Atos dos Apóstolos 4 narra a primeira perseguição contra os apóstolos. Depois da cura do coxo, Pedro e João são presos e levados ao Sinédrio, onde Pedro proclama que não há salvação em nenhum outro nome além do de Jesus. Libertados com ameaças, eles voltam à comunidade, que reza pedindo coragem. O capítulo termina mostrando a união dos fiéis e a partilha dos bens.
Contexto de Atos dos Apóstolos 4
O capítulo continua diretamente a cena anterior: Pedro ainda está falando ao povo no pórtico de Salomão, depois da cura do homem coxo na Porta Formosa (Atos 3). O Sinédrio era o conselho supremo dos judeus em Jerusalém, formado por sacerdotes, anciãos e escribas, presidido pelo sumo sacerdote. Os saduceus, grupo ligado à elite sacerdotal, não acreditavam na ressurreição dos mortos; por isso o anúncio de Jesus ressuscitado os incomodava duplamente.
Explicação de Atos dos Apóstolos 4
Versículos 1 a 4: a prisão
Os sacerdotes, o chefe da guarda do templo e os saduceus chegam irritados porque os apóstolos ensinam o povo e anunciam, em Jesus, a ressurreição dos mortos. Prendem Pedro e João e os deixam na prisão até o dia seguinte, pois já era tarde. Mesmo assim, muitos dos que ouviram a palavra acreditam, e o número dos homens chega a cerca de cinco mil. A prisão não detém a Palavra: esse é um tema que voltará várias vezes no livro.
Versículos 5 a 12: o único nome que salva
No dia seguinte se reúnem as autoridades, entre elas Anás, o sumo sacerdote, e Caifás, os mesmos que tinham participado do processo de Jesus. Perguntam aos apóstolos com que poder ou em nome de quem fizeram aquilo. Pedro, cheio do Espírito Santo, responde. Se estão sendo interrogados por terem feito o bem a um doente, saibam todos que ele foi curado pelo nome de Jesus Cristo, o Nazareu, que vocês crucificaram e que Deus ressuscitou.
Pedro aplica a Jesus o Salmo 118: a pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular (Sl 118,22). O próprio Jesus tinha usado esse salmo (Mc 12,10). E conclui com uma afirmação central da fé cristã: "Não há salvação em nenhum outro" (At 4,12), pois debaixo do céu não foi dado aos homens outro nome pelo qual devamos ser salvos. É o mesmo Pedro que poucas semanas antes negou Jesus diante de uma criada; agora o confessa diante do tribunal supremo.
Versículos 13 a 22: obedecer a Deus
As autoridades se admiram com a franqueza de Pedro e João, sabendo que eram homens simples, sem instrução formal, e reconhecem que tinham estado com Jesus. Ao lado deles está o homem curado, e não há o que contestar. Os chefes conversam a sós e decidem apenas proibir que falem nesse nome.
Os apóstolos respondem que os próprios juízes avaliem se é justo, diante de Deus, obedecer mais a eles do que a Deus. E dizem que não podem deixar de falar do que viram e ouviram. Depois de novas ameaças, são soltos, porque o povo glorificava a Deus pelo acontecido. Lucas anota que o homem curado tinha mais de quarenta anos, o que torna o milagre ainda mais evidente.
Versículos 23 a 31: a oração da comunidade
Libertados, Pedro e João vão aos seus e contam tudo. A comunidade responde rezando unida. A oração começa chamando Deus de Senhor, criador do céu, da terra e do mar. Depois cita o Salmo 2: por que as nações se agitam e os reis se aliam contra o Senhor e contra o seu Ungido (Sl 2,1-2)? A comunidade vê esse salmo cumprido na paixão, quando Herodes e Pôncio Pilatos, com os pagãos e o povo de Israel, se uniram contra Jesus, realizando o que Deus tinha previsto.
O mais surpreendente é o pedido. Eles não pedem que a perseguição acabe nem que os inimigos sejam castigados. Pedem coragem para anunciar a Palavra com toda a franqueza, e que Deus estenda a mão para curas e sinais em nome de Jesus. Terminada a oração, o lugar treme, todos ficam cheios do Espírito Santo e anunciam a Palavra com coragem. É como um pequeno Pentecostes.
Versículos 32 a 35: um só coração e uma só alma
Lucas faz um novo resumo da vida da comunidade, parecido com o de Atos 2. A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava seu o que possuía; tudo era posto em comum. Os apóstolos davam testemunho da ressurreição com grande poder. Entre eles não havia necessitados, porque quem tinha terrenos ou casas os vendia e depositava o valor aos pés dos apóstolos, para ser distribuído segundo a necessidade de cada um. Ecoa aqui a promessa da Lei de que não haveria pobres no meio do povo (Dt 15,4).
Versículos 36 e 37: o exemplo de Barnabé
Lucas apresenta um exemplo concreto: José, levita natural de Chipre, a quem os apóstolos deram o apelido de Barnabé, que Lucas traduz como filho da consolação ou da exortação. Ele vende um campo e entrega o dinheiro aos apóstolos. Barnabé terá papel importante mais adiante, ao acolher Paulo e acompanhá-lo na primeira viagem missionária. A sua generosidade contrasta com o episódio de Ananias e Safira, narrado logo a seguir (Atos 5).
O que Atos dos Apóstolos 4 ensina para a fé católica?
O versículo 12 é uma das bases da fé da Igreja sobre Jesus como único Salvador. O Catecismo o cita ao explicar o nome de Jesus, que significa Deus salva (CIC n. 452). A Igreja ensina que toda salvação vem de Cristo, mesmo quando Deus age de modos que só ele conhece em quem, sem culpa, não o conheceu.
A resposta dos apóstolos ao Sinédrio também ilumina a relação entre fé e autoridade. Os cristãos respeitam as autoridades legítimas, mas quando uma ordem humana contraria a vontade de Deus, a consciência obriga a obedecer a Deus. Essa ideia volta com ainda mais clareza no capítulo seguinte (At 5,29).
A oração dos versículos 24 a 30 é um modelo de oração da Igreja: começa louvando o Criador, lê os acontecimentos à luz da Escritura e pede não conforto, mas fidelidade à missão. E a comunhão de bens mostra que a fé atinge também o bolso: a caridade concreta é sinal da ressurreição. Os versículos 8 a 12 são lidos no 4º Domingo da Páscoa do Ano B, e os versículos 32 a 35 no 2º Domingo da Páscoa do Ano B.
Reflexão para hoje
Pedro e João eram considerados homens sem estudo, e mesmo assim falaram com uma segurança que surpreendeu os doutores. A razão está no texto: tinham estado com Jesus. Ninguém precisa de diploma para testemunhar a fé. Precisa de convivência com Jesus, na oração, na Palavra, nos sacramentos.
A oração da comunidade perseguida ensina muito. Quando enfrentamos uma dificuldade no trabalho, na família ou por causa da fé, nosso primeiro pedido costuma ser que o problema desapareça. Os primeiros cristãos pediram coragem. Não é errado pedir alívio, mas vale acrescentar: Senhor, dá-me força para ser fiel no meio disso.
A partilha da primeira comunidade não precisa ser copiada ao pé da letra para nos interpelar. Na nossa paróquia, no nosso prédio, na nossa família, existe alguém passando necessidade? Um só coração e uma só alma começa quando alguém percebe o outro.
Para rezar com Atos dos Apóstolos 4
- Onde eu tenho deixado de falar de Jesus por medo do que os outros vão pensar?
- Quando rezo nas dificuldades, peço só que elas acabem ou também peço coragem para ser fiel?
- O que eu possuo que poderia ser partilhado com alguém necessitado?
Sugestão de oração:
Senhor, criador do céu e da terra, olha para as ameaças e os medos que nos cercam. Dá aos teus servos coragem para anunciar a tua Palavra e generosidade para partilhar o que temos. Que sejamos um só coração e uma só alma, em nome de Jesus, o único nome que salva. Amém.
Fontes
Bíblia Sagrada (tradução da CNBB); Catecismo da Igreja Católica, n. 452.
Perguntas sobre Atos dos Apóstolos 4
O que significa Não há salvação em nenhum outro?
Quem era Barnabé em Atos 4?
Os primeiros cristãos tinham tudo em comum?
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