Romanos 4 apresenta Abraão como exemplo da fé que justifica. Paulo mostra que Abraão foi considerado justo por ter confiado em Deus, antes da circuncisão e antes da Lei de Moisés. Por isso ele é pai de todos os que creem, judeus e pagãos, e sua fé, que esperou contra toda esperança, é modelo para os cristãos.
Contexto de Romanos 4
No final do capítulo 3, Paulo afirmou que o homem é justificado pela fé, sem as obras da Lei, e que isso não anula a Lei. Agora ele prova o que disse com a própria Escritura. Para um judeu, nenhum exemplo seria mais forte do que Abraão, o pai do povo de Israel. Paulo se apoia sobretudo em Gênesis 15,6 e também cita o Salmo 32, atribuído a Davi.
O argumento segue o modo de interpretar as Escrituras dos mestres judeus da época: analisa palavras, compara textos e presta atenção à ordem dos acontecimentos.
Explicação de Romanos 4
Versículos 1 a 8: a fé de Abraão e a bem-aventurança de Davi
Paulo pergunta o que Abraão obteve. Se tivesse sido justificado pelas obras, teria do que se gloriar, mas não diante de Deus. A Escritura diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça” (Rm 4,3, citando Gn 15,6). O Catecismo cita este versículo ao apresentar Abraão como modelo da obediência da fé (CIC n. 146).
Paulo compara com o mundo do trabalho: o salário do trabalhador não é presente, é dívida. Mas Abraão recebeu a justiça como dom, porque confiou em Deus, que justifica o ímpio. Em seguida cita o Salmo 32,1-2: feliz aquele cuja culpa foi perdoada e cujo pecado foi coberto. Davi, que conheceu o próprio pecado, fala da alegria de ser perdoado por Deus.
Versículos 9 a 12: antes da circuncisão
Essa felicidade é só para os circuncidados? Paulo observa um detalhe da história: Abraão foi declarado justo em Gênesis 15, mas só foi circuncidado em Gênesis 17. Portanto, a circuncisão veio depois, como sinal e selo da justiça que ele já tinha recebido pela fé. Assim Abraão se torna pai de dois grupos: dos pagãos que creem sem serem circuncidados e dos judeus que, além da circuncisão, seguem os passos da fé de Abraão.
A tradição cristã viu aqui uma luz para entender os sacramentos. O sinal não é dispensável, mas está a serviço da graça que Deus dá e da fé que a acolhe.
Versículos 13 a 17: a promessa vem pela fé
A promessa de que Abraão seria herdeiro do mundo não veio pela Lei, que só seria dada séculos depois no Sinai, mas pela justiça da fé. Se a herança dependesse da Lei, a promessa ficaria sem efeito, porque a Lei, diante da transgressão, provoca a ira. Por isso tudo depende da fé, para que seja dom gratuito e a promessa fique garantida para toda a descendência.
Paulo lembra Gênesis 17,5, em que Deus diz que fez de Abraão pai de muitas nações. Abraão creu no Deus que dá vida aos mortos e chama à existência as coisas que não existem. O Catecismo usa essa expressão ao ensinar que Deus cria do nada (CIC n. 298).
Versículos 18 a 22: esperança contra toda esperança
Abraão tinha quase cem anos, e Sara já não podia ter filhos. Humanamente, a promessa era impossível. Mesmo assim, diz Paulo, contra toda esperança ele esperou e creu. Não duvidou por falta de fé; ao contrário, fortaleceu-se na fé, dando glória a Deus, plenamente convencido de que Deus tem poder para cumprir o que promete. O Catecismo apresenta esta atitude como exemplo da virtude da esperança (CIC n. 1819).
A fé de Abraão não é um sentimento vago. É confiança na palavra de Deus mesmo quando tudo parece dizer o contrário. É também uma fé que se põe a caminho: Abraão deixou sua terra (Gn 12,1-4) e esteve disposto a oferecer Isaac (Gn 22). A Carta de Tiago, olhando para esse episódio, dirá que a fé de Abraão cooperava com suas obras (Tg 2,21-23). Paulo e Tiago tratam de questões diferentes e não se contradizem.
Versículos 23 a 25: escrito também para nós
A frase “foi-lhe creditado” não foi escrita só para Abraão, mas também para nós, que cremos naquele que ressuscitou Jesus dentre os mortos. Paulo resume o mistério pascal em uma frase: Jesus foi entregue por causa dos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação (Rm 4,25). O Catecismo usa este versículo para mostrar que a Páscoa de Cristo é a fonte da nossa justificação (CIC n. 519).
O que Romanos 4 ensina para a fé católica?
- Abraão é o pai na fé. A Igreja o venera como modelo da obediência da fé (CIC n. 146).
- A justiça é dom e não salário. Ninguém tem direito estrito diante de Deus (CIC n. 2007). Isso não elimina o valor das boas obras, que a graça torna possíveis.
- Os sinais selam a graça. A circuncisão foi selo da justiça recebida pela fé. Na Nova Aliança, o Batismo é o sacramento da fé pelo qual somos justificados.
- A fé inclui a esperança. Crer é confiar que Deus cumpre suas promessas, mesmo quando parece impossível (CIC n. 1819).
- A Ressurreição faz parte da salvação. Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação (CIC n. 519).
Reflexão para hoje
Quase todo mundo já viveu uma situação em que a esperança parecia sem fundamento: um diagnóstico difícil, um casamento em crise, um filho afastado de Deus, um desemprego longo. Abraão nos ensina que a fé não ignora a realidade. Ele sabia que seu corpo estava velho e que Sara era estéril. Mesmo assim, olhou para Deus mais do que para os obstáculos.
Também é bom lembrar que Abraão não recebeu tudo de uma vez. Esperou anos, errou, voltou a confiar. A fé cresce com o tempo, na oração diária e na fidelidade às pequenas coisas. A virtude da esperança, explicada na página sobre a virtude da esperança, é exatamente isso: apoiar-se na promessa de Deus, e não nas próprias forças.
Para rezar com Romanos 4
- Qual promessa de Deus me parece hoje difícil de acreditar?
- Eu me relaciono com Deus como quem recebe um dom ou como quem cobra um salário?
- Como a ressurreição de Jesus muda o modo como encaro meus problemas?
Sugestão de oração:
Deus de Abraão, que chamas à existência o que não existe, fortalece a minha fé quando tudo parece impossível. Ensina-me a esperar contra toda esperança e a dar glória a ti em todas as coisas. Por Jesus, entregue por nossos pecados e ressuscitado para nossa justificação. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 146, 298, 519, 1819 e 2007.
Perguntas sobre Romanos 4
Por que Abraão é chamado pai de todos os que creem?
Romanos 4 contradiz Tiago 2, que diz que Abraão foi justificado pelas obras?
O que significa esperar contra toda esperança?
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