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Salmo 106: a confissão dos pecados de Israel explicada

Leia Salmo 106 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 106 é uma longa confissão de pecados feita em nome de todo o povo. Ele percorre a história de Israel, do Mar Vermelho até a vida na terra de Canaã, e mostra uma infidelidade que se repete geração após geração. Mas o fio que costura tudo é outro: a misericórdia de Deus, que se lembra da sua aliança e salva de novo.

Contexto do Salmo 106

Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 105. Começa e termina com Aleluia e fecha o quarto livro dos Salmos com a bênção do versículo 48. É um salmo histórico de tom penitencial, irmão do Salmo 105: aquele canta as maravilhas de Deus; este confessa as respostas ingratas do povo.

O título hebraico não indica autor. O pedido final, para que Deus reúna o povo do meio das nações, faz muitos estudiosos pensarem no tempo do exílio ou logo depois, mas a datação é discutida. Os versículos 1 e 47 a 48 aparecem também no canto atribuído a Davi em 1 Crônicas 16,34-36.

Explicação do Salmo 106

Versículos 1 a 5: louvor e um pedido pessoal

O salmo abre com a fórmula clássica de louvor: dar graças ao Senhor porque ele é bom e o seu amor é para sempre. Logo pergunta quem poderá narrar as proezas de Deus e declara felizes os que praticam a justiça. Então o orante pede algo para si: que Deus se lembre dele quando favorecer o seu povo, para que veja a felicidade dos eleitos. Quem vai confessar os pecados do povo não se coloca de fora; quer participar da salvação de todos.

Versículos 6 a 12: pecamos com nossos pais

O versículo 6 é a chave do salmo: pecamos como nossos pais, cometemos a iniquidade. O orante não acusa os antepassados para se desculpar; reconhece que a sua geração está unida a eles no mesmo pecado. A primeira lembrança é o Mar Vermelho. Mal saíram do Egito, os israelitas esqueceram os prodígios e se revoltaram junto ao mar (Ex 14,11-12). Mesmo assim, Deus os salvou por causa do seu nome, secou o mar e os fez passar como por um deserto. Então creram nas suas palavras e cantaram o seu louvor (Ex 15).

Versículos 13 a 18: cobiça e inveja no deserto

A fé durou pouco. No deserto, o povo esqueceu as obras de Deus e deixou-se levar pela cobiça. Deus lhes deu o que pediam, mas junto mandou uma fraqueza que os consumiu. O episódio é o das codornizes, narrado em Números 11. O salmo ensina algo fino: nem tudo o que se pede com avidez faz bem. Em seguida vem a inveja contra Moisés e Aarão, os escolhidos do Senhor. A terra se abriu e engoliu Datã e Abiram, e um fogo devorou os rebeldes (Nm 16).

Versículos 19 a 23: o bezerro de ouro

No Horeb fizeram um bezerro e adoraram uma imagem de metal. O salmo descreve com ironia: trocaram a sua glória, que era o próprio Deus, pela imagem de um boi que come capim. São Paulo retoma essa linguagem ao falar dos que trocaram a glória do Deus incorruptível por imagens (Rm 1,23). Deus pensou em exterminá-los, mas Moisés, seu escolhido, ficou na brecha diante dele para desviar a sua ira (Ex 32,11-14). A imagem é militar: quando a muralha se rompe, alguém se coloca no buraco para proteger a cidade. Moisés é o modelo do intercessor.

Versículos 24 a 33: desprezo, idolatria e a água de Meriba

Depois desprezaram a terra desejável e não creram na promessa. Murmuraram nas tendas, o que lembra o episódio dos exploradores (Nm 13 e 14). Uniram-se ao culto de Baal de Fegor e comeram dos sacrifícios oferecidos a mortos. Fineias se levantou, interveio, e a praga cessou; esse gesto lhe foi contado como justiça para sempre (Nm 25). Em Meriba, irritaram o Senhor junto às águas, e até Moisés sofreu por causa deles, pois falou de modo imprudente (Nm 20,1-13). O pecado do povo atinge também os seus líderes.

Versículos 34 a 39: misturados com as nações

Já em Canaã, Israel não afastou os povos como Deus mandara. Misturou-se com eles, aprendeu os seus costumes e serviu os seus ídolos. O ponto mais grave é dito sem rodeios: sacrificaram seus filhos e filhas aos demônios, derramaram sangue inocente e a terra ficou profanada. A Bíblia condena com força esses sacrifícios de crianças, praticados no culto de alguns povos vizinhos. O salmo mostra aonde leva a idolatria: começa com uma mistura aparentemente inofensiva e termina destruindo os mais frágeis.

Versículos 40 a 46: castigo e compaixão

A ira do Senhor se acendeu, e ele os entregou nas mãos das nações. Os inimigos os oprimiram. Mas aqui está o refrão de toda a história: muitas vezes Deus os libertou, e eles continuavam rebeldes. Ainda assim, ele olhou a sua angústia quando ouviu o seu clamor, lembrou-se da sua aliança e, pela grandeza do seu amor, voltou atrás. Chegou a tornar compassivos os que os mantinham cativos. O castigo nunca é a última palavra; a fidelidade de Deus é maior que a infidelidade do povo.

Versículos 47 e 48: súplica final e doxologia

O salmo termina pedindo: salva-nos, Senhor nosso Deus, e reúne-nos dentre as nações, para que demos graças ao teu santo nome. Depois vem a bênção que fecha o quarto livro do Saltério: bendito seja o Senhor, Deus de Israel, desde sempre e para sempre, e todo o povo responde Amém, Aleluia.

O que o Salmo 106 ensina para a fé católica?

Primeiro, a dimensão comunitária do pecado e do arrependimento. O orante diz nós, e não eles. A Igreja reza assim na liturgia: no ato penitencial da Missa, cada um confessa as próprias culpas, mas o faz junto com a assembleia. A confissão sincera não procura culpados fora; reconhece com humildade a própria parte.

Segundo, a gravidade da idolatria. O salmo mostra que trocar Deus por uma criatura é trocar a própria glória por algo que come capim. O Catecismo ensina que há idolatria sempre que o homem honra e reverencia uma criatura em lugar de Deus, seja o poder, o prazer ou o dinheiro (CIC n. 2113).

Terceiro, o valor da intercessão. Moisés na brecha e Fineias que se levanta são figuras de quem se coloca entre Deus e o povo. Os cristãos veem nisso um anúncio de Cristo, o único mediador, que intercede por nós junto ao Pai, e também um chamado para que cada fiel reze pelos outros.

Por fim, a misericórdia que sustenta a aliança. A história de Israel não é salva pela fidelidade do povo, mas pela fidelidade de Deus. É o mesmo amor que se revela plenamente em Jesus, que veio salvar os pecadores.

Reflexão para hoje

O Salmo 106 é um espelho incômodo. O povo viu o mar se abrir e, pouco depois, já reclamava da comida. Conosco não é muito diferente: recebemos uma graça, agradecemos, e na primeira dificuldade esquecemos tudo. O salmo chama isso de esquecimento das obras de Deus. Um remédio simples é fazer memória: lembrar, na oração da noite, o que Deus fez por nós naquele dia.

Também vale olhar para os nossos bezerros de ouro. Raramente são estátuas. Podem ser o trabalho que toma o lugar da família, a imagem nas redes, o dinheiro guardado com ansiedade. Começam como algo bom e, sem perceber, ocupam o centro. A pergunta honesta é: onde está a minha confiança quando tudo aperta?

E há uma consolação. O salmo não termina no pecado, mas no Amém e no Aleluia. Quem se reconhece pecador junto com o povo, sem desespero e sem desculpas, encontra um Deus que se lembra da aliança. Para quem anda afastado, o sacramento da Confissão é o lugar onde essa misericórdia se torna concreta.

Para rezar com o Salmo 106

  • Que graças recebidas eu esqueci rapidamente, como o povo depois do Mar Vermelho?
  • Qual criatura ou preocupação ocupa hoje, na minha vida, o lugar que pertence a Deus?
  • Por quem eu posso me colocar na brecha, como Moisés, com a minha oração?

Sugestão de oração:

Senhor, eu também pequei com os meus pais e esqueci as tuas maravilhas. Não me trates segundo as minhas infidelidades, mas segundo a grandeza do teu amor. Lembra-te de mim quando favoreceres o teu povo, reúne-nos de toda dispersão e faze que a nossa vida termine em ação de graças. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2113.

Perguntas sobre Salmo 106

Qual é o tema principal do Salmo 106?

É uma confissão coletiva dos pecados do povo. O salmo relembra as infidelidades de Israel desde o Egito até a terra prometida e mostra que, apesar de tudo, Deus sempre voltou a salvar por causa da sua aliança.

Por que o Salmo 106 termina com uma bênção diferente?

O versículo 48 é a doxologia que encerra o quarto livro dos Salmos. O Saltério é dividido em cinco livros, e cada um termina com uma fórmula de louvor como essa.

Quem foi Fineias, citado no Salmo 106?

Fineias era neto de Aarão. No episódio de Baal de Fegor, ele agiu com zelo contra a idolatria e a praga parou (Nm 25). O salmo diz que esse gesto lhe foi contado como justiça.

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