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Salmo 105: Deus lembra sempre a sua aliança

Leia Salmo 105 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 105 é a história de Israel transformada em canto de louvor. Ele convida a dar graças e a lembrar as maravilhas de Deus, e depois recorda, passo a passo, a aliança com Abraão, Isaac e Jacó, a história de José no Egito, a missão de Moisés, as pragas, a saída do Egito e o cuidado de Deus no deserto. A mensagem é uma só: Deus nunca esquece a sua aliança.

Contexto do Salmo 105

Na numeração litúrgica e da Vulgata, este é o Salmo 104. O texto hebraico não tem título nem autor. Termina com “Aleluia”, e a tradição grega pôs essa palavra também no começo.

É um salmo histórico, como os Salmos 78, 106 e 136, e pode ser classificado como hino ou ação de graças. Os quinze primeiros versículos aparecem quase iguais no Primeiro Livro das Crônicas (1Cr 16,8-22), no cântico da chegada da Arca a Jerusalém. Ele forma um par com o Salmo 106: o 105 conta a história do ponto de vista da fidelidade de Deus; o 106 a conta do ponto de vista das infidelidades do povo. Muitos estudiosos pensam que foi composto depois do exílio, para reavivar a esperança do povo, mas não há certeza.

Explicação do Salmo 105

Versículos 1 a 6: lembrai as maravilhas

O salmo começa com uma série de convites: dai graças ao Senhor, invocai o seu nome, anunciai entre os povos as suas obras, cantai, falai das suas maravilhas, gloriai-vos no seu santo nome. Alegre-se o coração dos que buscam o Senhor. Buscai o Senhor e a sua força, procurai sempre a sua face. E o convite mais importante: recordai as maravilhas que ele fez, os seus prodígios e os julgamentos da sua boca. Os destinatários são a descendência de Abraão e os filhos de Jacó, o povo escolhido. A fé de Israel é uma fé de memória.

Versículos 7 a 11: a aliança eterna

Aqui está o centro do salmo. O Senhor é o nosso Deus, e os seus julgamentos valem para toda a terra. Ele se lembra para sempre da sua aliança (Sl 105,8), da palavra dada por mil gerações. É a aliança feita com Abraão (Gn 15; Gn 17), o juramento a Isaac (Gn 26,3) e a lei para Jacó, aliança eterna para Israel. O conteúdo da promessa é a terra: eu te darei a terra de Canaã como herança. Deus se lembra; o povo é convidado a lembrar também.

Versículos 12 a 15: os patriarcas peregrinos

Quando eram poucos, um punhado de estrangeiros na terra, os patriarcas andavam de nação em nação, de um reino para outro. Mas Deus não deixou ninguém oprimi-los e, por causa deles, repreendeu reis. O salmo resume esses episódios com as palavras de Deus: não toqueis nos meus ungidos, não façais mal aos meus profetas. Os patriarcas não eram ungidos com óleo, mas o salmo os chama assim porque eram escolhidos e protegidos por Deus. Os relatos do Gênesis sobre o faraó e sobre Abimelec mostram essa proteção (Gn 12,10-20; Gn 20; Gn 26).

Versículos 16 a 22: José, vendido e exaltado

O salmo conta a história de José com olhar de fé. Deus chamou a fome sobre a terra e cortou o sustento do pão. Mas antes enviou à frente um homem: José, vendido como escravo. Seus pés foram presos com correntes, o pescoço posto no ferro, até que se cumpriu a sua palavra, e a palavra do Senhor o provou. Então o rei mandou soltá-lo, e o soberano dos povos o libertou. Fez dele senhor da sua casa e administrador de todos os seus bens, para instruir os príncipes e ensinar sabedoria aos anciãos.

O que nos relatos do Gênesis parecia uma série de injustiças, a inveja dos irmãos, a escravidão, a prisão, aparece aqui como parte do plano de Deus. É o que o próprio José dirá aos irmãos: vocês planejaram o mal, mas Deus o transformou em bem (Gn 50,20).

Versículos 23 a 25: Israel no Egito

Israel entrou no Egito, e Jacó morou como estrangeiro na terra de Cam, nome bíblico do Egito. Deus fez o seu povo crescer muito e o tornou mais forte que os seus opressores. Então mudou o coração dos egípcios, que passaram a odiar o povo e a tratar seus servos com astúcia. O salmo atribui tudo a Deus, até o endurecimento dos inimigos, segundo o modo de falar bíblico que vê a mão de Deus por trás de toda a história, sem negar a responsabilidade humana.

Versículos 26 a 36: Moisés e as pragas

Deus enviou Moisés, seu servo, e Aarão, que ele escolhera. Eles realizaram sinais na terra de Cam. O salmo recorda as pragas numa ordem própria: as trevas, as águas transformadas em sangue que fizeram morrer os peixes, as rãs que invadiram até os quartos do rei, as moscas e os mosquitos, o granizo e o fogo que destruíram as videiras e as figueiras, os gafanhotos sem número que devoraram a vegetação e, por fim, a morte dos primogênitos.

São oito sinais, não dez como no Êxodo (Ex 7 a 12): faltam a peste do gado e as úlceras, e as trevas aparecem em primeiro lugar. O salmista não quer fazer um relatório exato, mas mostrar que Deus é Senhor da natureza e da história e que liberta o seu povo.

Versículos 37 a 41: a saída e o deserto

Deus fez o povo sair com prata e ouro, e entre as tribos não havia quem tropeçasse. O Egito se alegrou com a sua partida, porque o terror tinha caído sobre ele. No deserto, Deus estendeu uma nuvem para protegê-los e um fogo para iluminar a noite. Pediram, e ele trouxe codornizes e os saciou com o pão do céu. Abriu a rocha, e jorraram águas que correram como um rio no deserto. Curiosamente, o salmo não fala das murmurações do povo; elas ficam para o Salmo 106. Aqui, tudo é dom.

Versículos 42 a 45: para que guardassem a sua lei

O final explica o motivo de tudo: Deus se lembrou da sua palavra santa, dada a Abraão, seu servo. Fez sair o seu povo com alegria, os seus escolhidos com gritos de júbilo. Deu-lhes as terras das nações, e eles herdaram o fruto do trabalho dos povos. E a finalidade: para que guardassem os seus preceitos e observassem as suas leis. A liberdade é dada para que o povo viva na aliança. Aleluia!

O que o Salmo 105 ensina para a fé católica?

O salmo ensina que Deus age na história e é fiel às suas promessas. A fé bíblica não é uma ideia abstrata, mas a memória de um Deus que caminha com o seu povo. O Catecismo lembra que os salmos são o espelho das maravilhas de Deus na história do seu povo (CIC n. 2588).

Os cristãos leem esta história à luz de Cristo. A aliança com Abraão se cumpre em Jesus, descendente de Abraão, por quem a bênção chega a todos os povos (Gl 3,16). Maria canta no Magnificat que Deus se lembrou da sua misericórdia, conforme prometera a Abraão e à sua descendência para sempre (Lc 1,54-55), e Zacarias, no Benedictus, louva o Deus que se recorda da sua santa aliança (Lc 1,72-73). A oração do Benedictus é rezada todas as manhãs nas Laudes.

José, vendido pelos irmãos e depois exaltado para salvar muitos, foi visto pelos Padres da Igreja como figura de Cristo. A saída do Egito, o pão do céu e a água da rocha são figuras dos sacramentos: o Batismo e a Eucaristia (1Cor 10,1-4). Na Liturgia das Horas, a Igreja reza este salmo no ciclo do saltério.

Reflexão para hoje

A história de José é uma das mais consoladoras da Bíblia. Ele foi traído pela própria família, vendido, caluniado e esquecido na prisão. Durante anos, nada fazia sentido. Só depois ele entendeu que Deus estava conduzindo tudo. Muitas vezes vivemos capítulos assim: perdas, injustiças, esperas longas. O salmo convida a confiar que Deus escreve certo também nas páginas que ainda não entendemos.

O salmo também propõe um exercício de memória. Assim como Israel recordava sua história, cada família pode recordar a sua: como Deus nos sustentou numa crise, como chegou a fé até nós, como fomos libertados de alguma escravidão. Contar essas histórias aos filhos e netos é uma forma de transmitir a fé.

Por fim, o último versículo lembra que a liberdade tem uma finalidade. Deus libertou o povo para que vivesse segundo a sua lei. Também nós fomos libertados por Cristo não para fazer qualquer coisa, mas para amar e servir.

Para rezar com o Salmo 105

  • Que maravilhas de Deus eu posso recordar na história da minha vida e da minha família?
  • Há alguma situação que hoje parece sem sentido, como a prisão de José?
  • Uso a liberdade que Deus me deu para viver segundo a sua vontade?

Sugestão de oração:

Senhor, eu te dou graças e quero recordar as maravilhas que fizeste. Tu te lembras sempre da tua aliança e nunca abandonas os teus. Como guiaste José na prisão e Israel no deserto, guia também a mim e à minha família nas horas que não entendo. Dá-me a graça de viver na tua lei e de contar aos que vêm depois as tuas obras. Aleluia. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2588; Liturgia das Horas.

Perguntas sobre Salmo 105

Do que fala o Salmo 105?

Ele recorda a história de Israel, de Abraão até a entrada na terra prometida, passando por José, Moisés e as pragas do Egito, para louvar a fidelidade de Deus à sua aliança.

Por que o Salmo 105 cita oito pragas e não dez?

O salmista não quis fazer uma lista completa como o Êxodo, mas uma recordação poética. Ele omite a peste do gado e as úlceras e muda a ordem, pondo as trevas em primeiro lugar.

Qual a diferença entre o Salmo 105 e o Salmo 106?

Os dois contam a história de Israel. O Salmo 105 destaca a fidelidade de Deus; o Salmo 106 destaca as infidelidades do povo e a misericórdia que as perdoa.

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