O Salmo 104 é o grande hino da Bíblia à criação. O salmista contempla o céu, as águas, as montanhas, os animais, o pão e o vinho, o sol e a lua, o mar e seus habitantes, e vê em tudo a sabedoria de Deus. Todas as criaturas dependem dele para viver, e quando ele envia o seu Espírito, renova a face da terra. Por isso a Igreja canta este salmo em Pentecostes.
Contexto do Salmo 104
Na numeração litúrgica e da Vulgata, este é o Salmo 103. O texto hebraico não tem título; a tradução grega o atribuiu a Davi. Ele forma um par com o Salmo 103: os dois começam e terminam com “bendize, ó minha alma, o Senhor”. O 103 louva a misericórdia de Deus na história; o 104 louva a sua obra na criação.
É um hino. A ordem dos elementos lembra o primeiro relato da criação (Gn 1): luz, céu, águas, terra, plantas, astros, animais do mar, ser humano. Muitos estudiosos notam também semelhanças com um hino egípcio antigo ao sol, ligado ao faraó Akhenaton. Se houve influência, o salmo a transformou: o sol não é deus, mas criatura que obedece ao Senhor. A data é discutida.
Explicação do Salmo 104
Versículos 1 a 4: Deus vestido de luz
O salmista começa louvando: Senhor, meu Deus, como és grande! Deus se veste de majestade e esplendor e se envolve na luz como num manto. Ele estende o céu como uma tenda e constrói sua morada acima das águas. As nuvens são seu carro, ele caminha sobre as asas do vento. Faz dos ventos seus mensageiros e das chamas de fogo seus servos. A Carta aos Hebreus usa este versículo, na forma da tradução grega, para falar dos anjos (Hb 1,7).
Versículos 5 a 9: a terra firme e o limite das águas
Deus firmou a terra sobre seus alicerces, e ela nunca vacilará. O abismo a cobria como uma veste, e as águas estavam acima das montanhas. À voz de Deus, as águas fugiram; ao estrondo do seu trovão, se precipitaram. Subiram os montes, desceram os vales, até o lugar que ele lhes tinha fixado. Deus pôs um limite que as águas não ultrapassam, para não voltarem a cobrir a terra. As águas, símbolo do caos, obedecem à ordem de Deus.
Versículos 10 a 18: fontes, plantas, pão e vinho
Agora as águas aparecem como bênção. Deus faz brotar fontes nos vales, que correm entre os montes. Delas bebem os animais do campo, e os jumentos selvagens matam a sede. Junto delas vivem as aves do céu, que cantam entre os ramos. Do alto, ele rega os montes, e a terra se sacia do fruto das suas obras.
Deus faz crescer a erva para o gado e as plantas que o homem cultiva, para tirar da terra o seu pão. Ele dá o vinho que alegra o coração, o óleo que faz brilhar o rosto e o pão que fortalece. O trabalho humano colabora com a obra de Deus, e a alegria da mesa também é dom dele. As árvores do Senhor, os cedros do Líbano, estão bem regadas; nelas fazem ninho os pássaros e a cegonha. Os montes altos são para as cabras selvagens, e os rochedos são abrigo para os pequenos animais das pedras. Cada criatura tem o seu lugar.
Versículos 19 a 23: o ritmo do dia e da noite
Deus fez a lua para marcar os tempos, e o sol conhece a hora de se pôr. Quando chega a noite, saem os animais da floresta, e os leõezinhos rugem pela presa, pedindo a Deus o seu alimento. Ao nascer do sol, eles se recolhem às suas tocas, e o homem sai para o trabalho, para a sua lida até a tarde. O universo tem um ritmo, e cada ser vive segundo a ordem dada pelo Criador.
Versículos 24 a 26: tudo fizeste com sabedoria
O salmista exclama: como são numerosas as tuas obras, Senhor! Tudo fizeste com sabedoria, a terra está cheia das tuas criaturas. Depois olha para o mar, grande e vasto, onde há seres sem número, pequenos e grandes. Por ali passam os navios, e ali está o Leviatã, que Deus formou para brincar nele. Em outros textos bíblicos, o Leviatã é um monstro temível (Jó 40,25 a 41,26). Aqui ele é quase um animal de estimação de Deus, criado para brincar no mar. Nada na criação ameaça o Criador.
Versículos 27 a 30: o Espírito que renova
Todas as criaturas esperam de Deus que lhes dê o alimento a seu tempo. Ele dá, e elas recolhem; ele abre a mão, e elas se saciam de bens. Se ele esconde o rosto, elas se perturbam; se retira o seu sopro, morrem e voltam ao pó. E então o versículo mais conhecido: quando Deus envia o seu espírito, as criaturas são criadas, e ele renova a face da terra (Sl 104,30). Em hebraico, a mesma palavra, ruah, significa sopro, vento e espírito. A vida de cada ser depende, a cada instante, do sopro de Deus.
Versículos 31 a 35: a alegria do Criador
O salmista deseja que a glória do Senhor dure para sempre e que o Senhor se alegre com as suas obras, como no Gênesis, quando Deus viu que tudo era bom. Basta um olhar dele, e a terra treme; um toque, e os montes fumegam. O salmista promete cantar ao Senhor enquanto viver e deseja que sua meditação lhe seja agradável. Pede que os pecadores desapareçam da terra, isto é, que o mal que estraga a criação deixe de existir. E termina: bendize, ó minha alma, o Senhor. Aleluia!
O que o Salmo 104 ensina para a fé católica?
O salmo ensina que o mundo foi criado com sabedoria e é sustentado por Deus a cada momento. O Catecismo cita o versículo 24, “tudo fizeste com sabedoria”, para mostrar que a criação não é fruto do acaso, mas da sabedoria e do amor de Deus (CIC n. 295). Veja também o que a Igreja ensina sobre a criação.
A leitura cristã vê no sopro que cria e renova a ação do Espírito Santo, “Senhor que dá a vida”, como professamos no Credo. Por isso a Igreja canta este salmo na missa de Pentecostes e também na Vigília Pascal, como um dos salmos propostos depois da leitura da criação (o outro é o Salmo 33). O versículo que acompanha a conhecida oração “Vinde, Espírito Santo”, pedindo que Deus envie o seu Espírito e renove a face da terra, vem deste salmo.
O salmo também fundamenta o cuidado com a criação. Se cada criatura tem seu lugar e louva a Deus a seu modo, o ser humano não é dono absoluto da natureza, mas administrador. O papa Francisco desenvolveu esse tema na encíclica Laudato si’.
Reflexão para hoje
A pressa nos faz passar pela criação sem vê-la. O Salmo 104 ensina a olhar com calma: uma fonte de água, um pássaro no galho, o pão na mesa, o pôr do sol. Tudo isso fala de Deus. Uma caminhada ao ar livre pode se tornar oração quando aprendemos a ver as coisas como o salmista as via.
O versículo sobre o pão, o vinho e o óleo também diz algo sobre o nosso dia a dia. O trabalho que coloca o pão na mesa é colaboração com Deus. E a alegria de uma refeição em família é um dom dele, não um detalhe sem importância.
Por fim, o salmo lembra a nossa dependência. Se Deus retira o seu sopro, voltamos ao pó. Isso não é motivo de medo, mas de confiança. A cada respiração, recebemos a vida de Deus. Quando nos sentimos secos por dentro, sem forças, podemos pedir com o salmo: envia, Senhor, o teu Espírito e renova a minha vida. Uma ajuda é rezar a novena ao Espírito Santo.
Para rezar com o Salmo 104
- Quando foi a última vez que parei para contemplar a criação e louvar a Deus por ela?
- Reconheço que o pão de cada dia é fruto do meu trabalho e também dom de Deus?
- Em que área da minha vida preciso que o Espírito Santo renove tudo?
Sugestão de oração:
Senhor, meu Deus, como és grande! Tudo fizeste com sabedoria e a terra está cheia das tuas criaturas. Obrigado pelo pão que fortalece, pelo vinho que alegra e por cada respiração que me dás. Envia o teu Espírito sobre mim, sobre minha família e sobre o mundo, e renova a face da terra. Que eu cante a ti enquanto viver. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 295; Lecionário (Pentecostes e Vigília Pascal); papa Francisco, encíclica Laudato si’.
Perguntas sobre Salmo 104
Por que o Salmo 104 é cantado em Pentecostes?
Qual a relação entre o Salmo 104 e o Gênesis?
O que é o Leviatã no Salmo 104?
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