Tempo Comum, 30ª semana Liturgia de hoje
Católicos Orantes
Gênesis

Gênesis 15: a fé de Abrão e a aliança, explicação

Leia Gênesis 15 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

Jacó dorme sobre a pedra e sonha com a escada que sobe ao céu
Jusepe de Ribera, O sonho de Jacó, 1639. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Gênesis 15 é o capítulo da fé de Abrão e da aliança. Abrão se queixa a Deus por não ter filhos, e Deus o leva para fora e lhe mostra as estrelas: assim será a tua descendência. Abrão crê, e essa fé lhe é contada como justiça. Depois, num rito solene com animais partidos ao meio, Deus se compromete a dar a terra à sua descendência.

Contexto de Gênesis 15

Desde o capítulo 12, Deus prometeu a Abrão terra e descendência. Mas os anos passam, Abrão envelhece, Sarai continua estéril e ele vive como estrangeiro em Canaã. Acabou de vencer uma guerra e de recusar os bens do rei de Sodoma (Gênesis 14). Agora, num diálogo íntimo, aparece a pergunta que estava escondida: quando a promessa vai se cumprir?

O capítulo tem duas partes: a promessa da descendência (versículos 1 a 6) e a promessa da terra, selada por uma aliança (versículos 7 a 21). É um dos textos mais citados do Antigo Testamento no Novo.

Explicação de Gênesis 15

Versículo 1: não temas, eu sou o teu escudo

A palavra do Senhor vem a Abrão numa visão. Deus diz que é o seu escudo e que a recompensa de Abrão será muito grande. Depois de recusar os despojos de guerra, Abrão ouve que a sua verdadeira riqueza é o próprio Deus. O "não temas" é a primeira palavra de consolo de Deus nos relatos dos patriarcas, e voltará muitas vezes na Bíblia, até o anjo dizer a Maria: não tenhas medo.

Versículos 2 e 3: a queixa de Abrão

Abrão responde com sinceridade: de que vale a recompensa se continuo sem filhos? O herdeiro da minha casa será Eliezer de Damasco, um servo. Pelos costumes da época, quem não tinha filhos podia deixar a herança a um servo da casa. Abrão não esconde de Deus a sua frustração. A oração na Bíblia inclui a queixa honesta.

Versículos 4 a 6: as estrelas e a fé

Deus responde: não será esse o teu herdeiro, mas um que sairá das tuas entranhas. Leva Abrão para fora da tenda e manda que ele conte as estrelas, se puder. Assim será a tua descendência.

Então vem o versículo central: “Abrão creu no Senhor, e isso lhe foi contado como justiça” (Gn 15,6). Abrão não recebe nenhuma prova. Continua velho e sem filho. Mas apoia a sua vida na palavra de Deus. A palavra hebraica para crer tem a mesma raiz de amém: firmar-se, apoiar-se em algo sólido. A justiça aqui é a relação certa com Deus, que nasce dessa confiança.

São Paulo cita esse versículo em Romanos 4 e em Gálatas 3 para mostrar que Abraão foi justificado pela fé antes da circuncisão e da Lei. São Tiago também o cita (Tg 2,23), lembrando que essa fé se mostrou em obras, sobretudo no sacrifício de Isaac.

Versículos 7 a 11: o pedido de um sinal

Deus se apresenta: eu sou o Senhor que te tirou de Ur dos caldeus para te dar esta terra. Abrão pergunta: como saberei que vou possuí-la? Deus manda preparar uma novilha, uma cabra e um carneiro, todos de três anos, uma rola e um pombinho. Abrão parte os animais ao meio e coloca as metades uma diante da outra; as aves não são partidas. Quando as aves de rapina descem sobre os animais, Abrão as espanta.

Era um rito de aliança conhecido no Antigo Oriente. As partes do pacto passavam entre os animais partidos, como quem diz: que me aconteça o mesmo se eu não cumprir. O profeta Jeremias alude a esse costume (Jr 34,18).

Versículos 12 a 16: a profecia do Egito

Ao pôr do sol, um torpor cai sobre Abrão, junto com um grande e escuro terror. Deus anuncia que a descendência dele será estrangeira numa terra que não é sua, escravizada e oprimida por quatrocentos anos. Mas Deus julgará a nação opressora, e eles sairão com grandes bens. Abrão morrerá em paz, em boa velhice, e os seus descendentes voltarão na quarta geração, porque a iniquidade dos amorreus ainda não chegou ao auge.

A promessa não exclui o sofrimento. Deus revela de antemão o Egito e o Êxodo. A última frase mostra também a paciência de Deus com os povos de Canaã: ele espera antes de julgar.

Versículos 17 a 21: Deus passa entre os animais

Já escuro, um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passam entre os animais partidos. Fogo e fumaça são sinais da presença de Deus, como mais tarde no Sinai. O detalhe decisivo é que só Deus passa. Abrão não. Deus assume sozinho o juramento. Naquele dia o Senhor fez aliança com Abrão e prometeu a terra desde o rio do Egito até o grande rio Eufrates, terra então ocupada por vários povos, que o texto enumera.

O que Gênesis 15 ensina para a fé católica?

Abraão é o modelo da fé. O Catecismo, seguindo a Carta aos Hebreus, apresenta a fé de Abraão como obediência à palavra de Deus e lembra que por ela ele se tornou o pai de todos os crentes (CIC n. 145 e 146). Crer não é ter todas as respostas, mas confiar em quem prometeu. Saiba mais sobre a virtude da fé.

O capítulo mostra também a iniciativa de Deus. A aliança é graça: Deus se compromete antes de pedir qualquer coisa. Isso prepara a grande verdade do Novo Testamento, em que Cristo sela com o seu sangue a nova e eterna aliança. A Igreja lê Gênesis 15,5-12.17-18 no segundo domingo da Quaresma do ano C, ao lado do relato da Transfiguração.

A leitura católica une fé e obras. A fé de Abraão justifica, e essa mesma fé se torna obediência, como dirá Tiago. Não há oposição entre Paulo e Tiago: a fé verdadeira age pela caridade.

Reflexão para hoje

Abrão rezou com uma queixa. Muitos católicos acham que não podem dizer a Deus que estão cansados de esperar. Gênesis 15 mostra o contrário: Deus acolhe a pergunta sincera e responde com uma promessa renovada. Leve a Deus o que realmente está no seu coração.

A cena das estrelas é bonita e concreta. Deus não dá a Abrão uma explicação, mas um céu para olhar. Quando a vida parece parada, um emprego que não chega, uma gravidez que não vem, um filho que se afastou da fé, a fé nos ajuda a olhar para além do momento presente. Deus vê mais longe do que nós.

E, se até Abrão teve de espantar as aves de rapina que queriam estragar o sacrifício, também nós temos de proteger a nossa oração das distrações e dos desânimos. A perseverança faz parte da fé.

Para rezar com Gênesis 15

  • Que queixa eu tenho guardado e ainda não levei a Deus na oração?
  • Em que promessa de Deus eu preciso me apoiar hoje, mesmo sem ver resultados?
  • O que são as "aves de rapina" que atrapalham a minha oração?

Sugestão de oração:

Senhor, tu és o meu escudo e a minha recompensa. Como Abrão, às vezes não vejo o cumprimento das tuas promessas. Ensina-me a olhar as estrelas e a confiar em ti. Que a minha fé se torne obediência e que eu permaneça fiel à aliança que fizeste comigo no Batismo. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 145 e 146; Lecionário Dominical.

Capítulos vizinhos: Gênesis 14 e Gênesis 16. Veja também Hebreus 11.

Perguntas sobre Gênesis 15

O que significa "Abrão creu no Senhor, e isso lhe foi contado como justiça"?

Significa que Abrão se tornou justo diante de Deus por confiar na sua promessa, quando ainda não via nada. São Paulo usa esse versículo para mostrar que somos justificados pela fé (Rm 4).

Por que Abrão cortou os animais ao meio?

Era um rito antigo de aliança: quem passava entre as partes se comprometia, como se dissesse "que me aconteça o mesmo se eu quebrar o pacto". Em Gênesis 15, só Deus passa, sob a forma de fogo, assumindo sozinho o compromisso.

O que são os 400 anos anunciados em Gênesis 15?

É o anúncio do tempo em que os descendentes de Abrão seriam estrangeiros e oprimidos em outra terra, o que se cumpre na escravidão no Egito, antes do Êxodo.

Está lendo a Bíblia inteira? Acompanhe no Plano de leitura da Bíblia ou reze o texto com a Lectio Divina.