O Salmo 40 começa com a alegria de quem esperou no Senhor e foi tirado de um poço de lama. Agradecido, o orante entende que Deus não quer apenas sacrifícios, mas a entrega da própria vida: eis que venho para fazer a tua vontade. Depois, a oração volta a ser súplica, porque novos males o cercam. A carta aos Hebreus coloca estas palavras na boca de Cristo.
Contexto do Salmo 40
Na numeração litúrgica é o Salmo 39. O título o dedica ao mestre de canto e o atribui a Davi, segundo a tradição.
O salmo tem duas partes bem distintas. A primeira (versículos 2 a 11) é uma ação de graças individual. A segunda (versículos 12 a 18) é uma súplica. Os versículos 14 a 18 aparecem quase iguais no Salmo 70, o que leva muitos estudiosos a pensar que duas orações foram unidas. Seja como for, a ordem tem sentido: a lembrança do socorro passado sustenta o pedido presente. A Igreja usa este salmo na solenidade da Anunciação do Senhor, no dia 25 de março.
Explicação do Salmo 40
Versículos 2 a 4: tirado do poço
Depois do título (versículo 1), o orante diz: esperei, esperei no Senhor, e ele se inclinou para mim e ouviu o meu clamor. A repetição do verbo mostra uma espera longa e perseverante. Deus o tirou da cova da morte, do lodo do pântano, e colocou seus pés sobre a rocha, firmando seus passos. A imagem lembra Jeremias jogado na cisterna cheia de lama (Jr 38,6). Por fim, Deus colocou em sua boca um canto novo, e muitos, vendo isso, vão temer e confiar no Senhor.
Versículos 5 e 6: feliz quem confia
Da experiência pessoal nasce uma bem-aventurança: feliz o homem que põe a confiança no Senhor e não se volta para os soberbos nem para os que seguem a mentira. O salmista se admira: são tantas as maravilhas e os projetos de Deus em nosso favor que é impossível enumerá-los.
Versículos 7 a 9: não sacrifícios, mas obediência
Este é o centro do salmo. O orante percebe que Deus não deseja sacrifícios nem ofertas, não pede holocaustos nem vítimas pelo pecado. Em vez disso, abriu-lhe os ouvidos, isto é, tornou-o capaz de escutar e obedecer. Então ele responde: “Eis que venho. No rolo do livro está escrito a meu respeito” (Sl 40,8). E completa: meu Deus, desejo fazer a tua vontade, e a tua lei está no fundo do meu coração.
O salmo não condena o culto do Templo, mas mostra o que lhe dá valor: o coração que obedece. Os profetas diziam o mesmo, como Samuel ao afirmar que a obediência vale mais que o sacrifício (1Sm 15,22). A lei no coração lembra a promessa da nova aliança de Jeremias 31,33.
Versículos 10 e 11: o anúncio na assembleia
Quem foi salvo não guarda a notícia para si. O orante anunciou a justiça de Deus na grande assembleia, não fechou os lábios, não escondeu a fidelidade e o amor do Senhor. A gratidão se torna testemunho público.
Versículos 12 a 18: a nova súplica
O tom muda. O orante pede que Deus não lhe negue sua misericórdia, porque males sem número o cercam e suas culpas o alcançaram, tantas que nem consegue ver; são mais numerosas que os cabelos da cabeça, e o coração desfalece. Pede que Deus se apresse em salvá-lo, que se envergonhem os que querem tirar sua vida e se alegrem os que buscam o Senhor. O salmo termina com uma frase humilde e confiante: eu sou pobre e infeliz, mas o Senhor cuida de mim. Tu és meu auxílio e libertador; meu Deus, não demores.
O que o Salmo 40 ensina para a fé católica?
A carta aos Hebreus lê os versículos 7 a 9 como palavras de Cristo ao entrar no mundo. Ela cita a tradução grega, que em vez de abriste-me os ouvidos diz formaste-me um corpo. Assim, o Filho se oferece ao Pai num corpo humano para fazer a sua vontade, e por essa oferta somos santificados (Hb 10,5-10). O Catecismo cita essa passagem ao falar da Encarnação (CIC n. 462). Leia Hebreus 10.
Por isso a liturgia da Anunciação usa este salmo: no sim de Maria, o Filho de Deus assume um corpo, e começa a obediência que o levará até a cruz. O eis que venho de Cristo encontra eco no eis aqui a serva do Senhor de Maria (Lc 1,38).
O salmo também ensina o sentido do culto cristão. A Missa não é um rito exterior: nela se torna presente a oferta de Cristo, e os fiéis são chamados a unir a ela a própria vida, como oferta espiritual (Rm 12,1). Rezar este salmo é pedir um coração que faz a vontade de Deus.
Reflexão para hoje
Esperei, esperei no Senhor. Muitos conhecem essa espera: o tratamento que demora, o filho que se afastou da fé, a dívida que não termina. O salmo não esconde que a espera foi longa, mas testemunha que Deus se inclinou e ouviu. Ele nos convida a perseverar sem desistir da oração.
Depois da graça recebida, vem a pergunta: o que posso oferecer? O salmista descobre que Deus não quer coisas, quer a pessoa. Fazer a vontade de Deus no trabalho honesto, na paciência em casa, na fidelidade às promessas é a oferta que agrada a ele. Uma boa forma de rezar este salmo é começar o dia repetindo: eis-me aqui, Senhor, para fazer a tua vontade. Veja também a oração da manhã e oferecimento do dia.
Por fim, o salmo lembra que a vida de fé tem altos e baixos. Logo depois do canto novo, o orante volta a se sentir pobre e cercado de males. Isso é normal. A memória das graças passadas é o que permite pedir com confiança quando a dificuldade volta.
Para rezar com o Salmo 40
- De que poço Deus já me tirou, e eu lembro de agradecer?
- O que Deus espera de mim mais do que gestos exteriores?
- Com quem posso partilhar o que Deus fez na minha vida?
Sugestão de oração:
Senhor, tu te inclinaste para mim e ouviste o meu clamor. Firma os meus pés sobre a rocha e põe em minha boca um canto novo. Abre os meus ouvidos para escutar a tua Palavra e dá-me um coração que diga, como Jesus e como Maria: eis-me aqui para fazer a tua vontade. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica.
Perguntas sobre Salmo 40
Onde está o versículo eis que venho para fazer a tua vontade?
Por que o Salmo 40 diz que Deus não quer sacrifícios?
O Salmo 40 é usado em qual festa?
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