O Salmo 106 é uma longa confissão de pecados feita em nome de todo o povo. Ele percorre a história de Israel, do Mar Vermelho até a vida na terra de Canaã, e mostra uma infidelidade que se repete geração após geração. Mas o fio que costura tudo é outro: a misericórdia de Deus, que se lembra da sua aliança e salva de novo.
Contexto do Salmo 106
Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 105. Começa e termina com Aleluia e fecha o quarto livro dos Salmos com a bênção do versículo 48. É um salmo histórico de tom penitencial, irmão do Salmo 105: aquele canta as maravilhas de Deus; este confessa as respostas ingratas do povo.
O título hebraico não indica autor. O pedido final, para que Deus reúna o povo do meio das nações, faz muitos estudiosos pensarem no tempo do exílio ou logo depois, mas a datação é discutida. Os versículos 1 e 47 a 48 aparecem também no canto atribuído a Davi em 1 Crônicas 16,34-36.
Explicação do Salmo 106
Versículos 1 a 5: louvor e um pedido pessoal
O salmo abre com a fórmula clássica de louvor: dar graças ao Senhor porque ele é bom e o seu amor é para sempre. Logo pergunta quem poderá narrar as proezas de Deus e declara felizes os que praticam a justiça. Então o orante pede algo para si: que Deus se lembre dele quando favorecer o seu povo, para que veja a felicidade dos eleitos. Quem vai confessar os pecados do povo não se coloca de fora; quer participar da salvação de todos.
Versículos 6 a 12: pecamos com nossos pais
O versículo 6 é a chave do salmo: pecamos como nossos pais, cometemos a iniquidade. O orante não acusa os antepassados para se desculpar; reconhece que a sua geração está unida a eles no mesmo pecado. A primeira lembrança é o Mar Vermelho. Mal saíram do Egito, os israelitas esqueceram os prodígios e se revoltaram junto ao mar (Ex 14,11-12). Mesmo assim, Deus os salvou por causa do seu nome, secou o mar e os fez passar como por um deserto. Então creram nas suas palavras e cantaram o seu louvor (Ex 15).
Versículos 13 a 18: cobiça e inveja no deserto
A fé durou pouco. No deserto, o povo esqueceu as obras de Deus e deixou-se levar pela cobiça. Deus lhes deu o que pediam, mas junto mandou uma fraqueza que os consumiu. O episódio é o das codornizes, narrado em Números 11. O salmo ensina algo fino: nem tudo o que se pede com avidez faz bem. Em seguida vem a inveja contra Moisés e Aarão, os escolhidos do Senhor. A terra se abriu e engoliu Datã e Abiram, e um fogo devorou os rebeldes (Nm 16).
Versículos 19 a 23: o bezerro de ouro
No Horeb fizeram um bezerro e adoraram uma imagem de metal. O salmo descreve com ironia: trocaram a sua glória, que era o próprio Deus, pela imagem de um boi que come capim. São Paulo retoma essa linguagem ao falar dos que trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens (Rm 1,23). Deus pensou em exterminá-los, mas Moisés, seu escolhido, ficou na brecha diante dele para desviar a sua ira (Ex 32,11-14). A imagem é militar: quando a muralha se rompe, alguém se coloca no buraco para proteger a cidade. Moisés é o modelo do intercessor.
Versículos 24 a 33: desprezo, idolatria e a água de Meriba
Depois desprezaram a terra desejável e não creram na promessa. Murmuraram nas tendas, o que lembra o episódio dos exploradores (Nm 13 e 14). Uniram-se ao culto de Baal de Fegor e comeram dos sacrifícios oferecidos a mortos. Fineias se levantou, interveio, e a praga cessou; esse gesto lhe foi contado como justiça para sempre (Nm 25). Em Meriba, irritaram o Senhor junto às águas, e até Moisés sofreu por causa deles, pois falou de modo imprudente (Nm 20,1-13). O pecado do povo atinge também os seus líderes.
Versículos 34 a 39: misturados com as nações
Já em Canaã, Israel não afastou os povos como Deus mandara. Misturou-se com eles, aprendeu os seus costumes e serviu os seus ídolos. O ponto mais grave é dito sem rodeios: sacrificaram seus filhos e filhas aos demônios, derramaram sangue inocente e a terra ficou profanada. A Bíblia condena com força esses sacrifícios de crianças, praticados no culto de alguns povos vizinhos. O salmo mostra aonde leva a idolatria: começa com uma mistura aparentemente inofensiva e termina destruindo os mais frágeis.
Versículos 40 a 46: castigo e compaixão
A ira do Senhor se acendeu, e ele os entregou nas mãos das nações. Os inimigos os oprimiram. Mas aqui está o refrão de toda a história: muitas vezes Deus os libertou, e eles continuavam rebeldes. Ainda assim, ele olhou a sua angústia quando ouviu o seu clamor, lembrou-se da sua aliança e, pela grandeza do seu amor, voltou atrás. Chegou a tornar compassivos os que os mantinham cativos. O castigo nunca é a última palavra; a fidelidade de Deus é maior que a infidelidade do povo.
Versículos 47 e 48: súplica final e doxologia
O salmo termina pedindo: salva-nos, Senhor nosso Deus, e reúne-nos dentre as nações, para que demos graças ao teu santo nome. Depois vem a bênção que fecha o quarto livro do Saltério: bendito seja o Senhor, Deus de Israel, desde sempre e para sempre, e todo o povo responde Amém, Aleluia.
O que o Salmo 106 ensina para a fé católica?
Primeiro, a dimensão comunitária do pecado e do arrependimento. O orante diz nós, e não eles. A Igreja reza assim na liturgia: no ato penitencial da Missa, cada um confessa as próprias culpas, mas o faz junto com a assembleia. A confissão sincera não procura culpados fora; reconhece com humildade a própria parte.
Segundo, a gravidade da idolatria. O salmo mostra que trocar Deus por uma criatura é trocar a própria glória por algo que come capim. O Catecismo ensina que há idolatria sempre que o homem honra e reverencia uma criatura em lugar de Deus, seja o poder, o prazer ou o dinheiro (CIC n. 2113).
Terceiro, o valor da intercessão. Moisés na brecha e Fineias que se levanta são figuras de quem se coloca entre Deus e o povo. Os cristãos veem nisso um anúncio de Cristo, o único mediador, que intercede por nós junto ao Pai, e também um chamado para que cada fiel reze pelos outros.
Por fim, a misericórdia que sustenta a aliança. A história de Israel não é salva pela fidelidade do povo, mas pela fidelidade de Deus. É o mesmo amor que se revela plenamente em Jesus, que veio salvar os pecadores.
Reflexão para hoje
O Salmo 106 é um espelho incômodo. O povo viu o mar se abrir e, pouco depois, já reclamava da comida. Conosco não é muito diferente: recebemos uma graça, agradecemos, e na primeira dificuldade esquecemos tudo. O salmo chama isso de esquecimento das obras de Deus. Um remédio simples é fazer memória: lembrar, na oração da noite, o que Deus fez por nós naquele dia.
Também vale olhar para os nossos bezerros de ouro. Raramente são estátuas. Podem ser o trabalho que toma o lugar da família, a imagem nas redes, o dinheiro guardado com ansiedade. Começam como algo bom e, sem perceber, ocupam o centro. A pergunta honesta é: onde está a minha confiança quando tudo aperta?
E há uma consolação. O salmo não termina no pecado, mas no Amém e no Aleluia. Quem se reconhece pecador junto com o povo, sem desespero e sem desculpas, encontra um Deus que se lembra da aliança. Para quem anda afastado, o sacramento da Confissão é o lugar onde essa misericórdia se torna concreta.
Para rezar com o Salmo 106
- Que graças recebidas eu esqueci rapidamente, como o povo depois do Mar Vermelho?
- Qual criatura ou preocupação ocupa hoje, na minha vida, o lugar que pertence a Deus?
- Por quem eu posso me colocar na brecha, como Moisés, com a minha oração?
Sugestão de oração:
Senhor, eu também pequei com os meus pais e esqueci as tuas maravilhas. Não me trates segundo as minhas infidelidades, mas segundo a grandeza do teu amor. Lembra-te de mim quando favoreceres o teu povo, reúne-nos de toda dispersão e faze que a nossa vida termine em ação de graças. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2113.
Perguntas sobre Salmo 106
Qual é o tema principal do Salmo 106?
Por que o Salmo 106 termina com uma bênção diferente?
Quem foi Fineias, citado no Salmo 106?
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