.

Quanto ao gênero, é uma súplica individual cheia de confiança, com um elemento de salmo real nos versículos 7 e 8, onde se reza pela vida do rei. Está entre vários salmos de súplica e confiança atribuídos a Davi nesta parte do Saltério. Na Bíblia da CNBB o título conta como versículo 1, e o texto da oração vai do versículo 2 ao 9.

Explicação do Salmo 61

Versículos 2 e 3: o clamor dos confins da terra

O salmo começa com um pedido simples: que Deus escute o grito e preste atenção à oração. O salmista diz que chama pelo Senhor desde os confins da terra, com o coração desfalecido. A expressão pode indicar um exílio real, longe de Jerusalém, mas também descreve um estado interior: a sensação de estar no limite, à beira do abismo.

Ele pede então que Deus o leve à rocha alta demais para ele. A rocha, nos salmos, é sinal de firmeza e proteção (Sl 18,3; Sl 62,3). O detalhe importante é que essa rocha está fora do seu alcance. O homem não consegue subir sozinho até o lugar seguro; é Deus quem precisa conduzi-lo.

Versículos 4 e 5: refúgio, torre e tenda

O salmista recorda a experiência passada: Deus já foi para ele refúgio e torre forte diante do inimigo. Por isso pode desejar com confiança morar para sempre na tenda do Senhor e abrigar-se à sombra das suas asas.

A tenda lembra a tenda do encontro do tempo do deserto e, mais tarde, o Templo: é o lugar da presença de Deus no meio do povo. As asas podem lembrar os querubins sobre a arca da aliança, ou simplesmente a imagem da ave que protege os filhotes (Dt 32,11; Sl 91,4). Nos dois casos, o desejo é o mesmo: viver perto de Deus, como hóspede permanente da sua casa.

Versículo 6: Deus ouviu os votos

Aqui a oração muda de tom. O salmista afirma que Deus ouviu os seus votos e lhe deu a herança dos que temem o seu nome. Os votos eram promessas feitas a Deus em tempo de angústia, que se cumpriam depois com sacrifícios e louvor. A herança lembra a terra prometida, dom de Deus a Israel. Quem teme o Senhor, isto é, quem o respeita e o ama, recebe dele o lugar onde viver.

Versículos 7 e 8: a oração pelo rei

De repente, o salmo reza pelo rei: que Deus acrescente dias aos seus dias, que os seus anos durem por gerações, que ele permaneça diante de Deus para sempre, guardado pelo amor e pela fidelidade do Senhor. Alguns estudiosos pensam que o próprio rei é quem reza o salmo; outros, que a oração pessoal foi adaptada para o culto do Templo. Há debate, e não é preciso decidir.

O sentido é claro: em Israel, o rei era o ungido do Senhor, responsável pelo povo. Pedir pela sua vida era pedir pela paz de todos. Os desejos de reinado que dura para sempre ultrapassam qualquer rei humano e lembram a promessa feita a Davi de uma descendência sem fim (2Sm 7,16). A tradição cristã viu nesses versículos uma abertura para Cristo, o Rei que vive para sempre diante do Pai.

Versículo 9: o louvor de cada dia

O salmo termina com um compromisso: cantar sem cessar o nome do Senhor e cumprir os votos dia após dia. A súplica que começou com um grito acaba em louvor e fidelidade cotidiana. A resposta à graça recebida não é um único gesto, mas uma vida inteira de gratidão.

O que o Salmo 61 ensina para a fé católica?

O Salmo 61 mostra que a oração nasce muitas vezes da fraqueza. O Catecismo ensina que o pedido é a forma de oração mais comum e espontânea, porque expressa a consciência de sermos criaturas e pecadores, e que esse pedido já é um retorno a Deus (CIC n. 2629). O salmista não esconde que está desfalecido; é justamente por isso que reza.

O desejo de morar na tenda de Deus encontra seu cumprimento em Cristo, o Verbo que armou sua tenda entre nós (Jo 1,14), e na Igreja, casa de Deus. Na Eucaristia, o fiel se abriga de modo especial à sombra das asas do Senhor.

A oração pelo rei também ensina algo: a fé não é só assunto individual. O Catecismo lembra que os salmos são ao mesmo tempo pessoais e comunitários, e que Cristo os rezou e lhes deu pleno cumprimento (CIC n. 2586). Por isso a Igreja reza os salmos na Liturgia das Horas, e nesta prece pelo rei aprende a rezar pelos que governam e pelo bem comum (1Tm 2,1-2).

Reflexão para hoje

Há momentos em que nos sentimos nos confins da terra: um diagnóstico difícil, um filho longe de casa, um desemprego que se arrasta, um luto. O Salmo 61 ensina que é possível rezar a partir desse lugar. Não é preciso estar bem para falar com Deus. Basta chamá-lo com o coração cansado.

A imagem da rocha alta demais também é consoladora. Muitas vezes queremos resolver tudo sozinhos e nos frustramos porque a saída está fora do nosso alcance. O salmista não finge ter forças; pede para ser levado. Confiar não é cruzar os braços, mas reconhecer que há coisas que só Deus pode fazer.

Por fim, o salmo termina com um louvor diário. A gratidão não se guarda para grandes ocasiões. Um momento de oração pela manhã, um obrigado antes das refeições, uma prece por quem nos governa: assim se cumprem os votos dia após dia.

Para rezar com o Salmo 61

  • Em que situação da minha vida eu me sinto hoje nos confins da terra?
  • Qual é a rocha alta demais para mim, que preciso pedir que Deus me ajude a alcançar?
  • Tenho rezado pelos que governam a minha cidade e o meu país?

Sugestão de oração:

Senhor, quando meu coração desfalece, escuta o meu clamor. Leva-me à rocha que eu não alcanço sozinho e guarda-me à sombra das tuas asas. Abençoa os que governam o teu povo e faz que eu cante o teu nome todos os dias da minha vida. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2586 e 2629.

Perguntas sobre Salmo 61

O que significa a rocha mais alta do Salmo 61?

É a imagem de um refúgio que a pessoa não alcança sozinha. O salmista pede que Deus o conduza a esse lugar seguro, reconhecendo que a proteção vem do Senhor e não das próprias forças.

Por que o Salmo 61 fala dos confins da terra?

A expressão indica alguém que se sente longe, talvez de Jerusalém e do Templo, talvez apenas abatido e sem forças. É o grito de quem está no limite e mesmo assim continua a rezar.

Qual a numeração do Salmo 61 na liturgia?

Na numeração litúrgica, que segue a Vulgata e a Bíblia grega, ele é o Salmo 60. Na Bíblia da CNBB, que segue a numeração hebraica, é o Salmo 61.

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