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Salmo 103: bendize, ó minha alma, o Senhor

Leia Salmo 103 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

O rei Davi toca a harpa cercado de anjos
Hendrick ter Brugghen, O rei Davi tocando harpa entre anjos, 1628. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O Salmo 103 é um dos mais belos hinos à misericórdia de Deus em toda a Bíblia. O salmista convida a própria alma a bendizer o Senhor e a não esquecer nenhum dos seus benefícios: o perdão, a cura, o resgate da vida, a ternura. Deus é apresentado como um pai cheio de compaixão, que conhece a fragilidade humana e afasta de nós o pecado como o oriente está longe do ocidente.

Contexto do Salmo 103

Na numeração litúrgica e da Vulgata, este é o Salmo 102. O título hebraico diz “De Davi”, atribuição tradicional, e na Bíblia da CNBB faz parte do versículo 1. Não há indicação de situação histórica.

É um hino de louvor com forte tom de ação de graças. Começa e termina com a mesma expressão, “bendize, ó minha alma, o Senhor”, como uma moldura. O centro do salmo retoma a grande revelação do nome de Deus a Moisés no Sinai, depois do pecado do bezerro de ouro (Ex 34,6-7). Ele forma um par com o Salmo 104, que começa e termina do mesmo modo: o 103 louva Deus pela sua misericórdia, o 104 pela criação.

Explicação do Salmo 103

Versículos 1 e 2: não esqueças nenhum dos seus benefícios

O salmista fala consigo mesmo: bendize, ó minha alma, o Senhor, e tudo o que existe em mim bendiga o seu santo nome. A “alma”, em hebraico néfesh, é a pessoa inteira, com sua vida e seus desejos. O louvor deve envolver tudo o que somos. E vem um pedido importante: não esquecer nenhum dos benefícios de Deus (Sl 103,2). O maior inimigo do louvor é o esquecimento.

Versículos 3 a 5: o que Deus faz por nós

Segue a lista dos benefícios, em cinco verbos. Deus perdoa todas as culpas, cura todas as enfermidades, resgata a vida da sepultura, coroa de amor e de compaixão, e sacia de bens os nossos anos. O perdão vem em primeiro lugar: é o benefício mais profundo. E o resultado é uma vida renovada, como a juventude da águia, ave que na Bíblia simboliza força e vigor renovados (Is 40,31).

Versículos 6 a 10: o Deus da compaixão

O olhar passa da vida pessoal para a história do povo. O Senhor faz justiça e defende o direito dos oprimidos. Ele revelou seus caminhos a Moisés e suas obras aos filhos de Israel. E então vem a definição de Deus que ele mesmo deu no Sinai: o Senhor é compassivo e clemente, lento para a ira e rico em amor (Ex 34,6).

O salmista tira as consequências: Deus não está sempre acusando, nem guarda rancor para sempre. Não nos trata conforme os nossos pecados, nem nos paga segundo as nossas culpas. Essa é a experiência de Israel depois do bezerro de ouro: o povo merecia ser abandonado, e Deus renovou a aliança.

Versículos 11 a 14: tão longe quanto o oriente do ocidente

Três comparações mostram a grandeza da misericórdia. Como o céu está acima da terra, assim é grande o seu amor por quem o teme. Como o oriente está longe do ocidente, assim ele afasta de nós os nossos pecados. Como um pai tem compaixão dos filhos, assim o Senhor tem compaixão de quem o teme.

A imagem do pai é rara no Antigo Testamento e muito delicada. E o motivo dessa ternura é surpreendente: ele sabe de que barro fomos feitos, lembra-se de que somos pó. Deus não se escandaliza com a nossa fraqueza; ele a conhece desde a criação (Gn 2,7).

Versículos 15 a 18: o homem é como a erva

A fragilidade humana é descrita com uma imagem conhecida. Os dias do homem são como a erva; ele floresce como a flor do campo. Basta passar sobre ela um vento, e já não existe, e o seu lugar não a reconhece mais. Mas o amor do Senhor é desde sempre e para sempre sobre os que o temem, e a sua justiça passa para os filhos dos filhos, para os que guardam a sua aliança. O contraste é claro: nós passamos, a misericórdia de Deus permanece.

Versículos 19 a 22: bendizei o Senhor, todos os seus anjos

No final, o louvor se amplia. O Senhor firmou o seu trono no céu, e o seu reino governa o universo. O salmista convoca os anjos, poderosos executores das suas ordens, atentos à sua palavra; os exércitos celestes, servos que fazem a sua vontade; e todas as obras de Deus, em todos os lugares do seu domínio. E termina como começou: bendize, ó minha alma, o Senhor. Da alma do salmista, o louvor foi até os confins do céu e voltou ao coração.

O que o Salmo 103 ensina para a fé católica?

O salmo é uma catequese sobre a misericórdia de Deus. O Catecismo, ao explicar a revelação do nome de Deus, recorda que depois do pecado do bezerro de ouro Deus se revelou a Moisés como clemente e compassivo, lento para a ira e cheio de misericórdia e fidelidade (CIC n. 210). O Salmo 103 é a resposta orante a essa revelação. E, ao falar dos anjos como servos e mensageiros de Deus, o Catecismo cita o versículo 20 deste salmo (CIC n. 329).

A imagem do pai que tem compaixão dos filhos prepara a revelação plena trazida por Jesus, que nos ensina a chamar Deus de Pai e conta a parábola do pai misericordioso (Lc 15,11-32). O perdão que afasta os pecados como o oriente do ocidente se realiza de modo concreto no sacramento da Confissão.

A Igreja canta este salmo com frequência na missa, com o refrão que diz que o Senhor é bondoso e compassivo. É o caso do Terceiro Domingo da Quaresma do Ano C, quando se lê a revelação de Deus a Moisés na sarça ardente.

Reflexão para hoje

O salmo pede que não esqueçamos nenhum dos benefícios de Deus. Somos rápidos para lembrar o que falta e lentos para lembrar o que recebemos. Uma boa prática é fazer, ao fim do dia, um pequeno exame de gratidão: o que Deus me deu hoje? Às vezes a resposta é simples: um almoço com a família, uma conversa boa, a saúde, um problema resolvido. Esse hábito transforma o coração.

O salmo também cura uma imagem distorcida de Deus. Muitas pessoas, por causa de uma educação rígida ou de experiências difíceis, veem Deus como um fiscal pronto para punir. O Salmo 103 apresenta outro rosto: um pai que conhece o nosso barro, não guarda rancor e afasta o pecado para longe. Quem tem medo de se confessar pode rezar este salmo antes de ir ao confessionário.

E a lembrança de que somos como a erva não precisa trazer tristeza. Ela coloca as coisas no lugar. A vida é breve, mas está envolvida por um amor que é desde sempre e para sempre. Vale a pena gastá-la bem.

Para rezar com o Salmo 103

  • Quais benefícios de Deus eu tenho esquecido de agradecer?
  • Que imagem de Deus eu carrego: a de um fiscal ou a de um Pai compassivo?
  • Há algum pecado que eu ainda não deixei Deus afastar de mim pelo perdão?

Sugestão de oração:

Bendize, ó minha alma, o Senhor, e não te esqueças de nenhum dos seus benefícios. Senhor, obrigado porque perdoas minhas culpas, curas minhas feridas e me coroas de amor. Tu conheces o barro de que fui feito e não me tratas segundo os meus pecados. Como um pai, tem compaixão de mim e de minha família. Que toda a minha vida bendiga o teu santo nome. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 210 e 329; Lecionário Dominical (Terceiro Domingo da Quaresma, Ano C).

Perguntas sobre Salmo 103

O que significa “quanto dista o oriente do ocidente” no Salmo 103?

É uma imagem da distância infinita. Deus afasta de nós os pecados perdoados tanto quanto o oriente está longe do ocidente, ou seja, completamente.

Por que o Salmo 103 compara Deus a um pai?

Para mostrar a ternura de Deus, que tem compaixão de quem o teme como um pai dos filhos. Ele conhece nossa fragilidade e lembra que somos pó.

Qual a relação entre o Salmo 103 e o livro do Êxodo?

O versículo 8 retoma Êxodo 34,6, quando Deus se revelou a Moisés como compassivo, clemente, lento para a ira e rico em amor, depois do pecado do bezerro de ouro.

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