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Gênesis

Gênesis 14: Melquisedec, pão e vinho, explicação

Leia Gênesis 14 na sua Bíblia e acompanhe aqui a explicação, o que a Igreja ensina e uma reflexão para rezar.

Jacó dorme sobre a pedra e sonha com a escada que sobe ao céu
Jusepe de Ribera, O sonho de Jacó, 1639. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Gênesis 14 narra uma guerra entre reis da região, a captura de Ló e o seu resgate por Abrão. Na volta da batalha aparece uma figura misteriosa: Melquisedec, rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo, que oferece pão e vinho e abençoa Abrão. A Igreja vê nele uma figura de Cristo sacerdote e um anúncio da Eucaristia.

Contexto de Gênesis 14

O capítulo está no ciclo de Abraão (Gênesis 12 a 25), que conta como Deus chamou Abrão e o fez caminhar pela fé. No capítulo 13, Abrão e o sobrinho Ló tinham se separado: Ló escolheu a planície fértil do Jordão, perto de Sodoma, e Abrão ficou em Canaã, junto aos carvalhos de Mambré, em Hebron.

Gênesis 14 tem um estilo diferente dos capítulos vizinhos. Parece uma crônica de guerra, cheia de nomes de reis e lugares. Os estudiosos não conseguiram identificar com segurança esses reis em documentos de fora da Bíblia, e há debate sobre a origem do relato. O que importa ao autor sagrado é mostrar Abrão como homem forte, leal ao parente e livre diante das riquezas.

Explicação de Gênesis 14

Versículos 1 a 12: a guerra dos reis e a captura de Ló

Quatro reis do oriente, liderados por Codorlaomor, rei de Elam, dominavam cinco reis da região do Mar Morto, entre eles os de Sodoma e Gomorra. Depois de doze anos de submissão, estes se revoltaram. Os reis do oriente vieram, venceram vários povos pelo caminho e enfrentaram os cinco reis no vale de Sidim, que o texto identifica com o Mar Salgado, isto é, o Mar Morto.

O vale estava cheio de poços de betume, e os reis de Sodoma e Gomorra, ao fugir, caíram neles. Os vencedores levaram os bens das cidades e também Ló, que morava em Sodoma. A escolha de Ló no capítulo anterior, feita pela aparência das terras, começa a mostrar o seu preço.

Versículos 13 a 16: Abrão resgata o sobrinho

Um fugitivo avisa Abrão, aqui chamado de "o hebreu", primeira vez que a palavra aparece na Bíblia. Abrão reúne 318 homens nascidos na sua casa, junta-se aos aliados amorreus Aner, Escol e Mambré e persegue os inimigos até Dã, no norte. Ataca de noite, divide os seus homens, vence e recupera tudo: os bens, Ló, as mulheres e o povo.

Abrão não guardou rancor pela escolha egoísta do sobrinho. Quando Ló precisou, ele arriscou a vida. A fidelidade aos laços de família aparece como parte da justiça do homem de fé.

Versículos 17 a 20: Melquisedec, rei e sacerdote

Na volta, dois reis saem ao encontro de Abrão. O primeiro é o rei de Sodoma. Mas o texto interrompe a cena para apresentar outro: “Melquisedec, rei de Salém, trouxe pão e vinho; ele era sacerdote do Deus Altíssimo” (Gn 14,18).

O nome Melquisedec significa rei de justiça, e Salém lembra a palavra shalom, paz. A tradição judaica e cristã identifica Salém com Jerusalém, como sugere o Salmo 76. Melquisedec não pertence à família de Abrão nem ao povo de Israel, que ainda não existia, e mesmo assim é sacerdote do Deus verdadeiro, chamado aqui de Deus Altíssimo, criador do céu e da terra.

Ele abençoa Abrão e bendiz a Deus pela vitória. Abrão, por sua vez, lhe dá o dízimo de tudo, reconhecendo nele um sacerdote. O pão e o vinho podiam ser simplesmente alimento para os guerreiros cansados, mas o fato de serem oferecidos por um sacerdote, num contexto de bênção, fez a Tradição ver ali um gesto sagrado.

Melquisedec só reaparece no Salmo 110, onde o rei messiânico é chamado sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec, e na Carta aos Hebreus (capítulos 5 a 7, sobretudo o capítulo 7), que aplica tudo isso a Jesus.

Versículos 21 a 24: Abrão recusa os bens de Sodoma

O rei de Sodoma propõe: fica com os bens e devolve-me as pessoas. Abrão responde que jurou ao Senhor, Deus Altíssimo, que não tomaria nada, nem um fio, nem uma correia de sandália, para que o rei não pudesse dizer: fui eu que enriqueci Abrão. Só aceita o que os seus homens comeram e a parte devida aos aliados.

O contraste é claro. Diante de Melquisedec, Abrão dá. Diante do rei de Sodoma, Abrão recusa. Ele aceita a bênção de Deus e rejeita a riqueza que viria de uma cidade marcada pelo mal. A sua segurança está na promessa, não nos despojos.

O que Gênesis 14 ensina para a fé católica?

A Igreja lê Melquisedec como figura de Cristo. A Carta aos Hebreus ensina que Jesus é sacerdote não segundo a descendência de Aarão, mas segundo a ordem de Melquisedec: um sacerdócio eterno, que não depende de genealogia, que une realeza e sacerdócio, justiça e paz.

O pão e o vinho ganham sentido pleno na Eucaristia. O Catecismo ensina que a Igreja vê no gesto do rei e sacerdote Melquisedec, que ofereceu pão e vinho, uma prefiguração da sua própria oferta (CIC n. 1333). Por isso a Oração Eucarística I, o Cânon Romano, pede a Deus que aceite a oferta da Igreja como aceitou a oblação de Melquisedec. Os versículos 18 a 20 são lidos na solenidade do Corpus Christi no ano C.

O capítulo mostra ainda que Deus age também fora das fronteiras do povo escolhido. Melquisedec é um pagão justo que conhece o Deus Altíssimo. A revelação não está presa a um grupo, embora Deus tenha escolhido Abrão e a sua descendência para preparar a salvação de todos.

Reflexão para hoje

Abrão poderia ter deixado Ló sofrer as consequências da sua escolha. Não deixou. Em muitas famílias há parentes que se afastaram, fizeram escolhas ruins ou nos magoaram. A fé não pede que finjamos que nada aconteceu, mas pede disposição para socorrer quando o outro está em perigo.

A recusa de Abrão diante do rei de Sodoma também fala ao nosso tempo. Há ganhos que nos amarram: um favor que compra o nosso silêncio, um dinheiro que vem de fonte duvidosa, uma vantagem que nos deixa devendo a quem não deveríamos. Abrão preferiu ficar livre. Quem confia em Deus pode dizer não ao lucro fácil.

Por fim, toda vez que vamos à Missa, o pão e o vinho levados ao altar lembram Melquisedec. Mas ali não há apenas um sinal: há o próprio Cristo, sacerdote e vítima, que se dá a nós. O que era figura em Gênesis 14 se torna realidade no altar.

Para rezar com Gênesis 14

  • Há alguém da minha família que precisa de ajuda e que eu deixei de lado por mágoa?
  • Existe algum ganho na minha vida que me tira a liberdade diante de Deus?
  • Como tenho participado do ofertório e da Oração Eucarística na Missa?

Sugestão de oração:

Deus Altíssimo, criador do céu e da terra, tu abençoaste Abrão pela mão de Melquisedec. Dá-me um coração fiel aos meus, livre diante do dinheiro e agradecido pelo pão e pelo vinho que se tornam o Corpo e o Sangue do teu Filho. Por Cristo, sacerdote eterno. Amém.

Fontes

Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 1333; Missal Romano, Oração Eucarística I.

Capítulos vizinhos: Gênesis 13 e Gênesis 15. Veja também Salmo 110.

Perguntas sobre Gênesis 14

Quem foi Melquisedec em Gênesis 14?

Era rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo. Ofereceu pão e vinho, abençoou Abrão e recebeu dele o dízimo. A Carta aos Hebreus e a Tradição da Igreja o veem como figura de Cristo, sacerdote eterno.

Por que Melquisedec é ligado à Eucaristia?

Porque ofereceu pão e vinho. O Catecismo diz que a Igreja vê nesse gesto uma prefiguração da sua própria oferta, e o Cânon Romano recorda a oblação de Melquisedec na Missa.

Por que Abrão recusou os bens do rei de Sodoma?

Para que ninguém dissesse que foi um rei humano que o enriqueceu. Abrão quis depender só de Deus, que lhe tinha feito as promessas.

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