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Hebreus 10: eis que venho fazer a tua vontade

Leia Hebreus 10 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O sacerdote Melquisedec oferece pão e vinho a Abraão, figura de Cristo Sumo Sacerdote
Dieric Bouts, O Encontro de Abraão e Melquisedec, 1464–1467. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Hebreus 10 conclui a grande explicação sobre o sacerdócio de Cristo. Os sacrifícios antigos, repetidos todo ano, não podiam tirar os pecados; Cristo, ao entrar no mundo, disse ao Pai que vinha para fazer a sua vontade, e com uma única oferta santificou para sempre os que creem. Na segunda parte, o autor tira as consequências: aproximar-nos de Deus com confiança, não abandonar as reuniões da comunidade e perseverar na fé mesmo no sofrimento.

Contexto de Hebreus 10

Os capítulos 8 e 9 compararam a tenda antiga com o santuário celeste e o sangue dos animais com o sangue de Cristo. O capítulo 10 fecha essa parte teórica e, a partir do versículo 19, inicia a parte prática da carta, que segue até o final. É como se o autor dissesse: agora que vocês sabem quem é Cristo, vivam de acordo. Os leitores tinham passado por perseguições e estavam tentados a desanimar.

Explicação de Hebreus 10

Versículos 1 a 4: a sombra dos bens futuros

A Lei tinha apenas a sombra dos bens futuros, não a sua imagem real. Por isso, com os mesmos sacrifícios oferecidos continuamente, ano após ano, não podia levar à perfeição os que se aproximavam. Se pudesse, os sacrifícios teriam cessado, pois os que prestavam culto, uma vez purificados, não teriam mais consciência de pecado. Pelo contrário, esses sacrifícios renovavam a cada ano a lembrança dos pecados. É impossível, conclui o autor, que o sangue de touros e bodes tire os pecados.

Versículos 5 a 10: um corpo me preparaste

Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz as palavras do Salmo 40, segundo a antiga tradução grega: não quiseste sacrifício nem oferta, mas me formaste um corpo; holocaustos e sacrifícios pelo pecado não te agradaram. Então eu disse: “Eis que venho, ó Deus, para fazer a tua vontade” (Hb 10,7).

O autor coloca esse salmo na boca de Jesus no momento da Encarnação. O corpo que o Filho recebe no seio de Maria é o corpo que ele vai oferecer. O que agrada a Deus não são os animais sacrificados, mas a obediência amorosa do Filho. Os profetas já tinham dito algo parecido (por exemplo, 1Sm 15,22; Os 6,6).

Assim, Cristo suprime o primeiro regime para estabelecer o segundo. E é por essa vontade de Deus que somos santificados, pela oferta do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez por todas.

Versículos 11 a 18: sentado à direita

Todo sacerdote fica de pé, dia após dia, oferecendo muitas vezes os mesmos sacrifícios. Cristo, ao contrário, depois de oferecer um único sacrifício pelos pecados, sentou-se para sempre à direita de Deus. O contraste entre estar de pé e estar sentado é significativo: o trabalho do sacerdote antigo nunca terminava, o de Cristo está concluído. Ele espera agora que os seus inimigos sejam postos como estrado dos seus pés (Sl 110,1).

Com uma única oferta, ele levou à perfeição para sempre os que são santificados. O Espírito Santo o confirma na profecia da Nova Aliança (Jr 31,33-34), já citada no capítulo 8: não me lembrarei mais dos seus pecados. Onde há perdão, não há mais necessidade de oferta pelo pecado.

Versículos 19 a 25: aproximemo-nos

Agora começa a parte prática. Temos plena confiança para entrar no santuário pelo sangue de Jesus, por um caminho novo e vivo, que ele inaugurou através do véu, isto é, da sua carne. O véu que separava o Santo dos Santos é comparado ao corpo de Cristo: rasgado na cruz, ele abriu a passagem até Deus (ver Mc 15,38).

Daí três exortações. Aproximemo-nos com coração sincero, na plenitude da fé, com o coração purificado da má consciência e o corpo lavado com água pura, provável alusão ao batismo. Conservemos firme a esperança que professamos, porque é fiel quem fez a promessa. E prestemos atenção uns aos outros, para nos estimularmos ao amor e às boas obras.

O autor acrescenta: não abandonemos a nossa assembleia, como alguns costumam fazer, mas animemo-nos, tanto mais quanto vedes aproximar-se o Dia. Já no primeiro século havia cristãos que deixavam de participar das reuniões da comunidade.

Versículos 26 a 31: o pecado deliberado

Segue um alerta semelhante ao de Hebreus 6. Se pecarmos deliberadamente depois de ter recebido o conhecimento da verdade, já não resta sacrifício pelos pecados, mas apenas uma terrível expectativa do juízo. Quem rejeitava a Lei de Moisés era condenado com o testemunho de duas ou três pessoas (Dt 17,6). Que castigo maior merecerá quem pisou o Filho de Deus, profanou o sangue da aliança e ultrajou o Espírito da graça? É coisa terrível cair nas mãos do Deus vivo.

Aqui, como no capítulo 6, o autor fala da apostasia consciente, de quem rejeita Cristo e despreza o seu sacrifício. Fora do sacrifício de Cristo não existe outro. Não se trata de quem cai por fraqueza e busca o perdão, pois para este a misericórdia de Deus continua aberta.

Versículos 32 a 39: lembrar os primeiros dias

O tom muda para o encorajamento. Lembrai-vos dos primeiros dias, quando, depois de iluminados, suportastes uma grande luta de sofrimentos: ora expostos publicamente a insultos e tribulações, ora solidários com os que eram tratados assim. Tivestes compaixão dos presos e aceitastes com alegria que vos tomassem os bens, sabendo que possuís uma riqueza melhor e duradoura.

Não percais, pois, a vossa confiança, que tem grande recompensa. Precisais de perseverança. O autor cita Habacuc 2,3-4: ainda um pouco de tempo, e aquele que vem chegará; o meu justo viverá pela fé, mas, se recuar, não me agradará. E conclui com confiança: nós não somos dos que recuam para a perdição, mas dos que creem para salvar a alma.

O que Hebreus 10 ensina para a fé católica?

O Catecismo cita Hebreus 10,5-7 ao falar da Encarnação: o Filho recebe um corpo para cumprir a vontade do Pai (CIC n. 462). E apresenta essa resposta do Filho que entra no mundo como o ponto de chegada de toda a história da oração no Antigo Testamento (CIC n. 2568). Na liturgia, Hebreus 10,4-10 é proclamado na solenidade da Anunciação do Senhor, em 25 de março, quando celebramos o momento em que o Filho entrou no mundo.

A afirmação de que Cristo santificou para sempre com uma única oferta é base da doutrina eucarística. O Catecismo ensina que o sacrifício redentor de Cristo é único, realizado uma vez por todas, e no entanto é tornado presente no sacrifício eucarístico da Igreja (CIC n. 1545). A Missa não repete nem completa a cruz. É o mesmo e único sacrifício: a vítima é a mesma, e quem oferece é o mesmo Cristo, agora pelo ministério dos sacerdotes; só a maneira de oferecer é diferente, pois na cruz foi de modo cruento e na Missa é de modo incruento. Por isso a Eucaristia é memorial que torna presente o sacrifício da cruz e aplica os seus frutos (CIC n. 1366 e 1367). Veja a Oração Eucarística, centro da Missa.

O versículo 23 é citado pelo Catecismo ao explicar a virtude da esperança, que se apoia na fidelidade de quem prometeu (CIC n. 1817). E o versículo 25 mostra, desde o início, a importância da assembleia reunida. A Igreja vê no encontro dominical da comunidade uma exigência da própria fé: veja por que temos que ir à Missa todo domingo.

Reflexão para hoje

“Eis que venho fazer a tua vontade” pode ser a oração de cada manhã. Antes de pegar o celular, antes da correria, dizer a Deus: hoje eu quero fazer a tua vontade. É uma frase curta, mas muda o rumo do dia.

A exortação para não abandonar a assembleia toca muitos católicos que se afastaram da Missa. Às vezes por cansaço, às vezes por decepção com pessoas da comunidade. O autor não ignora essas dificuldades, mas insiste: precisamos uns dos outros. A fé vivida sozinha esfria. Na assembleia, somos animados e animamos.

Por fim, o capítulo fala a quem já sofreu pela fé ou pela justiça. Os primeiros leitores perderam bens e foram humilhados. Hoje alguém pode perder uma promoção por não aceitar uma desonestidade, ou ser ridicularizado na família por rezar. A carta diz: não percas a confiança. Há uma riqueza melhor e duradoura.

Para rezar com Hebreus 10

  • Consigo dizer a Deus, com sinceridade, que quero fazer a sua vontade hoje?
  • Tenho participado da assembleia da minha comunidade ou me afastei?
  • Que sofrimento pela fé eu preciso viver com mais confiança?

Sugestão de oração:

Senhor Jesus, que ao entrar no mundo disseste ao Pai que vinhas fazer a sua vontade, ensina-me a dizer o mesmo. Abre para mim o caminho novo e vivo até o Pai. Faz-me fiel à assembleia dos irmãos e dá-me perseverança, para que eu não recue, mas viva pela fé. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 462, 1366, 1367, 1545, 1817 e 2568.

Capítulos vizinhos: Hebreus 9 e Hebreus 11. Veja também Salmo 40 e Habacuc 2.

Perguntas sobre Hebreus 10

O que significa “eis que venho fazer a tua vontade” em Hebreus 10?

São palavras do Salmo 40 que o autor coloca na boca de Cristo ao entrar no mundo. Mostram que o que agrada a Deus é a obediência amorosa do Filho, que oferece o próprio corpo.

Hebreus 10,25 fala de ir à Missa?

O versículo pede que os cristãos não abandonem a assembleia da comunidade. A Igreja vê nisso o fundamento da participação na reunião dominical, que é a Missa.

O que é o pecado deliberado de Hebreus 10,26?

É a rejeição consciente de Cristo por quem já conheceu a verdade. Fora do sacrifício de Cristo não há outro, mas quem se arrepende encontra sempre a misericórdia de Deus.

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