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Salmo 107: clamaram ao Senhor e ele os livrou

Leia Salmo 107 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 107 é um grande hino de ação de graças dos resgatados pelo Senhor. Em quatro quadros vivos, ele mostra pessoas em perigo: perdidas no deserto, presas em correntes, doentes à beira da morte e marinheiros no meio da tempestade. Em todos, o movimento é o mesmo: clamam a Deus, ele as salva, e elas são chamadas a agradecer.

Contexto do Salmo 107

Na numeração litúrgica e da Vulgata, ele é o Salmo 106. Abre o quinto e último livro do Saltério. O título hebraico não indica autor. É um salmo de ação de graças comunitária, com uma parte final de tom sapiencial.

O começo fala de pessoas reunidas do oriente e do ocidente, do norte e do mar. Isso faz pensar na volta dos dispersos depois do exílio, e muitos leem o salmo assim. Mas os quadros são amplos de propósito: servem para qualquer pessoa que passou por uma grande angústia e foi salva. Talvez o salmo acompanhasse no templo a oferta de sacrifícios de ação de graças.

Explicação do Salmo 107

Versículos 1 a 3: convite aos resgatados

O salmo começa com a mesma fórmula do Salmo 106: dar graças ao Senhor porque ele é bom e o seu amor é eterno. Mas agora quem deve falar são os resgatados, os que Deus libertou da mão do opressor e reuniu de todas as terras. A ação de graças não é teoria; nasce de quem experimentou a salvação.

Versículos 4 a 9: os perdidos no deserto

O primeiro quadro mostra viajantes extraviados em lugares desertos, sem achar caminho para uma cidade habitada. Têm fome e sede, e a vida se esvai. Então clamam ao Senhor na angústia, e ele os livra, conduzindo-os por um caminho reto até uma cidade onde morar. Vem o refrão: que agradeçam ao Senhor pelo seu amor e pelas maravilhas que faz pelos homens. O motivo é concreto: ele saciou a garganta sedenta e encheu de bens o faminto. Esse quadro lembra a travessia do deserto depois do Egito.

Versículos 10 a 16: os prisioneiros

O segundo quadro fala de quem estava sentado nas trevas e na sombra da morte, preso em miséria e ferros. O salmo dá a causa: tinham se rebelado contra as palavras de Deus. O sofrimento os humilhou, caíram e não havia quem ajudasse. Clamaram, e o Senhor os tirou das trevas e quebrou as suas correntes. Ele despedaça portas de bronze e arrebenta trancas de ferro. O cântico de Zacarias usa linguagem parecida ao falar do Messias que vem iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte (Lc 1,79).

Versículos 17 a 22: os doentes

O terceiro quadro mostra pessoas que, por causa dos seus pecados, ficaram doentes. Rejeitam todo alimento e chegam às portas da morte. A Bíblia não diz que toda doença vem do pecado pessoal (Jo 9,2-3), mas aqui o salmo descreve um caso em que a vida desordenada trouxe sofrimento. Eles clamam, e Deus envia a sua palavra, os cura e os livra da cova. A frase é bela: a palavra de Deus cura. Quem é curado oferece sacrifícios de ação de graças e conta com alegria as obras do Senhor.

Versículos 23 a 32: os marinheiros na tempestade

O quadro mais longo e mais vivo é o dos que descem ao mar em navios. Para Israel, povo pouco marítimo, o mar era lugar de perigo. O Senhor fala e levanta um vento tempestuoso; as ondas sobem aos céus e descem aos abismos. Os marinheiros perdem a coragem, cambaleiam como bêbados, e toda a sua habilidade se esvai. Clamam, e Deus transforma a tempestade em brisa leve, as ondas se calam, e ele os conduz ao porto desejado.

Os cristãos não leem esse trecho sem pensar em Jesus no barco. Ele repreende o vento, o mar se acalma, e os discípulos perguntam quem é este a quem até o vento e o mar obedecem (Mc 4,35-41). A resposta está no salmo: só Deus faz isso.

Versículos 33 a 42: Deus muda as situações

A última parte deixa os quadros e passa a um hino sapiencial. Deus transforma rios em deserto e terra fértil em salina, por causa da maldade dos habitantes. E faz o contrário: muda o deserto em lago e a terra seca em fontes. Ali estabelece os famintos, que fundam uma cidade, semeiam campos, plantam vinhas e colhem fruto. Ele derrama desprezo sobre os poderosos que oprimem e levanta o pobre da miséria. Os justos veem e se alegram, e toda maldade fecha a boca. É a mesma lógica do cântico de Ana (1Sm 2,4-8) e do Magnificat (Lc 1,51-53).

Versículo 43: conselho ao sábio

O salmo termina como um livro de sabedoria: quem é sábio observe estas coisas e compreenda o amor do Senhor. Não basta ser salvo; é preciso refletir sobre a própria história para reconhecer nela a mão de Deus.

O que o Salmo 107 ensina para a fé católica?

O salmo mostra o caminho completo da oração cristã: angústia, súplica, salvação e ação de graças. O Catecismo lembra que a ação de graças caracteriza a oração da Igreja, que, ao celebrar a Eucaristia, manifesta e se torna mais plenamente aquilo que é (CIC n. 2637). A própria palavra Eucaristia quer dizer ação de graças.

O texto ensina também que Deus ouve o clamor de todos, inclusive dos que sofrem por culpa própria. O prisioneiro rebelde e o doente que se desregrou também clamam e são atendidos. Isso prepara a revelação de Jesus, que acolhe os pecadores e cura doentes do corpo e da alma.

Por fim, a frase sobre a palavra que cura ganha plenitude em Cristo, a Palavra eterna do Pai. A fé do centurião se apoia nisso: basta uma palavra e o servo será curado (Mt 8,8), frase que a Igreja repete antes da comunhão.

Reflexão para hoje

Cada um de nós pode se reconhecer num dos quatro quadros. Há momentos em que nos sentimos perdidos, sem saber para onde ir. Há prisões que construímos com nossas próprias escolhas: vícios, rancores, dívidas. Há doenças que abatem. E há tempestades que chegam de repente, como uma demissão ou uma notícia ruim no hospital. O salmo não promete que nada disso vai acontecer; promete que o clamor será ouvido.

O detalhe mais importante talvez seja o refrão. Depois de cada salvação, o salmo pede que agradeçam. É fácil clamar no aperto e esquecer de agradecer quando tudo passa. Um hábito simples ajuda: quando uma oração for atendida, contar isso a alguém e voltar a Deus para dizer obrigado, como fez o samaritano curado (Lc 17,15-16).

E o versículo final pede um olhar sábio. Ao fim de um ano, ou de uma fase difícil, vale a pena parar e reler a própria vida. Muitas vezes só depois enxergamos que fomos conduzidos ao porto desejado.

Para rezar com o Salmo 107

  • Em qual dos quatro quadros eu me reconheço hoje: perdido, preso, doente ou na tempestade?
  • Que oração atendida eu ainda não agradeci?
  • Olhando para trás, onde percebo que Deus me conduziu sem que eu soubesse?

Sugestão de oração:

Senhor, na minha angústia eu clamo a ti. Tira-me das trevas, quebra as correntes que me prendem e acalma as tempestades do meu coração. Envia a tua palavra e cura-me. E quando eu chegar ao porto, não me deixes esquecer de agradecer o teu amor e as tuas maravilhas. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2637.

Perguntas sobre Salmo 107

Qual é o refrão do Salmo 107?

São duas frases que se repetem. Uma diz que eles clamaram ao Senhor na angústia e ele os livrou; a outra convida a agradecer ao Senhor pelo seu amor e pelas suas maravilhas em favor dos homens.

O Salmo 107 tem relação com Jesus acalmando a tempestade?

Sim, há uma ligação clara. O salmo diz que o Senhor transforma a tempestade em calma; nos Evangelhos, Jesus faz exatamente isso no mar da Galileia (Mc 4,35-41), mostrando que nele age o poder de Deus.

Quem são os resgatados do Salmo 107?

São os que Deus libertou da mão do opressor e reuniu de todas as direções. O salmo os descreve em quatro situações: perdidos no deserto, presos, doentes e marinheiros em perigo.

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