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Lucas 17: os dez leprosos e o Reino de Deus

Leia Lucas 17 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

São Lucas escreve o Evangelho com a pena sobre o livro aberto, com o touro ao fundo, pintura de Frans Hals
Frans Hals, São Lucas, c. 1625. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Lucas 17 reúne ensinamentos sobre a vida da comunidade e sobre o fim dos tempos. Jesus fala do escândalo, do perdão sem limites, da fé do tamanho de um grão de mostarda e do servo que cumpre o seu dever. No centro está a cura dos dez leprosos, em que só um volta para agradecer.

Contexto de Lucas 17

Jesus continua a caminho de Jerusalém e passa entre a Samaria e a Galileia (v. 11). Depois das parábolas sobre o dinheiro em Lucas 16, Ele se volta para os discípulos com conselhos práticos. Na segunda parte, responde aos fariseus que perguntam quando virá o Reino de Deus, e fala aos discípulos sobre o dia do Filho do Homem.

Explicação de Lucas 17

Versículos 1 a 4: escândalo e perdão

Jesus diz que é inevitável que haja escândalos, mas ai daquele que os provoca. Seria melhor ser lançado ao mar com uma pedra de moinho no pescoço do que fazer cair um destes pequeninos. Escândalo, na Bíblia, é a pedra em que o outro tropeça: um mau exemplo que leva alguém a pecar ou a perder a fé. Os pequeninos são os fracos na fé, os simples, os que começam.

Logo em seguida, Jesus pede atenção: se teu irmão pecar, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa. E se pecar sete vezes num dia e sete vezes voltar pedindo perdão, perdoa. Sete, na Bíblia, indica plenitude. O perdão cristão não tem limite. Compare com Mt 18,6 e Mt 18,21 a 22.

Versículos 5 e 6: aumenta a nossa fé

Diante de exigências tão grandes, os apóstolos pedem: aumenta a nossa fé. Jesus responde que, se tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, diriam a esta amoreira que se arrancasse e se plantasse no mar, e ela obedeceria. A imagem é de propósito exagerada. O que conta não é a quantidade de fé, mas a sua verdade. Uma fé pequena, mas viva, une a pessoa ao poder de Deus.

Versículos 7 a 10: os servos inúteis

Jesus conta o caso de um servo que volta do campo. O patrão não lhe diz para sentar à mesa, mas para preparar o jantar e servir. Depois o servo poderá comer. Assim também vós: quando fizerdes tudo o que vos foi mandado, dizei que sois servos inúteis, que fizeram apenas o que deviam.

A palavra “inúteis” pode ser entendida como “simples servos” ou “servos sem mérito próprio”. Jesus não diz que o nosso serviço não vale nada. Diz que não podemos cobrar de Deus como quem tem direitos sobre Ele. Tudo é graça. Essa atitude livra do orgulho espiritual.

Versículos 11 a 19: os dez leprosos

Ao entrar num povoado, dez leprosos vão ao encontro de Jesus. Ficam a distância, como a Lei mandava (Lv 13,45 a 46), e gritam: Jesus, Mestre, tem compaixão de nós. Jesus manda que se apresentem aos sacerdotes, que eram quem podia confirmar a cura e reintegrar o doente na comunidade (Lv 14,1 a 32). No caminho, os dez ficam purificados.

Um deles, vendo-se curado, volta glorificando a Deus em alta voz, se joga aos pés de Jesus e agradece. E Lucas acrescenta: ele era samaritano. Judeus e samaritanos viviam em forte inimizade. Jesus pergunta: não foram dez os purificados? Onde estão os outros nove? E diz ao samaritano: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou” (Lc 17,19).

Os dez foram curados, mas só um recebeu algo a mais: a salvação que nasce do encontro pessoal com Jesus. A gratidão abriu nele a porta da fé. Mais uma vez, Lucas mostra um estrangeiro como exemplo, como o bom samaritano de Lucas 10.

Versículos 20 e 21: o Reino está no meio de vós

Os fariseus perguntam quando chegará o Reino de Deus. Jesus responde que ele não vem de modo que se possa observar e calcular. Ninguém dirá “está aqui” ou “está ali”, porque o Reino de Deus está no meio de vós. A expressão grega pode ser traduzida como “no meio de vós” ou “dentro de vós”, e os estudiosos discutem. No contexto, o sentido principal é que o Reino já está presente na pessoa de Jesus, que está diante deles.

Versículos 22 a 37: o dia do Filho do Homem

Agora Jesus fala aos discípulos. Virão dias em que desejarão ver um dos dias do Filho do Homem e não verão. Não devem correr atrás de quem diz “está aqui” ou “está ali”. A vinda do Filho do Homem será como o relâmpago, que ilumina o céu de uma ponta a outra: visível a todos, sem precisar de anúncio. Mas antes Ele precisa sofrer muito e ser rejeitado.

Jesus compara aquele dia aos dias de Noé e de Ló (Gn 6 a 8; Gn 19). As pessoas comiam, bebiam, casavam, compravam, vendiam, plantavam e construíam. Nada disso é mau, mas viviam distraídas, sem pensar em Deus, e foram surpreendidas. “Lembrai-vos da mulher de Ló”, diz Jesus: ela olhou para trás e se perdeu (Gn 19,26). Quem quiser segurar a própria vida a perderá; quem a perder a conservará.

Naquela noite, de dois que estiverem numa cama, um será tomado e outro deixado; de duas mulheres moendo juntas, uma será tomada e outra deixada. Os discípulos perguntam onde. Jesus responde com um provérbio: onde estiver o corpo, aí se juntarão os abutres. Ou seja, quando chegar a hora, será evidente. O paralelo está em Mt 24,26 a 41.

O que Lucas 17 ensina para a fé católica?

  • A gravidade do escândalo. A Igreja ensina que quem leva outro a pecar, sobretudo os pequenos e os fracos, assume uma grande responsabilidade.
  • O perdão como estilo de vida. O cristão perdoa sempre que o irmão se arrepende, porque ele mesmo foi perdoado por Deus.
  • A fé é dom e se pede. O pedido dos apóstolos é uma oração que podemos repetir. A fé cresce na oração e nos sacramentos.
  • A ação de graças. O samaritano mostra que agradecer é parte da fé. O Catecismo ensina que todo acontecimento e toda necessidade podem se tornar oferta de ação de graças (CIC n. 2638). A palavra Eucaristia quer dizer justamente ação de graças.
  • A espera vigilante. Cristo voltará na glória. A Igreja não marca datas, mas pede que vivamos preparados todos os dias.

Reflexão para hoje

É fácil ser um dos nove. Recebemos uma graça, uma cura, um emprego, uma reconciliação, e seguimos a vida sem voltar para agradecer. A gratidão não muda Deus. Muda a nós: abre os olhos para perceber quanto já recebemos. Uma boa prática é terminar o dia lembrando três coisas pelas quais dar graças. Pode ajudar a oração de gratidão a Deus.

O perdão sete vezes ao dia parece impossível, sobretudo em casa, onde as pequenas feridas se repetem. Por isso os apóstolos pedem mais fé. Perdoar não é fingir que nada aconteceu. É não deixar que a ofensa tenha a última palavra.

E a vida comum, comer, trabalhar, casar, comprar, não é inimiga de Deus. O perigo é viver tudo isso sem Ele, distraídos. O cristão pode fazer as mesmas coisas que todos, mas com o coração acordado.

Para rezar com Lucas 17

  • Por quais graças eu ainda não voltei para agradecer?
  • Há alguém a quem preciso perdoar de novo?
  • Meu exemplo ajuda ou atrapalha a fé de quem está perto de mim?

Sugestão de oração:

Jesus, Mestre, tem compaixão de mim. Aumenta a minha fé, para que eu saiba perdoar como Tu perdoas. Não quero ser um dos nove que esqueceram de agradecer. Volto a Ti hoje para te dizer obrigado por tudo o que me deste. Mantém meu coração acordado até a tua vinda. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 2638.

Perguntas sobre Lucas 17

Por que só um dos dez leprosos voltou para agradecer?

O Evangelho não diz o motivo dos outros nove. Lucas destaca que quem voltou era samaritano, um estrangeiro, e que a gratidão o levou a um encontro pessoal com Jesus e à salvação.

O que significa somos servos inúteis em Lucas 17,10?

Significa que não temos méritos para cobrar de Deus, pois tudo é graça. Não quer dizer que nosso serviço não vale, mas que o fazemos com humildade, sem orgulho.

O Reino de Deus está dentro de nós ou no meio de nós?

O grego permite as duas traduções e os estudiosos discutem. No contexto, Jesus fala sobretudo de que o Reino já está presente nele, que estava no meio dos fariseus.

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